Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 79

Salmo deprecatório. O profeta roga ao Senhor que dê liberdade ao seu povo: expõe-lhe a desolação de Israel na figura de uma vinha destruída: e pede a sua liberdade, e restabelecimento.

1Ao regente do côro, para ser cantado com música da ária de lírio, testemunho de Asaf, salmo.[1]TestemunhoTESTEMUNHO — No original está Edouth, palavra obscura a que os intérpretes dão esta significação. O assunto é êste: o reino de Israel (ou Efraim, descendente de José) pede a proteção de Deus contra os assírios que o oprimem. Tem cinco estrofes: Primeira (2-4). Que o pastor de Israel socorra Efraim e Manassés. Segunda (5-8). Israel pranteia a sua sorte, e os seus inimigos escarnecem da sua dor. Terceira (9-12). Deus transplantara-o como uma vide para as montanhas de Efraim e aí prosperou. Quarta (13-16). Por que deixa êle devastar a sua plantação? Quinta (17-20). Proteja o seu povo, Israel será fiel e invocará seu nome.

2Tu que governas a Israel, atende: Tu que conduzes a José como uma ovelha.
Tu que estás sentado sôbre os querubins, manifesta-te[2]Tu que governasTU QUE GOVERNAS — O hebreu tem: "Pastor de Israel," cujo ofício se aplica a Jesus Cristo no Evangelho. — P. Scio.

3diante de Efraim, Benjamim, e Manassés.
Excita o teu poder, e vem a fazer-nos salvos.

4Ó Deus, converte-nos: E mostra-nos o teu rosto, e seremos salvos.

5Senhor Deus dos exércitos, até quando estarás irado, sem ouvir a oração do teu servo?

6Sustentar-nos-ás com pão de lágrimas: E nos darás bebida de lágrimas com abundância?

7Puseste-nos em contradição a nossos vizinhos: E nossos inimigos fizeram escárnio de nós.

8Deus das virtudes, converte-nos: Mostra-nos o teu rosto, e seremos salvos.

9Trasladaste a tua vinha do Egito: Lançaste fora as gentes, e plantaste-a em seu lugar.[3]Trasladaste a tua vinhaTRASLADASTE A TUA VINHA — O teu povo. Assim é chamado freqüentemente na Escritura. Is 5. Jer 2, 21. Ez 7, 6. E êste povo ou nação judaica é figura expressa da Igreja. — P. Scio.

10Guia fôste no caminho diante dela: Fizeste-a arraigar, e ela tem enchido a terra.

11A sombra dela cobriu os montes: E as suas ramas excederam os cedros de Deus.[4]Os cedros de DeusOS CEDROS DE DEUS — Como já fica explicado em outros lugares: Os cedros mui elevados.

12Estendeu as suas vides até ao mar: E até ao rio os seus mergulhões.[5]Até ao marATÉ AO MAR — O Mediterrâneo; e até o rio Eufrates, até onde havia estendido os seus limites a nação dos hebreus nos tempos de Davi.

13Para que destruíste o seu muro: E a vindimam todos os que passam pelo caminho?

14O javali da selva a destruiu: E a fera selvagem a devorou.[6]O javaliO JAVALI — Êste animal é muito comum na Palestina. Aqui toma-se pelo idumeu, segundo os comentadores judeus, e a fera selvagem figura o árabe nômada. São emblemas dos inimigos do povo de Deus.

15Deus dos exércitos, volta-te: Olha desde o céu, atende, e visita esta vinha.

16E acaba de aperfeiçoar a que plantou a tua destra: E olha para o fim do homem, que confirmaste para ti.

17Ela foi queimada a fogo, e escavada às ameaças de teu rosto perecerão.[7]PerecerãoPERECERÃO — Os que a queimaram, e arrancaram. Assim Bossuet, Calmet, e o Breviário francês. Outros com Sacy e de Carrières: "Os seus habitantes estão a ponto de perecerem, à fôrça da severidade e ameaços do teu rosto, etc."

18Seja a tua mão sôbre o varão da tua destra: E sôbre o filho do homem que confirmaste para ti.[8]Sôbre o varão da tua destraSÔBRE O VARÃO DA TUA DESTRA — Por êste "homem da direita de Deus" entendem os antigos rabinos o Messias; os Santos Padres a Jesus Cristo, que sendo filho de Deus, e verdadeiro Deus, assim mesmo se costumava chamar no Evangelho "o filho do homem," por ser também verdadeiro homem. — Calmet.

19E não nos apartamos de ti, tu nos darás vida: E invocaremos o teu nome.

20Senhor Deus dos exércitos, converte-nos: E mostra-nos o teu rosto, seremos salvos.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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