Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 2

Salmo profético em que se descreve o estabelecimento do reino de Jesus Cristo, contra todos os esforços dos homens. A Cristo rei de todas as nações hão de obedecer todos os que desejam a salvação.

1Por que se embraveceram as nações, e os povos meditaram coisas vãs?[1]Por queEsta interrogação indica a sem razão da revolta e o seu insucesso.

2Os reis da terra se sublevaram, e os príncipes se coligaram contra o Senhor, e contra o seu Cristo.[2]Contra o seu CristoTem-se escrito muito por causa desta palavra. A quem se pode aplicar o têrmo Cristo, que quer dizer ungido? É a questão. O têrmo hebraico mashiah, do verbo mashiah unxit, aplica-se aos Patriarcas, Sl 55, 15; aos Profetas, 3 Rs 19, 16; aos Sumos Sacerdotes, aos reis, por exemplo, a Saul 1 Rs 12, 3, mas aplica-se antonomàsticamente a Jesus Cristo, porque é o Ungido por excelência — Sacerdote e rei. — E como êste lugar não pode convir a Davi, como lhe não convém o v. 7, pois não há razão alguma que justifique tal interpretação, podemos concluir com Lapide (Constat totum de una persona loqui; quam Christum esse docent. At 4, 26, nec vers. 7 ad Davidem accomodari potest) que só ao Messias se devem referir estas palavras.

3Rompamos as algemas com que nos prendem: E sacudamos de nós o seu jugo.[3]Rompamos as algemasÉ dito em nome e na pessoa dos ímpios, que pretendem sacudir o jugo dos mandamentos de Deus e do seu Cristo. — Pereira.

4Aquêle que habita no céu zombará dêles, o Senhor os escarnecerá.[4]Aquêle que habitaQuer dizer o que preside, como juiz que há de ditar a lei e proferir a sentença. Deus está em tôda a parte em ato e essencialmente.

5Êle lhes falará então na sua ira, e os encherá de turbação no seu furor.

6Eu porém fui por êle constituído rei sôbre Sião, seu monte santo, para promulgar o seu decreto.

7O Senhor disse para mim: Tu és meu Filho, eu te gerei hoje.[5]Tu és meu FilhoMeu Filho, próprio e verdadeiro; que isso quer dizer aquêle eu te gerei; meu Filho gerado ab æterno e sempre gerado, que isso quer dizer aquêle hoje, que na frase da Escritura significa eternidade, a que tudo é presente, nada pretérito, nem futuro. Por isso dêste texto prova S. Paulo na epístola aos hebreus, 1, 5, a divindade e geração eterna de Jesus Cristo.

8Pede-me, e eu te darei as nações em tua herança, e em tua possessão as extremidades da terra.[6]Eu te darei as nações em tua herançaEsta é aquela generalidade da extensão, que nos escritos de Santo Agostinho e dos teólogos polêmicos mostra a catolicidade da Igreja Cristã, e forma uma das suas notas mais características — Pereira.

9Tu as governarás com uma vara de ferro, e quebrá-la-ás como um vaso de frágil barro.

10E agora, ó reis, entendei: Instruí-vos, os que julgais a terra.[7]Julgais a terraA Vulgata traduziu por Judicare o verbo hebraico shaphath, que significa também governar, porque uma das atribuições dos governantes é a administração da justiça.

11Servi ao Senhor em temor: E alegrai-vos nêle com tremor.[8]Em temor / Com tremorIsto é, temendo a justiça indefectível de Deus. — COM TREMOR — Quer dizer: Que se alegrem com santo júbilo, auxiliado pela graça divina, não confiando em si, e receando a queda na culpa, que lhes atraia a inimizade de Deus.

12Rendei-lhe homenagem para que não suceda que se ire o Senhor, e vos aparteis do caminho da justiça.[9]Rendei-lhe homenagemNa Vulgata está Apprehendit disciplinam, que o padre Pereira traduziu: 'Tomai o ensino'; mas o que está no original é: Beijai o Filho, o que com Vigouroux traduzimos — Rendei-lhe homenagem.

13Quando daqui a pouco se incender a sua ira, bem-aventurados todos os que confiam nêle.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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