Capítulo 15
1Cântico de Davi. Guarda-me, Senhor, porque eu esperei em ti.[1]Cântico de Davi — Assim traduzimos a palavra hebraica Miktham, cujo sentido é obscuro, que a Vulgata verteu por Tituli inscriptio. Cfr. Leopold. Lexicon Hebraicum et Chaldaicum. Esta oração foi composta por Davi durante a sua permanência em Siceleg. 1 Rs 30, ou pelo menos enquanto estêve entre os filisteus. O objeto é incutir a confiança em Deus, nosso refúgio nos maiores perigos. Divide-se em quatro estrofes de cinco, seis e sete versos. 1.ª (1-3) Pede a Deus que o guarde, pois fora de Deus não há bem algum; 2.ª (4-5) Os que se afastam de Deus são desgraçados, não se une a êles: Deus é a sua herança; 3.ª (6-8) A parte que lhe toca é bela; agradece-a a Deus; 4.ª (9-10) Está cheio de alegria e a sua esperança não será confundida. Entre os comentadores católicos, uns consideram êste salmo como messiânico no sentido literal, outros no sentido figurado. Alguns versículos são mais exatamente messiânicos. Nos Atos dos Apóstolos vê-se que S. Pedro, pregando às gentes de Jerusalém acêrca de Jesus, intentando demonstrar que o Divino Mestre era o Messias preanunciado pelos profetas e esperado pelas nações, cita a autoridade de Davi, repetindo os últimos versos dêste Salmo. S. Paulo, pregando aos gentios em Antióquia, para provar-lhes a Divindade de Jesus Cristo, serviu-se do mesmo argumento, e, referindo-se ao verso décimo dêste Salmo, analisa-o e mostra que êle não podia referir-se a Davi, cujo corpo a morte desfizera, mas a Jesus Cristo, que ressurgiu imortal, glorioso e impassível.
2Eu disse ao Senhor: Tu és o meu Deus, porque não tens necessidade dos meus bens.[2]Porque não tens necessidade, etc. — Deus de nada necessita, e nada pode receber do homem. O bem que êste faz redunda em utilidade do mesmo homem. O hebraico diz: O meu bem não sôbre ti; isto é, o bem que eu fizer, não vem a ti, porque até nada te falta, nem eu posso dar-te coisa alguma. S. Jerônimo trasladou: Bene mihi non est sine te: Sem ti não posso eu esperar nenhum bem. — P. Scio.
3Para os Santos, que estão na terra dêle, fêz maravilhosas tôdas as minhas vontades nêles.[3]Para os Santos, etc. — Que são os seus escolhidos: alusão ao povo do Senhor, que habitava na terra da promissão. — Pereira. Tôdas as minhas vontades, etc. — Os Setenta trazem: Tôdas as suas vontades, referindo-o a seu Eterno Pai. O hebreu: "Aos Santos que estão na terra, e aos grandes em virtude, tôda a minha afeição nêles; isto é, todos os meus pensamentos, tôda a minha afeição está posta em teus Santos, em teus escolhidos, nos teus verdadeiros filhos, nos herdeiros do teu reino, pois por êles, e por seu amor baixei do Céu, e me ofereci em voluntário sacrifício. Assim ora Jesus Cristo ao Eterno Padre. — P. Scio.
4Multiplicaram-se as enfermidades dêles: Depois correram aceleradamente. Não congregarei os seus conventículos sangüinários: Nem me lembrarei de seus nomes ainda para pronunciá-los.[4]Multiplicaram-se as enfermidades dêles — Muitos explicam êste verso, e o seguinte dos ímpios, de onde diz: "Multiplicaram-se os ídolos, outros os tormentos dêles, dos povos circunvizinhos, correram aceleradamente atrás de outro Deus: Não gostarei das suas libações, que são de sangue, nem tomarei os seus nomes nos meus lábios. E conforme isto, o postea da Vulgata se lê separado nos Setenta, post ea." Por libações, se entendem não sòmente as que se faziam com vinho, e outros licores, mas tudo o que pertencia ao serviço dos ídolos; pois tudo isto era abominável diante de Deus, e muito mais os sacrifícios humanos, e as libações que costumavam fazer os gentios com sangue humano em obséquio dos seus falsos deuses. Mas parece mais natural, e mais conforme ao que diz S. Paulo na carta aos hebreus 10, 4-9. A exposição dos que dizem, que à proporção que o mundo viu multiplicadas as suas misérias desejou com mais ânsia o soberano médico acudir com o remédio, tem por sua parte a Santo Agostinho, que diz: Multiplicaram-se as enfermidades, não para a ruína, senão para remédio. — Pereira.
