Capítulo 21
1Ao regente do côro, salmo de Davi, com o tom do canto Ayyeleth asch-schakhar.[1]Ayyeleth asch-schakhar — Estas palavras indicam o tom em que se deve cantar êste Salmo. Significam: Uma ária que começava por estas palavras. A significação inicial de raiz, Aial é corça, veado. Êste canto é desconhecido e por isso Leopold no seu dicionário traduz estas palavras carminis, ad cujus modum Ps. canendus. A Vulgata traduziu susceptio matutina, e o Pe. Pereira socorro da manhã, têrmos desconexos com o objeto do Salmo. O assunto é anunciar os sofrimentos do Messias, cuja Paixão se descreve duma maneira clara. Ut non tam prophetia quam historia videatur, segundo diz Cassiodoro. No Antigo Testamento não se encontra personagem algum a quém êste Salmo possa convir. As palavras iniciais foram as que Jesus Cristo repetiu na Cruz: Deus, Deus meus, quare me dercliquisti? Meu pai por que me abandonaste? Mt 27, 46. Mc 15, 34. O Sítio, tenho sêde, é a realização da profecia do v. 16. — Secou-se como barro, etc. Os dados lançados sôbre a túnica estão preditos no v. 19, e as torturas da crucificação, as dores das mãos e dos pés, a sêde ardente, estão descritas nos vv. 15-18. "Quio pictor, escreve Bossuet, "Crucifixam Jesum tam ad vivum expressit quim est ille apud Davidem, confossis manibus predibusquo, effusa virtute omni, distractis denudatis que ossibus suspensi ac dilaniati corporis. Dissert. de Psalm. c. 2, n. 17. A Igreja, no IV Cêncilio de Constantinopla, condenou Teodoro de Mopsuesto, que entendia êste Salmo num sentido puramente histórico e não profético. Tem doze estrofes irregulares, as quais formam três partes. Primeira parte, 1.ª a 4.ª estrofes (2-12) O Messias na Cruz abandonado por seu Pai e escarnecido por todos. Segunda parte, 5.ª a 8.ª (13-22) Descrição dos tormentos da Paixão. Terceira parte, 9.ª a 12.ª (23-32) Glória da Ressurreição.
2Deus, Deus meu, olha para mim: Por que me desamparaste? Os clamores de meus pecados são causa de estar longe de mim a salvação.[2]Olha para mim / Os clamores de meus pecados — OLHA PARA MIM — Êste período falta no hebreu, e assim não é de admirar que Cristo o omitisse na sua oração da Cruz, formada do princípio dêste salmo. Porém, trazem-no os Setenta, e dêles o tomou a Vulgata. — Pereira. OS CLAMORES DE MEUS PECADOS — Isto é, dos nossos, que êle fêz seus, enquanto os tomou sôbre si para satisfazer por êles ao Eterno Pai, como vítima expiatória.
3Meu Deus, clamarei durante o dia, e tu não me ouvirás: Clamarei de noite, e não por insipiência minha.
4Mas tu moras no lugar santo, ó Glória de Israel.[3]Ó Glória de Israel — O hebreu tem: "E tu, Santo habitante, louvores de Israel", isto é: "E tu és o Santo por essência, ou a mesma santidade, o imutável nos teus conselhos e promessas". Salmo 101, 13. 28, e o único objeto de tôdas as graças e bênçãos que te dá teu povo. Em nome dêste verdadeiro Israel, cujo rei sou, te invoco, para que a Ressurreição, que eu te peço, seja princípio da ressurreição de todo o Israel. — P. Scio.
5Em ti esperaram nossos pais: Esperaram, e os livraste.
6A ti clamaram, e foram salvos: Em ti esperaram, e não foram confundidos.
7Mas eu sou bichinho, e não homem: O opróbrio dos homens, e a abjeção da plebe.
8Todos os que me viam escarneceram de mim: Falaram com os lábios, e menearam a cabeça.[4]Escarneceram de mim — Como à letra sucedeu na sua Santíssima Paixão, e estando na Cruz. Mt 27, 39. — P. Scio.
9Esperou no Senhor, livre-o: Salve-o: se é que o ama.[5]Salve-o, se é que o ama — Dêste modo, e com as mesmas palavras lançavam os judeus a Jesus Cristo na Cruz, não os seus delitos, que não os podia ter, mas a sua mesma piedade. Mt 27, 43. — Bossuet.
