Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 24

Salmo deprecatório, em que Davi, angustiado das perseguições de seus inimigos, pede a Deus que lhe perdoe os seus pecados, que os reduza ao caminho direito, e que o livre dos adversários.

1Ao regente do côro, salmo de Davi. A ti, Senhor, elevei a minha alma:[1]Ao regente do côroNem o hebreu, nem os Setenta trazem esta parte da inscrição. E o hebreu nem diz: "Salmo de Davi", mas sòmente, "De Davi". Muitos intérpretes querem que fôsse êste Salmo composto por Davi, durante a guerra que lhe fêz seu filho Absalão em castigo dos dois grandes pecados que havia cometido, a saber, adultério, e homicídio. É um dos Salmos que se chamam "Acrósticos", porque no hebreu cada versículo tem por inicial uma letra do alfabeto pela sua ordem, principiando da primeira, que é aleph, e continuando o versículo que segue pela segunda heth, e assim por diante. Bem que neste Salmo se acha omitida a sexta letra vau, e na sua falta se repete no último verso a décima sétima; e com isto se enche o número das vinte e duas letras de que consta o alfabeto hebreu. Sôbre isto se discorre com variedade, crendo todos que não carece de grande mistério, não podendo entender-se o verdadeiro, mas só, sim, que semelhantes Salmos (que são mais seis) merecem singular consideração. Contém êste uma oração excelente de uma alma aflita e que suspira pelo seu Deus, vendo-se oprimida, e cercada por todos os lados de inimigos. Convém a todo o homem perseguido, que se acha em perigo. — P. Scio.

2Deus meu, em ti confio, não seja eu envergonhado.

3Nem me insultem meus amigos: Porque todos os que em ti esperam, não serão confundidos.

4Sejam confundidos todos os que em vão cometem iniqüidades. Mostra-me, Senhor, os teus caminhos: E ensina-me as tuas veredas.

5Dirige-me na tua verdade, e ensina-me: Porque tu és o Deus meu salvador, e te tenho esperado todo o dia.

6Lembra-te, Senhor, das tuas comiserações, e das tuas misericórdias, que tem sido desde o século.[2]E das tuas misericórdiasIsto é, lembra-te das misericórdias que usaste com nossos pais em todo o tempo desde o princípio do mundo. — P. Scio.

7Não te recordes dos delitos da minha mocidade, nem das minhas ignorâncias. Mas lembra-te de mim segundo a tua misericórdia: Por amor da tua bondade, Senhor.[3]Nem das minhas ignorânciasO que se peca por ignorância, em que não obstante há alguma culpa, porém que se perdoa mais fàcilmente. "Alcancei", diz S. Paulo 1 Tim 1, 13, misericórdia, porque fiz com ignorância. — P. Scio.

8Doce e reto é o Senhor: Por isso dará êle a lei aos que pecam no caminho.[4]Por isso dará êle a lei aos que pecamIsto é: Ensinará aos que erram no caminho da vida presente a lei que devem praticar para voltar à justiça; e esta é a lei da penitência, e não há outra, e o mesmo Senhor lhes dará para isso os seus auxílios. — P. Scio.

9Conduzirá aos mansos em justiça: Ensinará aos humildes os seus caminhos.

10Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e verdade, para os que buscam a sua aliança e os seus mandamentos.

11Por amor de teu nome, Senhor, me hás-de perdoar o meu pecado: Porque é grande.

12Quem é o homem, que teme ao Senhor? Êle lhe constituiu uma lei, no caminho que escolheu.

13A sua alma morará em bens: E a sua descendência terá por herança a terra.

14O Senhor é o firme apoio dos que o temem, e o testamento dêle é para que lhes seja manifestado a êles.[5]O Senhor é o firme apoio dos que o tememO hebreu tem: "O segrêdo do Senhor aos que o temem", isto é: o Senhor tratará como a íntimos amigos aos que deveras o temem, e lhes revelará os seus conselhos e segredos, pelo que pertence a sua salvação, e a todos os meios que tem estabelecidos para que o consigam. Jo 15, 15. At 5, 20; 20, 27. — P. Scio.

15Os meus olhos se elevam sempre ao Senhor: Porquanto êle tirará do laço os meus pés.[6]Tirará do laço os meus pésO que pode aludir-se ou aos seus pecados, ou aos seus inimigos, que o perseguiam de morte. — Pereira.

16Olha para mim, e tem misericórdia de mim: Porque eu sou só e pobre.

17As tribulações do meu coração se multiplicaram: Livra-me das minhas aflições.

18Olha para o meu abatimento, e para o meu trabalho: E perdoa todos os meus pecados.[7]E perdoa todos os meus pecadosPois que são a causa das minhas tribulações, e das minhas penas. — Pereira.

19Olha meus inimigos como se têm multiplicado, e com ódio injusto me têm em aborrecimento.

20Guarda a minha alma, e livra-me: Não seja eu confundido havendo esperado em ti.

21Os inocentes e os justos se têm unido comigo: Porque tenho esperado.

22Livra, ó Deus, a Israel de tôdas as suas tribulações.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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