Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 84

Salmo gratulatório. Louva o Senhor que tem livrado o seu povo da escravidão.

1Ao regente do côro, salmo dos filhos de Coré.[1]Salmo dos filhos de CoréÊste salmo parece ter sido composto depois do regresso do cativeiro. Cfr. Aggen. I e II. II, 16-20. Tem quatro estrofes. Primeira (2-4). Recorda a misericórdia de Deus para com o seu povo. Segunda (5-8). Suplica para que se ostente de novo essa infinita misericórdia. Terceira (9-11). Espera que a sua prece seja ouvida. Quarta (12-14). Quadro de futura prosperidade.

2Abençoaste, Senhor, a tua terra: Apartaste o cativeiro de Jacó.[2]AbençoasteABENÇOASTE — No hebreu está "fôste benigno".

3Perdoaste a maldade do teu povo: Cobriste todos os pecados dêles.

4Mitigaste tôda a tua ira: Suspendeste o furor da tua indignação.

5Converte-nos, ó Deus Salvador nosso: E aparta de nós a tua ira.

6Porventura estarás para sempre irado contra nós? Ou estenderás a tua ira de geração em geração?

7Ó Deus, tu voltado para nós nos darás vida: E o teu povo se alegrará em ti.

8Mostra-nos, Senhor, a tua misericórdia: E dá-nos o teu Salvador.

9Eu ouvirei o que o Senhor Deus me falar: Porque êle me anunciará a paz para o seu povo.
E para os seus santos: E para aquêles que se voltam para o coração.[3]Que se voltamQUE SE VOLTAM — Isto é: para os que, detestando as suas culpas, se convertem ao Senhor de todo o seu coração. O hebreu tem: "e fará que não se voltem à loucura," dando-lhes o espírito de verdadeira sabedoria, para que se guardem de novas ofensas contra o seu Deus. Boulleret, ob. cit.

10Certamente a salvação dêle está perto dos que o temem: Para que habite a glória na nossa terra.

11A misericórdia, e a verdade se encontraram: A justiça, e a paz se deram ósculo.[4]A justiça, e a pazA JUSTIÇA, E A PAZ — A justiça, ou a verdade do Padre pedia o castigo do homem pecador, porém a paz, e a misericórdia do Filho instava pela sua reconciliação. A encarnação do Verbo uniu estas duas coisas para nossa salvação, e redenção: e Jesus Cristo, tomando sôbre si todos os pecados dos homens, se pôs em estado de satisfazer à justiça de seu Pai. O Pai recebeu uma comprida e condigna satisfação por meio da morte de um homem que era Deus, igual ao mesmo Pai; e a misericórdia do Filho, morrendo, desarmou a justiça do Pai. — P. Scio.

12A verdade nasceu da terra: E a justiça olhou desde o céu.[5]A verdade nasceu da terraA VERDADE NASCEU DA TERRA — O que por essência é a mesma verdade, nasceu na terra, fazendo-se homem; isto é, Cristo, Filho de Deus e Filho da Virgem. — Pereira.

13Porque o Senhor dará a sua benignidade: E a nossa terra produzirá o seu fruto.

14A justiça irá diante dêle: E porá no caminho os seus passos.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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