Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 124

Salmo didático. Os justos vivem seguros à sombra da Divina Providência: os ímpios perecerão.

1Cântico gradual. Os que confiam no Senhor, estão firmes como o monte de Sião: Nunca jamais será comovido o que mora[1]Cântico gradualÊste salmo deve ter sido composto durante o cativeiro, o que parece indicar o versículo 3. Tem três estrofes. Primeira (1-2). Aquêle que confia em Deus está firme, como Jerusalém sôbre as montanhas. Segunda (3). O fim do cativeiro. Terceira (4-5). Que Deus trate com misericórdia os bons, e que castigue os maus.

2em Jerusalém. Ela está cercada de montes: E o Senhor está ao redor do seu povo desde agora, e para sempre.

3Porque não deixará o Senhor a vara dos pecadores sôbre a sorte dos justos: Para que os justos não estendam as suas mãos à iniqüidade.[2]Não deixará o SenhorPorque o Senhor que é fiel e justo não permitirá que os seus servos sejam tentados sôbre as suas fôrças, e pelo contrário fará que se lhes converta em bem a tentação. O hebreu diz: "Porque não repousará a vara, a tirania, a perseguição, dos pecadores sôbre a sorte dos justos, sôbre os justos que são a herança, e sorte do Senhor."

4Faze bem, Senhor, aos bons e aos retos de coração.

5Mas aos que se desviam para caminhos tortuosos levá-los-á o Senhor com os que obram iniqüidade: Paz seja sôbre Israel.[3]Caminhos tortuososÉ o sentido do texto grego e do hebraico. A Vulgata traz obligationes, cujo sentido é obscuro. Alguns sustentam que houve um êrro de cópia, e que se deve ler obliquationes, Wertenauer, Lexicon Biblicum, Roma 1866. Outros entendem que obligationes é a lição verdadeira, pois esta palavra significa laço, corda para estrangular. Cfr. At 8, 23. O salmista refere-se aos que oprimiam os habitantes de Jerusalém. Kaulen, Handbuch zur Vulgata 1870.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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