10Porque tu és o que me tiraste do ventre: A minha esperança desde os peitos de minha mãe.[6]A minha esperança desde os peitos — A versão de S. Jerônimo tem aqui: "Tu fôste o meu defensor, etc." O que se verificou, quando logo ao nascer o livrou Deus da perseguição e crueldade de Herodes. — Bossuet.
11Eu fui lançado nos teus braços desde o seu seio: Tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe.
12Não te retires de mim: Porque a tribulação está próxima: Porque não há quem me ajude.[7]Não te retires de mim — Aqui principia uma viva pintura da Paixão do Senhor, que descreve por semelhanças mui próprias, para manifestar a grandeza das suas aflições. A palavra quoniam no hebreu, e no grego, é aqui com mais propriedade conjuntiva do que causal. — P. Scio.
13Um grande número de novilhos me cercaram: Eu me vi sitiado de gordos touros.[8]Um grande número de novilhos me cercaram — Os judeus, os príncipes dos sacerdotes, os escribas, e ainda os mesmos soldados de Pilatos são figurados na imagem de novilhos indómitos e de furiosos touros. No hebreu se lê: Fortes touros do Basan: Porque era o território onde se criavam mais gordos, e ferozes. Dt 32, 14. — Sacy.
14Abriram sôbre mim a sua bôca, como leão roubador e que dá rugidos.
15Eu me derramei como água, e todos os meus ossos se desconjuntaram. O meu coração no meio das minhas entranhas se tornou como cêra que se derrete.[9]Eu me derramei como água — Sucedeu isto pontualmente, quando viu o Senhor correr o seu Sangue orando no Horto, nos açoites à coluna, e quando o crucificaram no Calvário. — P. Scio.
16Secou-se como barro cozido o meu vigor, e a minha língua se pegou às minhas fauces: E me tens conduzido até ao pó da sepultura.[10]E a minha língua se pegou às minhas fauces — Descreve a sêde, que é nos tormentos a que mais aflige, e debilita, e foi a de que únicamente se queixou o Redentor. Jo 19, 28. — Bossuet.
17Porquanto me rodearam muitos cães: Uma turba de malignos me sitiou. Êles trespassaram as minhas mãos e os meus pés:[11]Êles trespassaram as minhas mãos e os meus pés — Um texto tão claro, e tão decisivo pela crucificação de Cristo, pretenderam tirar-nos os judeus modernos, corrompendo a antiga e primitiva lição hebraica Caaru, ou Caru, que quer dizer, "traspassaram" com lhes substituírem Caari, que quer dizer "Como um leão" e que é hoje a vulgar nos exemplares hebraicos. De sorte que em lugar do que trazem os Setenta e a Vulgata, Foderunt manus meas et pedes meos: Êles me trespassaram as minhas mãos, e os meus pés: lêem os Rabinos nos seus Códices Sicut leo manus meae, et pedes meos, subentendendo mordent, ou lacerant: Como um leão mordem, ou despedaçam as minhas mãos e os meus pés: Como se costumasse o leão acometer às mãos e pés do homem, e não todo o corpo. Para convencer a falsificação dêste famoso texto, pouca força terá para com os Rabinos de hoje a autoridade de alguns poucos Códices Hebraicos, em que Galatino, o nosso Paiva e Andrade, Buxtorf, e Martianay testificam, que acharam Caaru e não Caari, visto que a sua extrema raridade os faz como não entrar em conta. Também lhe não argumentaremos com o testemunho dos Setenta Intérpretes, que por mais grave que se suponha, não pode competir com o do original. Mas que dirão êles a um Padre do segundo século do Cristianismo, e seu nacional, qual S. Justino Mártir, que é tanto no Diálogo com o judeu Trifão, como na sua Apologia pelos Cristãos, alega verificado em Jesus Cristo o verso do presente Salmo, Foderunt manus meas et pedes meos, como êle se acha nos Setenta e na Vulgata? Que dirão a um S. Jerônimo, que traduzindo o Saltério segundo o hebreu, que no quarto século corria por autêntico, verteu o mesmo verso assim: Fixerunt manus et pedes meos? Se isto não é uma prova evidente de que a lição primogênita dêste texto era a que hoje lemos em todos os códices gregos, e latinos: Produzam os Rabinos pela sua outros dois testemunhos tão antigos, e tão graves, e então desistiremos da emprêsa de mostrar-lhes que a Crucificação de Cristo, referida nos Evangelhos, estava profetizada mil anos antes pelo Real Profeta. O doutíssimo Calmet escreveu e publicou sôbre êste verso uma Dissertação, deveras notável.
