Capítulo 9
1Ao regente do côro, no tom de Mouth Labben (morte do filho?) salmo de Davi.[1]Mouth Labben — Propositadamente mantivemos as palavras do original, e entre parênteses a tradução, embora duvidosa. A ser exata quererá dizer que êste Salmo deve ser cantado com a música conhecida por estas palavras. O Targum diz que êste Salmo se refere a triunfo alcançado sôbre Golias. Tem dez estrofes de quatro versos cada. 1.ª (2-3) Glorifica Davi ao Senhor. 2.ª (4-5) Porque alcançou vitória e justiça. 3.ª (6-8) Descreve a derrota dos inimigos. 4.ª (8-9) Grandeza e justiça de Deus vencedor. 5.ª (10-11) Deus é o refúgio de todos os oprimidos. 6.ª (12-13) Exorta ao agradecimento a Deus que vingou o seu povo. 7.ª (14-16) Oração de Davi para que o livre dos inimigos. 8.ª (16-17) Fruto desta oração. 9.ª (18-19) Punição do mau e libertação do oprimido. 10.ª (20-21) Oração a Deus para que defenda o seu povo dos ataques dos gentios. Também os intérpretes consideram êste Salmo alusivo à vida e morte do nosso Redentor Jesus Cristo.
2Eu te glorificarei, Senhor, com todo o meu coração, cantarei tôdas as tuas maravilhas.
3Alegrar-me-ei, e regozijar-me-ei em ti: Cantarei o teu nome, ó Altíssimo.
4Porque fizeste pôr em fugida ao meu inimigo: Serão debilitados, e perecerão diante de ti.
5Porque julgaste e defendeste a minha causa: Assentaste-te sôbre o trono tu que julgas segundo a justiça.
6Tu repreendeste as nações, e o ímpio pereceu: Apagaste o nome dêle para sempre, e por todos os séculos dos séculos.
7As espadas do inimigo perderam a sua fôrça para sempre: E destruíste as suas cidades. A memória deles pereceu com ruído:
8E o Senhor permaneceu eternamente. Êle preparou o seu trono para exercer o juízo:
9E êle mesmo julgará tôda a terra em eqüidade, êle julgará os povos em justiça.
10O Senhor se fêz o refúgio para o pobre: Socorrendo-o oportunamente na angústia.
11Em ti pois esperem os que conhecem o teu nome: Porque tu, Senhor, não desamparaste aos que te buscam.
12Cantai ao Senhor, que habita em Sião: Anunciai entre as nações os seus conselhos:
13Porque demandando o sangue dêles os teve presentes: Não se esqueceu do clamor dos pobres.[2]Porque demandando o sangue dêles — Êste verso se pode explicar de duas maneiras; requirens, exercendo a sua justa vingança, recordatus est sanguinem eorum, ou requirens sanguinem eorum, recordatus est, non est oblitus clamorem pauperum, vingando o Sangue injustamente derramado dos que o buscam e esperam nêle; tem mui presentes e não se esquece dos clamores dos atribulados e oprimidos. — P. Scio.
14Tem compaixão de mim, Senhor: Vê a humilhação a que meus inimigos me reduziram.
15Tu que me retiras das portas da morte, para que publique todos os teus louvores nas portas da filha de Sião.
16Exultarei na tua salvação: Cravaram-se as gentes na ruína, que me haviam preparado. No mesmo laço que esconderam, ficou prêso o pé dêles.[3]Exultarei na tua salvação — In salutari tuo é um hebraísmo; isto é, pela salvação que me hás de dar. — Pereira. — NA RUÍNA QUE ME HAVIAM PREPARADO — O hebreu lê: 'no fôsso que fizeram'. Tôdas estas expressões são tomadas do que se costuma praticar na caça das feras e das aves. — P. Scio.
17Conhecido será o Senhor que faz justiça: Nas obras das suas mãos foi prêso o pecador.
