Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 71

Salmo profético, em que Davi por ocasião do rei Salomão seu sucessor o encomenda a Deus muito particularmente e se estende em descobrir a felicidade do reino de Jesus Cristo figurado pelo de Salomão.

Salmo.[1]SalmoSALMO — Aplica-se particularmente ao Messias. O Targum diz "Ó Deus, dá a tua justiça ao rei Messias". Tem cinco estrofes. Primeira (1-4). Que Deus conceda ao rei a justiça. Segunda (5-7) e a paz e a prosperidade. Terceira (8-11). Que domine os seus inimigos. Quarta (12-15). Que tenha compaixão para com os desgraçados. Quinta (16-17). A abundância e a glória. Os vv. 18-19 são uma doxologia independente do salmo, para marcar o fim do 2.° livro, o que indica mais explicitamente o v. 20. Há quem atribua êste salmo a Salomão, outros porém e com mais razão a Davi, pedindo por seu filho. Cfr. Boulleret, Les Psaumes selon la Vulgate, 1902.

1Para Salomão.

2Ó Deus, dá o teu juízo ao rei: E a tua justiça ao filho do rei:
Para que êle julgue ao teu povo com justiça, e aos teus pobres com juízo.

3Recebam os montes paz para o povo, e os outeiros justiça.[2]Recebam os montesRECEBAM OS MONTES — São expressões figuradas; querem dizer por tôdas as partes reinará a justiça e a paz. E também se pode entender pelos "montes e outeiros," o rei e os grandes do reino, que são os que devem dar paz aos povos e administrar-lhes justiça. — Pereira.

4Julgará aos pobres do povo, e fará salvos os filhos dos pobres: E humilhará ao caluniador.

5E êle permanecerá com o sol, e antes da lua, de geração em geração.[3]Permanecerá com o solPERMANECERÁ COM O SOL — Quer dizer, perpètuamente. DE GERAÇÃO EM GERAÇÃO — Há uma regra na gramática hebraica que diz: a repetição dum mesmo substantivo indica ordinàriamente ou a universalidade, ou um grande número, uma multidão, ou uma diferença, uma diversidade na espécie, ou um modo de dizer enfático. No caso presente tem a primeira significação, e corresponde a "tôdas as gerações". Como isto se não podia verificar em Salomão, entendem os intérpretes que Davi se referia ao Messias. Si de Salomone accipiatur hoc, hyperbole est: si de Messia, praecise ut verba sonant, intelligendum est. Hammondus. Outro exegeta escreve: De Salomone aut posteris Davidis hoc intelligi non potest, 1.o indicative; quia regnum eorum tandi non duravit. vel 2.° qoptative; nam vana vota et cum revelatione. Dei pugnantia quare ascriberemus Sanctis? Cocceius.

6Descerá como a chuva sôbre o velo. E como orvalho que goteja sôbre a terra.

7Nos dias dêle aparecerá justiça e abundância de paz: Até que seja tirada a lua.[4]Até que sejaATÉ QUE SEJA — O texto hebreu tem: "Florescerá nos seus dias o justo, e abundância de paz". Esta justiça, e esta paz dada por Cristo durará no mundo quanto subsistir a lua. — P. Scio.

8E dominará de mar a mar: E desde o rio até aos confins da redondeza da terra.

9Diante dêle se prostrarão os da Etiópia: E os seus inimigos beijarão a terra.

10Os reis de Tarsis e as ilhas lhe oferecerão dons: Os reis da Arábia e de Sabá lhe trarão presentes.[5]TarsisTARSIS — Tartessus, na Hispânia, onde os fenícios iam procurar ouro e prata. AS ILHAS — A ilha de Chipre e as ilhas do Mediterrâneo e por extensão a Europa. Nota de Vigouroux à Sainte Bible de Glaire. SABÁ — Reino da Arábia, particularmente célebre pelos seus perfumes.

