Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 22

Salmo moral. A quem Deus apascenta, nada lhe falta.

1Salmo de Davi. O Senhor me governa, e nada me faltará:[1]Salmo de Davi / O Senhor me governaDeus como bom pastor é o objeto dêste Salmo. Não é fácil determinar o motivo que Davi tem para a composição dêste Salmo. É opinião verossímil que fôra composto no deserto de Zif, no tempo das grandes tribulações que o Profeta Rei experimentou, quando, abandonado dos seus, não podia já ter outra confiança, senão a que lhe inspirava a sua piedade, esperando de Deus o remédio de seus males. Tem cinco estrofes. Nas três primeiras o Salmista exprime a felicidade que goza o que vive sob a guarda de Deus, comparando êstes ao rebanho guiado pelo pastor fiel. Êste mesmo pensamento está nas duas últimas, sob uma outra imagem familiar aos hebreus. Deus serve um festim aos seus, que a êle assistem depois de se terem perfumado, terminando por pedir a Deus habitar na sua casa por Todo o Sempre. O SENHOR ME GOVERNA — O hebreu tem "O Senhor é o meu pastor". — Carrières.

2Em um lugar de pastos ali me colocou. Êle me conduziu junto a uma água de refeição:

3Converteu a minha alma. Levou-me por veredas de justiça, e por amor do seu nome.

4Pois ainda quando andar no meio da sombra da morte, não temerei males: Porquanto tu estás comigo. A tua vara, e o teu báculo, êles me consolaram.

5Preparaste uma mesa diante de mim, à vista daqueles que me angustiavam. Ungiste com o óleo pingue a minha cabeça: E o meu cálice que embriaga quam precioso é![2]Ungiste com o óleo pingue a minha cabeçaAssim se costumava nos banquetes e mais ocasiões de alegria. — Bossuet.

6E a tua misericórdia irá após de mim todos os dias da minha vida. E a fim de que eu habite na casa do Senhor, por diuturnidade de dias.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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