Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 28

Salmo gratulatório. Davi descreve neste Salmo os maravilhosos efeitos da Onipotência do Senhor, manifestada pela voz do trovão.

1Salmo de Davi. Na consumação do Tabernáculo. Trazei ao Senhor, ó filhos de Deus: Trazei ao Senhor tenros cordeiros.[1]Na consumação do TabernáculoEstas palavras não estão no original, mas referem-se ao momento da trasladação da arca, em que se ouviu um enorme trovão, por isso a êste Salmo chamam alguns críticos o Salmo dos trovões. É um poema descritivo de grande valor. No original admira-se a harmonia imitativa do estilo, em virtude de onomatopéias de grande merecimento, o que não pode ser reprodução pela tradução. Tem cinco estrofes. Nesta descrição há duas cenas que formam um admirável contraste, uma sôbre a terra, a outra no Céu.

2Rendei ao Senhor glória e honra. Rendei ao Senhor a glória devida ao Senhor: Adorai ao Senhor, no átrio do seu Santuário.[2]No átrio do seu SantuárioO átrio do Santuário, ou Tabernáculo, era o lugar onde se congregava o povo para assistir ao culto e aos sacrifícios, e representava a Igreja Cristã, na qual os fiéis dão a Deus o verdadeiro culto e oferecem o sacrifício do cordeiro imaculado. — P. Scio.

3Voz do Senhor sôbre as águas, o Deus da majestade trovejou: O Senhor sôbre muitas águas.[3]Voz do Senhor sôbre as águasO trovão se chama a cada passo na Escritura a Voz de Deus. Com esta linguagem sublime se simboliza a palavra do Evangelho, anunciada pelos apóstolos a tôda a terra, cuja soada se ouviu como um trovão. — Calmet.

4Voz do Senhor em poder: Voz do Senhor em magnificência.

5Voz do Senhor que quebra os cedros: E o Senhor quebrará os cedros do Líbano:

6E os fará em pequenos pedaços como a um bezerro do Líbano: E ao filho amado do unicórnio.[4]E os fará em pequenos pedaçosO hebreu diz: "E os fará saltar como ao bezerro, ao Líbano e ao Sarion, como filhos de unicórnios." Isto é, esmagará os cedros com os seus raios e com violentos furacões os arrancará; e desencaixando-se os penhascos do Líbano e do Sarion com terremotos, saltarão pelo ar, como saltam os bezerrinhos e os filhos dos unicórnios. O texto dos Setenta e os da Vulgata são mui obscuros, por se haver trasladado o nome próprio hebraico, que é o do monte Sarion ou Hermion. Dt 3. A voz amada se refere sem dúvida ao verbo encarnado, ao Unigênito do Padre, em cuja virtude os apóstolos obraram coisas maravilhosas na conversão do mundo. — P. Scio.

7Voz do Senhor que divide a chama do fogo:

8Voz do Senhor que abala o deserto: Porque o Senhor fará tremer o deserto de Cades.

9Voz do Senhor que prepara os veados, e descobrirá as espessuras: E no seu templo todos anunciarão a sua glória.[5]Que prepara os veadosAssim diz o hebreu, o que comumente se explica desta maneira: O ruído espantoso do trovão prepara as corças e as dispõe para que se descarreguem das suas crias antes de tempo, porque, segundo o curso ordinário da natureza, experimentam para isto maior trabalho e dificuldade que a maior parte dos outros animais. Veja-se Jó 39, 1. O Concurrientis desertum Cades do verso 8, também se deve trasladar no mesmo sentido. — Pereira.

10O Senhor faz habitar no dilúvio: E o Senhor sentar-se-á como rei para sempre.[6]O Senhor faz habitar no dilúvioLugar escuríssimo, como mostram as várias traduções que dêle se encontram nos autores. Porque De Carrières traduz: "O Senhor faz demorar sôbre a terra um dilúvio de água". Sacy: "O Senhor é o que suspende no ar um dilúvio". Berthier: "O Senhor faz habitar os homens no lugar mesmo do dilúvio". Eu segui à letra a Vulgata, deixando ao juízo de cada um a escolha. — Pereira.

11O Senhor dará fortaleza ao seu povo: O Senhor bendirá ao seu povo em paz.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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