5O Senhor é a porção da minha herança, e do meu cálice: Tu és o que me restituirás a minha herança.[5]O Senhor é a porção da minha herança — Em vós, meu Deus, estão reservados todos os bens, que haveis destinado dar-me pela minha porção, e pela minha herança. Menath no hebreu é um têrmo tomado das porções de comida e bebida que se determinavam para cada um nos banquetes. Gên 43, 31, etc. 1 Rs 1, 4; 9, 23. — P. Scio. O que me restituirás a minha herança — A minha herança que eu havia perdido pelo pecado. — Pereira.
6O meu quinhão me caiu em lugares deliciosos: Porque a minha herança é excelente para mim.[6]O meu quinhão — O sentido dêste verso vem a ser o mesmo que o do antecedente, tomado da divisão de terrenos, que se costumava fazer, e medir com cordas na Palestina. Dt 32, 9. Por esta sorte deve entender-se a redenção do gênero humano, e a glória a que por ela foi sublimada à humanidade do Divino Redentor, e também a dos Santos, como se refere nos At 26, 18. Ef 1, 11. Col 1, 12. O hebreu diz assim: "As cordas me caíram em lugares deleitosos; assim mesmo herança formosa sôbre mim: isto é, me toca uma formosa herança, que é o mesmo Deus, e o possuir a Deus. — P. Scio.
7Louvarei ao Senhor, que me deu inteligência: E além disso ainda durante a noite me increparam as minhas entranhas.[7]Me increparam as minhas entranhas — Em S. Jerônimo se lê: "Me instruíram os meus rins." Os gregos e os latinos colocam o principal lugar dos afetos no coração e no peito; e os hebreus nos rins, e nas entranhas. — P. Scio.
8Contemplava eu sempre ao Senhor diante de mim: Porquanto está à minha direita para que não seja eu comovido.[8]Contemplava eu sempre — S. Pedro nos At 2, 25, explica êste verso, e os seguintes de Jesus Cristo, e a sua exposição se pode ver no dito lugar. — P. Scio.
9Portanto alegrou-se o meu coração, e regozijou-se a minha língua: E além disso também a minha carne repousará em esperança.[9]E regozijou-se a minha língua — No texto hebreu se lê: "e se gozou a minha glória." Isto é, a minha alma, chamada assim porque é a glória, e a honra do homem. A minha carne repousará no sepulcro com a esperança da ressurreição. — P. Scio.
10Porque não deixarás a minha alma no inferno: Nem permitirás que o teu Santo veja corrupção. A mim me fizeste conhecer os caminhos da vida, encher-me-ás de alegria com teu rosto: Deleites na tua direita para sempre.[10]No inferno — Aqui se entende por inferno o seio de Abraão, aonde desceu a Alma de Cristo para tirar dali aos padres que esperavam o tempo da redenção: mas por respeito ao seu Corpo é chamado sepulcro. — Pereira. Nem permitirás que o teu Santo — O teu Santo, e Ungido por excelência. O seu Corpo Sacratíssimo não sòmente não padeceu corrupção no sepulcro senão que nem podia padecê-la, em razão do Verbo que habitava nêle: At 2, 31; 13, 35, aonde se faz também patente que estas palavras tomadas ainda literalmente só podem convir a Jesus Cristo, segundo a carne, e de nenhum modo a Davi. — P. Scio. Deleites na tua direita — O hebreu tem: Fartura de alegria no teu rosto: cujo sentido é o mesmo. — Pereira.