18Sejam precipitados todos os pecadores no inferno, tôdas as nações que se esquecem de Deus.[4]Sejam precipitados todos os pecadores — O sentido dêste verso, segundo a Vulgata, parece ser o que damos na versão. O hebraico diz assim: 'Sejam condenados os ímpios ao inferno: tôdas as nações esquecidas de Deus.' O que unido com o que precede, pode expor-se dêste modo: Deus é conhecido quando faz resplandecer a sua justiça com algum castigo exemplar, e quando se vê que o pecador fica enredado nas mesmas rêdes, nos mesmos laços, que preparava para os outros. E fazendo depois uma apóstrofe a Deus, diz: Faze, pois, Deus meu, dêstes escarmentos: precipita no inferno aos ímpios, pois do contrário vendo as nações que êles vivem e morrem impunemente, dirão que não há Deus que vingue os delitos. O que se há de tomar como profecia e não como imprecação. — P. Scio.
19Porque nem para sempre haverá esquecimento do pobre: Nem a paciência dos pobres será para sempre frustrada.
20Levanta-te, Senhor, não se fortifique o homem: Sejam julgadas as nações em tua presença.
21Senhor, estabelece sôbre êles um legislador: Para que as nações conheçam que são homens.
22Porque te apartaste, tu, Senhor, para longe, desamparas-nos nas necessidades, na tribulação?[5]Segundo os hebreus — Os Setenta e a Vulgata consideram êste Salmo como a continuação do anterior, ao passo que os hebreus o consideram como um outro, resultando daqui uma diferença na numeração. Compreende onze estrofes que versam sôbre o mesmo assunto das precedentes. Os versículos 22-39 desta edição correspondem aos versículos 1-18 do Salmo 10 segundo a numeração hebraica.
23Entretanto que o ímpio se ensoberbece, é abrasado o pobre: Êles são apanhados nos pensamentos de que o seu espírito está ocupado.
24Porque o pecador tira louvor nos desejos da sua alma: E o iníquo é abençoado.
25O pecador irritou ao Senhor, não o buscará segundo a grandeza da sua indignação.
26Não há Deus diante dêle: Os seus caminhos são maculados em todos os tempos. Os teus juízos estão tirados de diante dêle: Êle dominará a todos os seus inimigos.
27Porque êle disse do seu coração: Não serei abalado de geração em geração, sem mal.[6]Porque êle disse no seu coração — Todo êste verso vem assim na versão de S. Jerônimo: Loquitur in corde suo. Non movebor: in generatione ero sine malo. Da mesma sorte o lê e expõe segundo a versão dos Setenta S. João Crisóstomo. — Pereira.
28A sua bôca está cheia de maledicência, e de amargura e de dolo: Debaixo da sua língua está o trabalho e a dor.
29Está de assento em emboscada com os ricos em lugares ocultos, para matar ao inocente.
30Os seus olhos estão voltados contra o pobre: Arma ciladas, em secreto, como o leão na sua cova. Arma ciladas para arrebatar ao pobre: Para arrebatar ao pobre atraindo-o a si.[7]Arma ciladas — É uma bela descrição de um ladrão de estradas, que espera emboscado nos caminhos para cair sôbre os passageiros e roubá-los. Nesta imagem, se representam todos aquêles que por meio de violências, enganos e más artes, enganam aos outros. — P. Scio.
31Êle o abaterá no seu laço, se inclinará, e deixará cair, logo que se apoderar dos pobres.
32Porque êle disse no seu coração: Deus se esqueceu, apartou o seu rosto para não ver jamais.
33Levanta-te, Senhor Deus, eleve-se a tua mão: Não te esqueças dos pobres:
34Por que razão irritou o ímpio a Deus? Por que disse no seu coração? Êle não perguntará por isso.
35Tu o vês, porque tu consideras o trabalho e a dor: Para os entregares às tuas mãos. Para ti se reservou o cuidado do pobre: Tu serás o que ajudes o órfão.
36Quebra o braço do pecador e do maligno: O seu pecado buscar-se-á, e não se achará.[8]O seu pecado buscar-se-á, e não se achará — Pecado se toma aqui pelas coisas que se buscaram e alcançaram por meio dêle. — Bossuet.
37O Senhor reinará eternamente, e por séculos de séculos: Vós, ó Nações, sereis exterminadas da sua terra.
38O Senhor ouviu o desejo dos pobres: A tua orelha entendeu a disposição do seu coração.
39Para julgares a favor do pupilo e do humilde, a fim de que o homem não empreenda mais engrandecer-se sôbre a terra.