Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 17

Salmo histórico e profético em que Davi descreve os gravíssimos perigos, em que se tinha visto, e dá solenes graças ao Senhor pelo ter livrado de todos êles e pelo ter constituído rei.

1Ao regente do côro do servo do Senhor, de Davi, que pronunciou para glória do Senhor as palavras dêste cântico, no dia em que o Senhor o livrou da mão de todos os seus inimigos, assim como do poder de Saul, e disse: (2 Rs 22, 2).[1]Salmo 17É o Salmo mais extenso. Divide-se em duas partes muito distintas: 2, 31. 32, 51. A primeira parte compõe-se de nove estrofes, a segunda de seis. Primeira parte: 1.ª estrofe (2 a 4) Davi ama a Deus, porque O Eterno é a sua fôrça e livra-o dos seus inimigos. — 2.ª (5 a 7) Descreve os males de que o Senhor o salvou. — 3.ª a 5.ª (8 a 18) O poder de Deus socorrendo Davi. — 6.ª (17 a 20) Davi é salvo. — 7.ª (21 a 24) Recompensa da sua piedade. — 8.ª (25 a 28) Deus trata o homem conforme os seus méritos. — 9.ª (29 a 31) Deus é a proteção de todos os que nêle confiam. — Segunda parte: 1.ª estrofe (32 a 35) Só Iahvéh é Deus e nós tudo Lhe devemos. 2.ª e 3.ª (36 a 43) É a fôrça de Davi que assim consegue triunfar dos seus inimigos. — 4.ª (44 a 46) Torna-o rei e enche-o de glória. — 5.ª (47 a 49) Bendito Deus pelos benefícios que liberaliza. — 6.ª (50 a 51) Davi louvará sempre o Senhor. Discrepam os intérpretes sôbre a ocasião em que êste Salmo foi composto. S. Boaventura é de parecer que Davi dirigiu êste cântico ao Senhor no último dia da sua vida; porém está escrito com tanto vigor, e num estilo tão elevado e enérgico, que se vê não poder ser a composição dum moribundo. Outros entendem que foi composto depois da morte de Saul. S. Paulo na Ep. aos Romanos, 15, 9, aplicou este Salmo a Jesus Cristo.

2Eu te amarei, Senhor, que és a minha fortaleza:

3O Senhor é a firmeza, e o meu refúgio, e o meu libertador. Êle é meu Deus, meu favorecedor, e nêle esperarei. Meu protetor, e a fôrça da minha salvação, e meu amparador.

4Louvando-o, invocarei ao Senhor: E serei salvo de meus inimigos.

5Cercaram-me de dores de morte: E torrentes de iniquidade me conturbaram.

6Dores de inferno me cercaram: Surpreenderam-me laços de morte.

7Na minha tribulação invoquei o Senhor, e clamei ao meu Deus. E êle ouviu desde o seu santo templo a minha voz: E o clamor que eu dei na sua presença, entrou nos seus ouvidos.

8Comoveu-se a terra, e tremeu: Os fundamentos dos montes estremeceram; e se abalaram, porque se indignou contra êles.[2]Comoveu-se a terraO hebreu diz: "E bramiu e tremeu a terra, e os fundamentos dos montes se encheram de horror e bramiram", outros têm: "Estremeceram, porque estava incendido". É tôda esta uma maravilhosa descrição poética, em que pinta com as mais vivas côres os efeitos da terrível ira com que o Senhor espantou e aterrou a todos os inimigos de Davi, querendo dar a entender com ela que o havia tirado de todos os perigos por meios milagrosos. Outros o entendem dos prodígios que Deus fêz para livrar o seu povo dos egípcios. Também se pode aplicar isto às maravilhas que Deus fêz na pregação do Evangelho. — P. Scio.

9Subiu fumo na ira dêle: E saiu fogo ardendo do seu rosto: Por êle foram incendiados carvões.