18Contaram todos os meus ossos. E êles mesmos me estiveram considerando e olhando:[12]Me estiveram considerando — Dando cruel pasto à sua paixão, e aos seus olhos com a minha miséria, como se assistissem a um espetáculo mui agradável. Lc 23, 35. — P. Scio.
19Repartiram entre si os meus vestidos, e lançaram sorte sôbre a minha túnica.
20Mas tu, Senhor, não afastes de mim o teu socorro: Aplica-te a me defenderes.
21Livra, ó Deus, a minha alma da espada: E da mão do cão a minha vida.[13]A minha vida — Na Vulgata está unicam meam, que o Pe. Pereira traduziu a minha única, o que não faz sentido; porém o têrmo original Jahhid na poesia significa vida. Cfr. Leopold, Lexicon hebraicum et chaldaicum.
22Salva-me a mim da bôca do leão: E a minha humildade dos cornos dos unicórnios.
23Então anunciarei o teu nome a meus irmãos: No meio da Igreja te louvarei.[14]A meus irmãos — Aos Apóstolos. Mt 28, 10. A todos os verdadeiros fiéis adotados pela graça do Padre, regenerados pelo Espírito Santo, e feitos irmãos de Jesus Cristo, e herdeiros juntamente com êle do seu Reino, Jo 20, 17, Rom 8, 29, e S. Paulo Hebr. 2, 10-12, aplica êste texto a Jesus Cristo. — P. Scio.
24Vós os que temeis ao Senhor, louvai-o: Vós todos os que sois a descendência de Jacó, glorificai-o:
25Tema-o tôda a posteridade de Israel: Porque êle não desprezou, nem se indignou da humilde súplica do pobre: Nem apartou de mim a sua face: Mas êle me ouviu quando eu lhe clamava.
26Para contigo o meu louvor na Igreja grande: Eu cumprirei os meus votos em presença dos que o temem.[15]Para contigo o meu louvor — O hebreu tem "De ti o meu louvor" e o mesmo os Setenta, ao que também se reduz o sentido da Vulgata. Em ti, e de ti começarão todos os meus louvores na Igreja grande, e estendida por tôdas as partes da terra, qual é a Igreja Católica, formada de tôdas as nações do Universo reunidas em uma mesma fé. — Calmet.
27Os pobres comerão, e serão fartos: E os que buscam ao Senhor louvá-lo-ão: Os seus corações viverão pelos séculos dos séculos.[16]Os pobres comerão — Alude aos banquetes dos sacrifícios em ação de graças, para os quais eram convidados os peregrinos, os pupilos, e as viúvas. Dt 16, 11-14. E aos convites da Igreja primitiva, quando os recém-convertidos comiam todos juntos com alegria, e simplicidade de coração. At 2, 46. E finalmente ao banquete do Santíssimo Sacramento. — Bossuet.
28Lembrar-se-ão, e converter-se-ão ao Senhor todos os limites da terra: E adorarão na sua presença tôdas as familias das gentes.[17]As famílias das gentes — Acima no v. 23 falou dos judeus, chamando-os seus irmãos; agora neste fala dos gentios, que também por fim se hão de converter ao verdadeiro Deus, como declara o verso seguinte. — Bossuet.
29Porquanto do Senhor é o reino, êle mesmo reinará sôbre as gentes.
30Comeram e o adoraram todos os poderosos da terra: Diante dêle se prostraram todos os que descem à terra.[18]Todos os poderosos da terra — Os grandes, os potentados, os reis hão de com humildade dar culto a Deus, e vir ao seu banquete. — Bossuet.
31E a minha alma viverá para êle: E a minha descendência o servirá a êle mesmo.
32A geração que há de vir será chamada com o nome do Senhor: E anunciarão os céus a justiça dêle ao povo que há de nascer, ao qual fêz o Senhor.[19]Ao povo que há de nascer — Ao novo povo, à nação santa, ao povo conquistado, como lhe chama o príncipe dos apóstolos. 1 Pedr 2, 9. — Bossuet.