Capítulo 143
1Contra Golias.
Bendito seja o Senhor Deus meu, que adestra as minhas mãos para a batalha, e os meus dedos para a guerra.[1]Salmo de Davi — SALMO DE DAVI — Todos os salmos que se seguem são de ação de graças. Ainda que a palavra contra Golias não está no hebreu, acha-se contudo no grego de que usamos, e estêve nas Hexaplas. Parece que o compôs Davi depois de haver conseguido alguma vitória contra os filisteus. O principal intento se refere ao reino do Messias e às vitórias de Jesus Cristo contra o príncipe das trevas, como o explicam os Padres. Tem cinco estrofes.
2Êle para mim é misericórdia, e o meu refúgio: Amparador meu, libertador meu:
Protetor meu, e nêle esperei: Êle o que submete o meu povo à minha autoridade.
3Senhor, que é o homem, pois tu a êle te manifestaste? ou o filho do homem para tu assim o estimares?[2]Senhor, que é o homem — SENHOR, QUE É O HOMEM — Conservando-o e tratando com êle, e revelando-lhe os teus mistérios por meio dos teus Anjos e Profetas! Mas principalmente se manifestou Deus ao homem, innotuit homini; encarnando e fazendo-se homem como êle; e aqui é onde Deus fêz conhecer mais a consideração que tinha do homem e a estima e amor com que o atendia, porquanto aquela é uma obra da sua extremada caridade. Ef 2, 4. — P. Scio.
4O homem se tem feito semelhante à vaidade: Os meus dias passam como sombra.
5Senhor, inclina os teus céus, e desce: Toca os montes, e fumegarão.
6Vibra os teus coriscos, e dissipá-los-ás: Despede as tuas setas, e conturba-los-ás:
7Envia a tua mão lá do alto, tira-me, e livra-me das muitas águas: Da mão dos filhos estranhos.[3]Das muitas águas — DAS MUITAS ÁGUAS — Do terrível perigo que ameaça ao teu povo. — Pereira. DA MÃO DOS FILHOS ESTRANHOS — Dêstes estrangeiros, dêstes idólatras, o que se pode entender dos filisteus. — Pereira.
8Cuja bôca falou vaidade, e a sua direita é direita de iniquidade.[4]Cuja bôca falou — CUJA BÔCA FALOU — Vangloriando-se do poder de seus ídolos, que são vaidade e mentira, e blasonando das suas próprias fôrças como Golias, insultando o povo de Deus. — Bossuet.
9Ó Deus, eu te cantarei uma nova canção: Com o saltério de dez cordas te louvarei.
10Tu que dás saúde aos reis: Que redimiste a Davi teu servo da espada maligna,[5]Da espada — DA ESPADA — Da espada do ímpio e idólatra, isto é, de Golias e dos filisteus. — P. Scio.
11livra-me,
e tira-me da mão dos filhos estranhos, cuja bôca falou vaidade e a direita dêles é direita de iniquidade:
12Cujos filhos são como plantas novas na sua mocidade.
As suas filhas andam compostas: Adornadas tôdas como simulacro de Templo.[6]Cujos filhos — CUJOS FILHOS — No hebreu se lê tudo o que se segue na primeira pessoa do plural; "nossos filhos, nossas filhas, nossas ovelhas, nossas vacas... nossas ruas e praças..." E por isso alguns entendem que isto pertence ao povo dos justos, ou dos hebreus; porém pela Vulgata e pelos Setenta se vê claramente que se deve aplicar aos dos idólatras, ou ímpios: Jó 21, 24. E ainda o texto hebreu se pode reduzir ao mesmo sentido, pondo estas palavras na bôca dos mesmos que se vangloriavam e jactavam de possuir êstes bens. Eripe me de manu filiorum alienorum, quorum os locutum est vanitatem: filii nostri, cellaria nostra. — P. Scio.
13Atulhadas estão as suas dispensas, arrevesando de umas para outras.
As suas ovelhas são fecundas, abundantes nas suas saídas:
14As suas vacas são gordas.
Não há ruína de muro, nem passagem na sua cêrca: Nem estrondo nas suas praças.
15Bem-aventurado chamaram ao povo, que tem estas coisas: Bem-aventurado o povo, que tem ao Senhor por seu Deus.