Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 58

Salmo deprecatório. Davi pôsto em grande perigo de cair nas mãos de Saul, recorre a Deus e lhe suplica humildemente, que tome por sua conta a vingança; pelo que se obriga a mostrar o seu agradecimento, e empregar-se em louva-lo.

Ao regente do côro.

1Al'thaschekcheth de Davi Miktham quando enviou Saul, e pôs guardas à sua casa para o matar. (1 Rs 19, 11.)

2Livra-me, meu Deus, de meus inimigos: E livra-me dos que se levantam contra mim.

3Livra-me dos que obram iniqüidade: E salva-me dos varões sangüinários.

4Pois eis-aqui que fizeram prêsa da minha alma: Vieram sôbre mim os fortes.[1]VIERAM SÔBRE MIM OS FORTESOs soldados e gente que havia enviado Saul, para o prender na sua mesma casa. O hebreu diz: "se juntaram sôbre mim fortes." — Pereira.

5Nem maldade minha, nem pecado meu é causa disto, Senhor: Sem injustiça corri, e ordenei os meus passos.

6Levanta-te ao meu encontro, e considera: E tu, Senhor Deus das virtudes, Deus de Israel, atende a visitar tôdas as gentes, não uses de piedade com todos os que obram iniqüidade.[2]LEVANTA-TE AO MEU ENCONTROCorre prontamente a defender-me. Tu és, Senhor, o Deus de Israel, o Deus dos exércitos. Castiga exemplarmente êstes ímpios, que cada dia acrescentam delitos, e se fazem indignos da tua misericórdia. — Pereira.

7Voltarão junto à tarde: E padecerão fome como cães, e rodearão a cidade.[3]E RODEARÃO A CIDADEDescreve o cuidado, e ousadia dos ministros de Saul para surpreender a Davi, e os compara a cães danados. — P. Scio.

8Eis-aqui falarão com a sua bôca, e espada está nos lábios dêles: Porque quem tem ouvido?[4]PORQUE QUEM TEM OUVIDO?Alguns explicam êste lugar dêste modo: bem podemos falar com liberdade; porque ninguém nos ouve nem há quem disto possa dar aviso a Davi. O hebreu diz: "Porque quem há que a ouça?" O que muitos aplicam aos que não crêem que há Providência, ou juízo de Deus. — P. Scio.

9Mas tu, Senhor, zombarás dêles: Olharás como um nada tôdas as gentes.

10Depositarei em ti a minha fortaleza, porque tu és Deus amparador meu:

11Deus meu, a misericórdia dêle se antecipará.

12Deus me dará a conhecer acêrca dos meus inimigos, não os mates: Porque talvez não se esqueçam os meus povos. Espalha-os com o teu poder: E abate-os, Senhor, protetor meu![5]DEUS ME DARÁ A CONHECERIsto é, me dará indícios do castigo com que determina tratar meus inimigos. O hebreu tem: "Deus me fará ver nos meus êmulos o castigo desejado." — P. Scio. NÃO OS MATES: PORQUE TALVEZ — É o mesmo que dizer: Não os mates, mas seja durável o seu castigo, para que os meus povos o tenham sempre na memória. Dito profético, em que Santo Agostinho, e outros Padres, consideram vaticinada a dispersão do povo judaico, para exemplo dos cristãos. — Bossuet.

13Pelo pecado da sua bôca, pelas palavras dos seus lábios: E que fiquem prêsos na sua mesma soberba. E pela sua execração e mentira serão mostrados,

14no dia da consumação: Serão convencidos pela tua ira, e não subsistirão mais. E saberão que Deus dominará a Jacó: E aos confins da terra.

15Voltarão à tarde e padecerão fome como cães: E rodearão a cidade.

16Êles mesmos andarão dispersos para comer: E se não se fartarem, ainda murmurarão.[6]AINDA MURMURARÃOAndarão de porta em porta, como mendigos buscando o pão, porquanto sucederá freqüentemente que por falta dêle não possam saciar a fome; cheios de impaciência murmurarão. — P. Scio.

17Mas eu cantarei a tua fortaleza: E me regozijarei pela manhã da tua misericórdia. Porque te fizeste meu amparador, e meu refúgio, no dia da minha tribulação.

18Eu te cantarei a ti, favorecedor meu, porque és Deus amparador meu: Deus meu, misericórdia minha.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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