10Inclinou os céus, e desceu: E obscuridade debaixo de seus pés.[3]Inclinou os céus e desceuOs Santos Padres da Igreja aplicam isto à Encarnação do Verbo Divino, quando, fazendo-se homem, se humilhou e habitou entre nós para nos salvar.

11E subiu sôbre querubins, e voou: Voou sôbre as asas dos ventos.[4]E subiu sôbre querubinsO hebreu: "Montou sôbre um querubim", querendo significar a velocidade com que Deus acode em socorro dos seus. Os Padres, com S. Jerônimo, reconhecem nisto uma imagem da Ascensão de Jesus Cristo aos Céus. — P. Scio.

12E se ocultou nas trevas como em um pavilhão seu, que o cercava: Água tenebrosa nas nuvens do ar.[5]Como em um pavilhãoFormou em roda de si um denso pavilhão, que o ocultava, e as nuvens fecundas de água, que o cobriam, ameaçavam uma horrível tempestade. — P. Scio.

13Pelo resplendor da sua presença se desfizeram as nuvens em chuva de pedra, e carvões de fogo.[6]Se desfizeram as nuvensE abrindo caminho por meio das nuvens o resplendor de sua majestade, se resolveram elas em graniso e em raios ardentes pelo favor do Todo-Poderoso. — P. Scio.

14E o Senhor trovejou desde o céu, e o Altíssimo fêz ouvir a sua voz: E caíram pedra e carvões de fogo.

15E enviou as suas setas e desbaratou-os: Multiplicou relâmpagos, e os aterrou.

16E apareceram os mananciais das águas, e ficaram descobertos os fundamentos da terra: Às tuas ameaças, ó Senhor, ao sôpro impetuoso da tua ira.

17Enviou desde o alto, e me tomou: E me tirou das muitas águas.[7]Enviou desde o altoEnviou o Padre desde o alto ao Verbo que tomou a natureza humana, e se desposou com a Igreja, e nos tirou dos males pelas águas do batismo. — Pereira.

18Êle me livrou de meus fortíssimos inimigos, e dos que me aborreciam: Porque se tinham feito mais poderosos do que eu.

19Eles me atacaram no dia da minha aflição: E o Senhor se declarou meu protetor.

20Êle me tirou ao largo: Êle me salvou, por efeito de me querer bem.

21E o Senhor me retribuirá segundo a minha justiça, e êle me retribuirá segundo a pureza das minhas mãos.

22Porque guardei os caminhos do Senhor, e não procedi impiamente contra o meu Deus.

23Porque todos os seus juízos estão diante de mim: E porque não repeli de diante de mim as suas justiças.

24E serei sem mácula diante dêle: E me guardarei da minha iniquidade.

25E o Senhor me retribuirá segundo a minha justiça: E segundo a pureza das minhas mãos que é presente aos seus olhos.

26Tu serás santo com o santo, e serás inocente com varão inocente:[8]Serás santo com o santoÊste versículo e o seguinte têm dado ocasião a interpretações muito diversas. O que está no original hebraico, traduzido à letra é o seguinte: "Com o misericordioso, vós sois misericordioso, Com o homem íntegro, vós sereis íntegro; Com o que se purifica, vós sois puro; Com o astucioso, obrareis com rodeios;" O sentido porém destas palavras é êste: "Senhor, vós tratais o homem segundo os seus méritos; sois para êle, como êle é para vós." O que difere do sentido vulgar em que frequentes vêzes êste texto é empregado, que para muitos tem o mesmo valor do que o ditado português "Dize-me com quem lidas..." ou então a outro "Aproxima-te dos bons e serás um dêles". É frequente aplicar êste texto para provar a influência benéfica das boas companhias, com os santos serás santo, e o contágio das más, com os perversos. Porém, como acima fica dito, o sentido não é êste. O Bispo Belley pregava um dia diante de S. Francisco de Sales, e aplicou êste texto para que os ouvintes evitassem as más companhias. Ao descer do púlpito o Santo Doutor perguntou ao pregador, mostrando desagrado, porque tinha mudado o sentido do texto. Respondeu-lhe êle, que era uma alusão. Bem sei, retorquiu o sábio e santo Bispo, mas devíeis dizer que êste não era o sentido literal: "mais du moins devriez vous dire que ce n'était pas là le sens littéral". Esprit de S. François de Sales.