11E adorá-lo-ão todos os reis da terra: Tôdas as gentes o servirão:

12Porque livrará ao pobre do poderoso: E ao pobre, para quem não havia favorecedor.

13Usará de clemência com o pobre e o desvalido: E fará salvas as almas dos pobres.

14Resgatará as suas almas das usuras e da iniqüidade: E será de honra na sua presença o nome dêles.

15E viverá, e se lhe dará do ouro da Arábia, e o adorarão por êle mesmo sempre: Todo o dia o bendirão.[6]Por êle mesmoPOR ÊLE MESMO — Alguns intérpretes traduzem "o adorarão", e entre êstes o padre Pereira, tornando-o de lpse da Vulgata como sinónimo do ipsum; entende porém Glaire que esta versão daria ocasião a aplicar estas palavras a Salomão, o que só pode ter lugar entendendo-se o têrmo adorar na significação de reverenciar; na primeira só se pode aplicar ao Messias, e então, seguindo os Setenta, on adorera toujours a son sujet. O padre H. Boulleret, no seu trabalho publicado êste ano, Les Psaumes selon la Vulgate leur veritable sens litteral (1902) interpreta êste versículo desta forma: Et vivet et dabitur ei de auro Arabiae / Et propterea adorabunt eum semper / Et tota die benedicent ei. — p. 213.

16E haverá mantimento na terra até aos cumes dos montes, exaltar-se-á sôbre o Líbano o fruto dêles: E florescerão os da cidade, como a erva da terra.[7]Haverá mantimento na terra até aos cumes dos montesHAVERÁ MANTIMENTO NA TERRA ATÉ AOS CUMES DOS MONTES — Seguimos na tradução a autorizada interpretação do moderno e autorizado Boulleret. A Vulgata empregou firmamentum, que o Padre Pereira traduziu por mantimento, porém a tradução apresentada é a mais conforme com o sentido do original e com o contexto, se bem que a Vulgata não se afasta muito, pois que firmamentum quer dizer apoio, sustento, e os hebreus chamavam aos mantimentos, a fôrça, o apoio, o bordão. Cfr. Sl 104, 16. Et vocavit famem super terram et omne firmamentum panis contrivit J. Zui III, n Roburpanis, Ez 14, 13, Virga Pannis.

17Seja o seu nome bendito pelos séculos: O seu nome subsiste antes do sol.
E serão benditas nêle tôdas as tribos da terra: Tôdas as gentes o engrandecerão.

18Bendito o Senhor Deus de Israel, que faz maravilhas só:

19E bendito o nome da sua majestade para sempre: E encher-se-á da sua majestade tôda a terra: Assim seja, assim seja.[8]E benditoE BENDITO — Doxologia independente do salmo.

20Acabaram-se os louvores de Davi filho de Jesse.[9]Acabaram-seACABARAM-SE — Os intérpretes comumente julgam que êste é o último salmo que compôs Davi, porém, pôsto fora do seu lugar, porquanto se acham outros depois dêle, que indubitàvelmente são do mesmo, como o 109, e outros: e assim se vê que noutro tempo estava disposta diversamente a coleção dos salmos. Que seja êste o último salmo de Davi, o inferem do que se conta no 3 Rs 1, 47, e é possível que o Santo Profeta no meio do júbilo de ver a Salomão seu filho sublimado ao trono, arrebatado, e fora de si, tendo no seu espírito presente ao Divino Messias, vaticinou a sua vinda, e a vocação dos gentios. S. Jerônimo expõe êste lugar desta maneira: «Aqui acabam os salmos de Davi, porque escreveu neste o complemento, e o fim das coisas. Com efeito nêle se evangeliza a Jesus Cristo, que é fim da lei, e o complemento de tôdas as profecias: e assim se pode contemplar êste dulcíssimo cântico, como o testamento de Davi, e como uma profissão admirável da sua fé no Messias, que havia de nascer da sua linhagem, e vir a redimir o mundo. Aqui acaba também o livro segundo dos salmos. — P. Scio.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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