Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 59

Salmo deprecatório no qual Davi pede a vitória sôbre os idumeus.

Ao regente do côro.

1Sôbre Schouscham'edouth. Miktham Davi,[1]SCHOUSCHAM'EDOUTHEstas palavras, de sentido obscuro, foram traduzidas pela Vulgata Pro his qui immutabuntur, Para aquêles que hão de ser mudados, o que é incompreensível. A primeira já nos referimos, dizendo que significa o lírio, certamente uma ária conhecida por êste nome, de algum instrumento agora desconhecido. A segunda palavra não foi traduzida pela Vulgata neste salmo, talvez pelo seu sentido demasiado obscuro. Talvez se possa traduzir — Ao regente do côro; com a música de lírio de testemunho. Os antigos intérpretes seguindo a Vulgata entendiam que estas palavras se deviam referir aos homens que deveriam ser mudados nos seus costumes e pensamentos pela vinda do Messias.

2quando destruiu a Mesopotâmia da Síria, e a Sobal, e voltando Joab, derrotou a Iduméia no vale das Salinas com o destrôço de doze mil homens. (2 Rs 8, 1; 10, 1, e 1 Paral 18, 1.)[2]QUANDO DESTRUIUEstas palavras indicam duma maneira geral a época da composição do salmo. Devia ter sido antes da vitória do vale das Salinas, no momento em que os idumeus assolavam a Palestina do sul, aos quais o rei não podia opor resistência eficaz. Tem três estrofes. A primeira (3-7) Queixas e orações de Israel, sob o jugo dos idumeus. Segunda (8-10) Discurso de Deus anunciando o desbarato das fôrças opressoras. Terceira (11-14) Suplica ao Senhor para alcançar a vitória sôbre os idumeus.

3Ó Deus, desamparaste-nos, e destruíste-nos: Tu te iraste, e tiveste piedade de nós.[3]DESAMPARASTE-NOSIsto deve entender-se das grandes calamidades, que sofreu o povo no govêrno dos juízes, e do reinado de Saul, dêste modo: Em outro tempo irado, Deus meu, conosco como indignos da tua proteção, nos desamparaste e permitiste que os nossos inimigos nos vexassem; mas por fim de tudo isto, aplacado misericordiosamente nos salvaste. — Pereira.

4Fizeste estremecer a terra, e a turbaste: Sara as suas fendas, porque está abalada.

5Mostraste ao teu povo coisas duras: Deste-nos a beber vinho de compunção.[4]VINHO DE COMPUNÇÃOO hebreu diz: "vinho de perturbação," deixando-nos como aturdidos, e sem saber que fazer, à semelhança dos que perdem o sentido, pelo excesso do vinho que beberam. Veja-se a ameaça do Dt 28, 34. — P. Scio.

6Deste aos que te temem um sinal: Para que fugissem da face do arco: E que se livrassem os teus amados:[5]DESTE AOS QUE TE TEMEMAlude ao costume de levantar uma bandeira em um lugar elevado, para que soubessem aonde se haviam de refugiar os que fugiam, vendo-se perseguidos. Is 11, 12, ou talvez ao que sucedeu, quando Moisés por ordem de Deus fêz rociar as portas dos israelitas com o sangue do Cordeiro, que devia de servir de sinal ao anjo exterminador, para que não lhes fizesse algum dano, ao mesmo tempo que matava a todos os primogénitos do Egito. — Êx 12. — P. Scio.

7Salva-me com a tua destra, e ouve-me.

8Deus falou no seu santuário. Alegrar-me-ei, e partirei para Siquém, e medirei o vale dos tabernáculos.[6]SIQUÉMVeja-se em 19, 6.

9Meu é Galaad, e meu é Manassés: E Efraim fortaleza da minha cabeça. Judá meu rei:

10Moab vaso da minha esperança. Sôbre a Iduméia estenderei o meu calçado: Submetidos me estão os estrangeiros.

11Quem me conduzirá à cidade fortificada? Quem me conduzirá até à Iduméia?

12Quem senão tu, ó Deus, que nos desamparaste? E não sairás tu, ó Deus, em nossos exércitos?

13Dá-nos socorro na tribulação: Porque vã é a salvação da parte do homem.

14Em Deus faremos proezas: E êle mesmo reduzirá a nada aos que nos afligem.[7]EM DEUS FAREMOS PROEZASCom a sua ajuda, e socorro: com o seu poder. Sl 65, 5-11.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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