Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 54

Salmo deprecatório. Davi expõe ao Senhor a perfídia de seus inimigos. E pede-lhe socorro. Anuncia a sua ruína. Exorta aos justos a que ponham tôda a sua confiança no Senhor.

1Ao regente do côro. Com acompanhamento de instrumentos de corda. Instrução de Davi.[1]DE DAVIÊste salmo é, como o Salmo 40, do tempo da revolta de Absalão. Refere-se a um amigo que o traiu, que é Aquitofel, em quem os exegetas vêem a figura de Judas Iscariote.

2Ouve, ó Deus! A minha oração, e não desprezes o meu humilde rogo:

3Atende-me a mim, e ouve-me. Estou contristado na consideração que me exercita: e estou conturbado.[2]NA CONSIDERAÇÃOO hebreu tem: "Me lamento na minha meditação, e no meu desassossêgo." Tudo o que se segue nos versículos seguintes convém justamente a Jesus Cristo, na tristeza e agonia que padeceu no horto, considerando a atrocidade dos tormentos, e morte que supunha já próxima. — P. Scio.

4Pela voz do inimigo, e pela perseguição do pecador. Porque lançaram iniqüidades sôbre mim: E com ira me eram molestos.

5O meu coração está conturbado dentro de mim: E mêdo de morte caiu sôbre mim.

6Temor e tremor vieram sôbre mim: E cobriram-me trevas:

7Então disse: Quem me dará asas como de pomba, e voarei, e descansarei?[3]QUEM ME DARÁ ASAS, COMO DE POMBAEntende-se para voar a um lugar seguro, e apartado de meus inimigos. Isto concorda belamente com o que lemos, que Davi dissera aos seus: Surgite, fugiamus; neque enim erit nobis effugium a facie Absalom: Levantai-vos, e fujamos, porque à vista de Absalão não poderemos escapar. 2 Rs 16, 14. — Bossuet.

8Eis-aqui me alonguei fugindo: E permaneci na soledade.

9Ali aguardava àquele que me salvou do abatimento de espírito, e de tempestade.[4]DO ABATIMENTO DE ESPÍRITODo abatimento de espírito em que me tem pôsto a tempestade, que se tem levantado contra mim; a conspiração de Absalão, e seus sequazes. O hebreu diz: "apressar-me-ei para escapar do vento impetuoso do furacão," isto é, da fúria e violência dos meus inimigos. — P. Scio.

10Destrói, Senhor, confunde as línguas dêles: Porque tenho visto a injustiça, e a contradição na cidade.[5]DESTRÓIVê-se aqui a confiança que o salmista tinha no Senhor. Com o espírito inteiramente preocupado das desgraças e calamidades que oprimiam Jerusalém, e cheio de indignação contra os autores de tantos males, pede ao Senhor confunda, como outrora em Babel, os seus inimigos. Veja-se a propósito o 2 Rs 15, 31.

11Dia e noite a cercará sôbre seus muros a iniqüidade: E opressão está no meio dela,

12e injustiça. E não faltou de suas praças usura, e engano.

13Porque se o meu inimigo houvera falado mal de mim, eu o houvera sofrido por certo. E se aquêle que me tinha em aborrecimento, houvera falado de mim com insolência, talvez me houvesse escondido dêle.

14Mas tu homem de um coração comigo, minha guia, e meu conhecido:[6]E MEU CONHECIDOO que tudo convém a Aquitofel. 2 Rs 15, 22; 16, 23. O sentido na Vulgata fica suspenso, e se deve suprir. Mas que farei sendo o aleivoso tu? homo unanimus. No hebreu do mesmo modo, ainda que está ordenado desta outra maneira: "Porque não inimigo me afrontou, que o sofreria; nem o que me aborrecia falou insolentemente contra mim, que me guardaria dêle; senão tu homem, segundo a minha estimação, meu governador", meu conselheiro ordinário e meu familiar; que comunicávamos docemente um ao outro nossos segredos, e íamos de companhia à casa de Deus. — P. Scio.

