Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 141

Salmo deprecatório. Só e desamparado de humano socorro implora o favor divino contra os seus inimigos.

1Instrução de Davi.
Quando estava na cova, oração. (1 Rs 24.)[1]Quando estava na covaQUANDO ESTAVA NA COVA — Duas vêzes se refugiou Davi em grutas por não cair nas mãos de Saul, em Odolão e em Engadi, provàvelmente na primeira. Tem três estrofes.

2Com a minha voz clamei ao Senhor: Com a minha voz fiz deprecação ao Senhor.

3Derramo na sua presença a minha oração, e exponho diante dêle mesmo a minha tribulação.

4Enquanto me vai desfalecendo o meu espírito, e tu conheceste as minhas veredas.
Neste caminho, por onde eu andava, esconderam-me o laço.

5Considerava para a minha direita, e olhava: E não havia quem me conhecesse.
Não me ficou lugar de fugida e não há quem se lhe dê da minha alma.[2]Para a minha direitaPARA A MINHA DIREITA — Destra se toma em sentido de patrocínio, proteção, defensa. — P. Scio.

6A ti clamei, Senhor, disse: Tu és a minha esperança, a minha porção na terra dos viventes.

7Atende à minha deprecação: Porque tenho sido humilhado sobremaneira.
Livra-me dos que me perseguem: Porque se têm feito mais fortes do que eu.

8Tira do cárcere a minha alma, para dar glória ao teu nome: A mim me estão esperando os justos, até que me dês a retribuição.[3]Tira do cárcereTIRA DO CÁRCERE — Desta caverna em que estou encerrado como em um cárcere, e da guarda de soldados que me cerca. O hebreu diz: "Os justos me coroarão, quando me fizeres bem," me cercarão ou todos à roda de mim me darão o parabém e me acompanharão para te dar as devidas graças. Tudo isto alude principalmente a Jesus Cristo, que roga ao Padre o tire da morte e do sepulcro, ressuscitando-o à vida imortal para glória de seu nome, cujo momento feliz esperavam com ânsia todos os justos que estavam detidos no seio de Abraão. S. Francisco de Assis expirou recitando êste verso. S. Boaventura Bp. Francisci Vita.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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