Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 143

Salmo gratulatório. Davi dá graças ao Senhor pelas vitórias passadas, as quais lhe dão alento para conseguir outras maiores.

Salmo de Davi.

1Contra Golias.
Bendito seja o Senhor Deus meu, que adestra as minhas mãos para a batalha, e os meus dedos para a guerra.[1]Salmo de DaviSALMO DE DAVI — Todos os salmos que se seguem são de ação de graças. Ainda que a palavra contra Golias não está no hebreu, acha-se contudo no grego de que usamos, e estêve nas Hexaplas. Parece que o compôs Davi depois de haver conseguido alguma vitória contra os filisteus. O principal intento se refere ao reino do Messias e às vitórias de Jesus Cristo contra o príncipe das trevas, como o explicam os Padres. Tem cinco estrofes.

2Êle para mim é misericórdia, e o meu refúgio: Amparador meu, libertador meu:
Protetor meu, e nêle esperei: Êle o que submete o meu povo à minha autoridade.

3Senhor, que é o homem, pois tu a êle te manifestaste? ou o filho do homem para tu assim o estimares?[2]Senhor, que é o homemSENHOR, QUE É O HOMEM — Conservando-o e tratando com êle, e revelando-lhe os teus mistérios por meio dos teus Anjos e Profetas! Mas principalmente se manifestou Deus ao homem, innotuit homini; encarnando e fazendo-se homem como êle; e aqui é onde Deus fêz conhecer mais a consideração que tinha do homem e a estima e amor com que o atendia, porquanto aquela é uma obra da sua extremada caridade. Ef 2, 4. — P. Scio.

4O homem se tem feito semelhante à vaidade: Os meus dias passam como sombra.

5Senhor, inclina os teus céus, e desce: Toca os montes, e fumegarão.

6Vibra os teus coriscos, e dissipá-los-ás: Despede as tuas setas, e conturba-los-ás:

7Envia a tua mão lá do alto, tira-me, e livra-me das muitas águas: Da mão dos filhos estranhos.[3]Das muitas águasDAS MUITAS ÁGUAS — Do terrível perigo que ameaça ao teu povo. — Pereira. DA MÃO DOS FILHOS ESTRANHOS — Dêstes estrangeiros, dêstes idólatras, o que se pode entender dos filisteus. — Pereira.

8Cuja bôca falou vaidade, e a sua direita é direita de iniquidade.[4]Cuja bôca falouCUJA BÔCA FALOU — Vangloriando-se do poder de seus ídolos, que são vaidade e mentira, e blasonando das suas próprias fôrças como Golias, insultando o povo de Deus. — Bossuet.

9Ó Deus, eu te cantarei uma nova canção: Com o saltério de dez cordas te louvarei.

10Tu que dás saúde aos reis: Que redimiste a Davi teu servo da espada maligna,[5]Da espadaDA ESPADA — Da espada do ímpio e idólatra, isto é, de Golias e dos filisteus. — P. Scio.

11livra-me,
e tira-me da mão dos filhos estranhos, cuja bôca falou vaidade e a direita dêles é direita de iniquidade:

12Cujos filhos são como plantas novas na sua mocidade.
As suas filhas andam compostas: Adornadas tôdas como simulacro de Templo.[6]Cujos filhosCUJOS FILHOS — No hebreu se lê tudo o que se segue na primeira pessoa do plural; "nossos filhos, nossas filhas, nossas ovelhas, nossas vacas... nossas ruas e praças..." E por isso alguns entendem que isto pertence ao povo dos justos, ou dos hebreus; porém pela Vulgata e pelos Setenta se vê claramente que se deve aplicar aos dos idólatras, ou ímpios: Jó 21, 24. E ainda o texto hebreu se pode reduzir ao mesmo sentido, pondo estas palavras na bôca dos mesmos que se vangloriavam e jactavam de possuir êstes bens. Eripe me de manu filiorum alienorum, quorum os locutum est vanitatem: filii nostri, cellaria nostra. — P. Scio.

13Atulhadas estão as suas dispensas, arrevesando de umas para outras.
As suas ovelhas são fecundas, abundantes nas suas saídas:

14As suas vacas são gordas.
Não há ruína de muro, nem passagem na sua cêrca: Nem estrondo nas suas praças.

15Bem-aventurado chamaram ao povo, que tem estas coisas: Bem-aventurado o povo, que tem ao Senhor por seu Deus.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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