15Que juntamente comigo tomavas doces manjares: Na casa do Senhor andamos acordes.[7]TOMAVAS DOCES MANJARESTudo isto se aplica igualmente ao traidor Judas: "Qui intingit mecum manum in paropside hic me tradet." Mt 26, 23. E comia não só os manjares comuns, mas que comeu também, como parece, o pão eucarístico. O que faz mais horrenda a sua traição. — P. Scio.

16Venha a morte sôbre êles: E desçam vivos ao inferno: Porque há malícia nas moradas dêles, no meio dêles.

17Mas eu clamei a Deus: E o Senhor me salvará.

18De tarde, e manhã, e ao meio-dia narrá-lo-ei, e publicá-lo-ei: E êle ouvirá a minha voz.[8]DE TARDE, E MANHÃOs hebreus começavam a contar o dia desde a tarde. Aqui se insinuam os três tempos da oração cotidiana, que se observavam no povo de Deus, nas casas particulares. Dan 6, 10. At 3, 1; 10, 3. 9. 10, exemplo que foi seguido dos primeiros cristãos. Davi nisto significa: que dirigia a Deus contínuos rogos gemendo, até conseguir que Deus ouvisse os seus clamores. — Calmet.

19Redimirá em paz a minha alma livrando-a dos que me cercam: Porque êles eram muitos contra mim.[9]DOS QUE ME CERCAMO verbo apropinquare na Vulgata denota muitas vêzes assaltar, sitiar, combater, perseguir. Outros trasladam: Porque ainda que muitos sejam, são muitos mais os que estão a meu lado em minha defensa; entendendo-o dos anjos que estão destinados para guardar a cada um dos servos do Senhor, especialmente a Jesus Cristo, 4 Rs 6, 16. — P. Scio.

20Ouvir-me-á Deus, e humilhá-los-á o que é antes dos séculos. Porquanto não há nêles mudança, e não temeram a Deus:

21Estendeu a sua mão para lhes retribuir. Contaminaram o seu testamento,[10]ESTENDEU A SUA MÃONa Vulgata se fala aqui de Deus, e o sentido está interrompido; porém no hebreu se lê desta maneira: Estendeu, Absalão, ou Aquitofel, as suas mãos contra os seus pacíficos; profanou, violou a sua aliança. — Calmet.

22foram dissipados pela ira do seu rosto: E o seu coração se apropinquou. As suas palavras são mais suaves que o azeite: E elas são ao mesmo tempo dardos.[11]E ELAS SÃO AO MESMO TEMPO DARDOSAquitofel, o maior amigo de Davi, na aparência, deu contra êle um conselho de morte. Judas, um dos apóstolos de Jesus Cristo, e seu Ecônomo, o entregou com aleivosia a seus inimigos por meio do ósculo que havia dado por sinal de paz. — P. Scio.

23Lança sôbre o Senhor o teu cuidado, e êle te sustentará: Não deixará que flutue o justo para sempre.[12]LANÇA SÔBRE O SENHOR O TEU CUIDADOPõe no Senhor todos os teus cuidados, e nada te faltará; e se alguma vez parece que deixa ao justo flutuando entre as ondas da perseguição, não se esquece; êle o sustém, e últimamente o conduz ao pôrto com tôda a segurança. — Pereira.

24Mas tu, ó Deus, os conduzirás ao poço da perdição. Os homens sanguinários, e enganadores não chegarão à metade de seus dias: Mas eu em ti esperei, Senhor.[13]CONDUZIRÁS AO POÇOO que pode ser alusivo à desgraçada morte de Absalão, e de um grande número dos seus parciais, que pereceram aos fios da espada no bosque onde se deu a batalha; e o mesmo sucede cada dia, castigando aos pecadores com mortes apressadas, e imprevistas.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
📄 PDF
📄 Original