Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 110

Salmo de louvor pelas maravilhas obradas por Deus a favor do seu povo.

Aleluia.[1]AleluiaÊste salmo e os dois seguintes no hebreu, e os oito na Vulgata, começam por Aleluia. Um e outro são alfabéticos, e compostos de 22 versículos, começando cada um no original por uma letra do alfabeto hebraico.

1Louvar-te-ei, Senhor, com todo o meu coração: No conselho dos justos, e na congregação.[2]E na congregaçãoE NA CONGREGAÇÃO — O hebreu tem: no secreto congresso, e congregação, ou reunião pública dos justos.

2Grandes são as obras do Senhor: Apropriadas a tôdas as suas vontades.

3A obra dêle é glória, e magnificência: E a sua justiça permanece pelo século do século.

4Deixou memória das suas maravilhas, o Senhor, que é misericordioso e compassivo:

5Deu sustento aos que o temem.
Lembrar-se-á eternamente da sua aliança:[3]Deu sustento aos que o tememDEU SUSTENTO AOS QUE O TEMEM — Bossuet o entende do maná, que Deus choveu no deserto; Calmet da restituição do povo judaico às férteis terras da sua Pátria. Isto é no sentido histórico, porque no sentido espiritual, os Padres, uns entendem por êste sustento o pão Eucarístico, outros a palavra de Deus. — Pereira.

6Anunciará ao seu povo a virtude das suas obras.

7Para lhes dar a êles a herança das gentes: As obras das suas mãos são verdade, e justiça.

8Fiéis são todos os seus mandamentos: Confirmados em todos os séculos, feitos em liberdade e em eqüidade.

9Redenção enviou ao seu povo: Estabeleceu para sempre a sua aliança.
Santo, e terrível é o nome dêle:[4]RedençãoREDENÇÃO — Outros lêem Redentor. Êste redentor a respeito do povo cativo no Egito, foi Moisés; a respeito do povo cativo em Babilónia, foi Ciro. E ambos êstes redentores eram figuras de Jesus Cristo, que foi o que resgatou do cativeiro de Satanás, e do pecado a todo o gênero humano. — Pereira.

10O temor do Senhor é princípio da sabedoria.
É bom entendimento o de todos os que obram como êle: O seu louvor permanece para sempre.[5]O temor do SenhorO TEMOR DO SENHOR — Pelo temor se começa a ser sábio, e a caridade é a que dá a perfeição a esta sabedoria: mas, ah! infeliz daquele que intentar romper esta aliança! porque santo e terrível é o nome do Senhor. Temam-no pois todos, que o temor de Deus é a verdadeira sabedoria. — P. Scio.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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