27E com escolhido escolhido serás: E serás perverso com o perverso.

28Porque tu salvarás ao povo humilde: E humilharás os olhos dos soberbos.

29Pois que tu, Senhor, alumias a minha candeia: Esclarece, meu Deus, as minhas trevas.

30Porque por ti sairei livre da tentação, e com o meu Deus traspassarei a muralha.[9]Traspassarei a muralhaO hebreu tem: Porque em ti, pela tua virtude, ou Contigo desbaratarei um exército. — Sacy.

31Meu Deus, sem mácula é o caminho do Senhor: As suas palavras são examinadas no fogo: Êle é o protetor de todos os que nêle esperam.

32Porque quem é Deus fora do Senhor? Ou que Deus há fora do nosso Deus?

33Êle é o Deus que me revestiu de fôrça: E fêz que o caminho fôsse imaculado.

34Que fêz os meus pés como de servos, e me estabeleceu sôbre lugares altos.

35Que adestra as minhas mãos para a peleja: E formaste os meus braços, como arco de bronze.[10]E formaste os meus braços como arco de bronzeO hebreu tem: E um arco do bronze seja quebrado com os meus braços, o que parece aludir à fôrça maravilhosa de Davi. 1 Rs 17, 35.

36Que me deste a tua proteção para me salvar: E a tua direita me susteve: A tua disciplina me corrigiu até o fim: E essa tua mesma disciplina ela me ensinará.

37Alargaste os mesmos passos debaixo de mim: E não se enfraqueceram os meus pés:

38Perseguirei os meus inimigos, e apanhá-los-ei: E não me volverei até que êles acabem.

39Eu lhes quebrarei as forças, e êles não poderão ter-se em pé: E cairão debaixo de meus pés.

40Porque tu me guarneceste de fôrça para a guerra: E abateste debaixo de mim aos que se levantaram contra mim:

41E fizeste que os meus inimigos me dessem costas, e aniquilaste aos que me aborreciam.

42Gritaram, e não havia quem os salvasse, ao Senhor: E não os ouviu.

43E os desfarei, como o pó que o vento espalha: Fá-los-ei desaparecer como a lama das ruas.

44Livrar-me-ás das contradições do povo: Estabelecer-me-ás em cabeça das gentes.

45Um povo, que não conheci, me serviu: Ao ouvir a minha voz me foi obediente.

46Os filhos estranhos me mentiram, os filhos estranhos se envelheceram, e claudicaram dos seus caminhos.

47Viva o Senhor, e seja bendito o meu Deus, e seja exaltado o Deus da minha salvação.

48Deus que me dás vinganças, e sujeitas os povos debaixo de mim, meu libertador dos meus inimigos enfurecidos.

49E tu me elevarás por cima daqueles, que se levantam contra mim: Tu me livrarás do homem iníquo.

50Por isso eu, Senhor, te louvarei entre as nações: E cantarei um salmo ao teu nome.[11]Por isso eu, SenhorS. Paulo, como advertimos ao princípio, aplica êste verso a Jesus Cristo, a quem sem dificuldade pode também aplicar-se todo o salmo. O Divino Salvador se vê aqui figurado na pessoa de Davi, e nos inimigos dêste o povo ingrato dos hebreus. Prova pois o apóstolo por êste lugar a vocação dos gentios à fé. Ep. ad Rom. c. 15, 9. — Pereira.

51O qual engrandece com magnificência a salvação do rei, e que faz misericórdia a Davi seu Cristo, e fará à sua posteridade por todos os séculos.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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