Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 9

Salmo eucarístico, em que Davi se mostra agradecido ao Senhor pelo haver livrado por um modo singular dos seus inimigos.

1Ao regente do côro, no tom de Mouth Labben (morte do filho?) salmo de Davi.[1]Mouth LabbenPropositadamente mantivemos as palavras do original, e entre parênteses a tradução, embora duvidosa. A ser exata quererá dizer que êste Salmo deve ser cantado com a música conhecida por estas palavras. O Targum diz que êste Salmo se refere a triunfo alcançado sôbre Golias. Tem dez estrofes de quatro versos cada. 1.ª (2-3) Glorifica Davi ao Senhor. 2.ª (4-5) Porque alcançou vitória e justiça. 3.ª (6-8) Descreve a derrota dos inimigos. 4.ª (8-9) Grandeza e justiça de Deus vencedor. 5.ª (10-11) Deus é o refúgio de todos os oprimidos. 6.ª (12-13) Exorta ao agradecimento a Deus que vingou o seu povo. 7.ª (14-16) Oração de Davi para que o livre dos inimigos. 8.ª (16-17) Fruto desta oração. 9.ª (18-19) Punição do mau e libertação do oprimido. 10.ª (20-21) Oração a Deus para que defenda o seu povo dos ataques dos gentios. Também os intérpretes consideram êste Salmo alusivo à vida e morte do nosso Redentor Jesus Cristo.

2Eu te glorificarei, Senhor, com todo o meu coração, cantarei tôdas as tuas maravilhas.

3Alegrar-me-ei, e regozijar-me-ei em ti: Cantarei o teu nome, ó Altíssimo.

4Porque fizeste pôr em fugida ao meu inimigo: Serão debilitados, e perecerão diante de ti.

5Porque julgaste e defendeste a minha causa: Assentaste-te sôbre o trono tu que julgas segundo a justiça.

6Tu repreendeste as nações, e o ímpio pereceu: Apagaste o nome dêle para sempre, e por todos os séculos dos séculos.

7As espadas do inimigo perderam a sua fôrça para sempre: E destruíste as suas cidades. A memória deles pereceu com ruído:

8E o Senhor permaneceu eternamente. Êle preparou o seu trono para exercer o juízo:

9E êle mesmo julgará tôda a terra em eqüidade, êle julgará os povos em justiça.

10O Senhor se fêz o refúgio para o pobre: Socorrendo-o oportunamente na angústia.

11Em ti pois esperem os que conhecem o teu nome: Porque tu, Senhor, não desamparaste aos que te buscam.

12Cantai ao Senhor, que habita em Sião: Anunciai entre as nações os seus conselhos:

13Porque demandando o sangue dêles os teve presentes: Não se esqueceu do clamor dos pobres.[2]Porque demandando o sangue dêlesÊste verso se pode explicar de duas maneiras; requirens, exercendo a sua justa vingança, recordatus est sanguinem eorum, ou requirens sanguinem eorum, recordatus est, non est oblitus clamorem pauperum, vingando o Sangue injustamente derramado dos que o buscam e esperam nêle; tem mui presentes e não se esquece dos clamores dos atribulados e oprimidos. — P. Scio.

14Tem compaixão de mim, Senhor: Vê a humilhação a que meus inimigos me reduziram.

15Tu que me retiras das portas da morte, para que publique todos os teus louvores nas portas da filha de Sião.

16Exultarei na tua salvação: Cravaram-se as gentes na ruína, que me haviam preparado. No mesmo laço que esconderam, ficou prêso o pé dêles.[3]Exultarei na tua salvaçãoIn salutari tuo é um hebraísmo; isto é, pela salvação que me hás de dar. — Pereira. — NA RUÍNA QUE ME HAVIAM PREPARADO — O hebreu lê: 'no fôsso que fizeram'. Tôdas estas expressões são tomadas do que se costuma praticar na caça das feras e das aves. — P. Scio.

17Conhecido será o Senhor que faz justiça: Nas obras das suas mãos foi prêso o pecador.

18Sejam precipitados todos os pecadores no inferno, tôdas as nações que se esquecem de Deus.[4]Sejam precipitados todos os pecadoresO sentido dêste verso, segundo a Vulgata, parece ser o que damos na versão. O hebraico diz assim: 'Sejam condenados os ímpios ao inferno: tôdas as nações esquecidas de Deus.' O que unido com o que precede, pode expor-se dêste modo: Deus é conhecido quando faz resplandecer a sua justiça com algum castigo exemplar, e quando se vê que o pecador fica enredado nas mesmas rêdes, nos mesmos laços, que preparava para os outros. E fazendo depois uma apóstrofe a Deus, diz: Faze, pois, Deus meu, dêstes escarmentos: precipita no inferno aos ímpios, pois do contrário vendo as nações que êles vivem e morrem impunemente, dirão que não há Deus que vingue os delitos. O que se há de tomar como profecia e não como imprecação. — P. Scio.

19Porque nem para sempre haverá esquecimento do pobre: Nem a paciência dos pobres será para sempre frustrada.

20Levanta-te, Senhor, não se fortifique o homem: Sejam julgadas as nações em tua presença.

21Senhor, estabelece sôbre êles um legislador: Para que as nações conheçam que são homens.

22Porque te apartaste, tu, Senhor, para longe, desamparas-nos nas necessidades, na tribulação?[5]Segundo os hebreusOs Setenta e a Vulgata consideram êste Salmo como a continuação do anterior, ao passo que os hebreus o consideram como um outro, resultando daqui uma diferença na numeração. Compreende onze estrofes que versam sôbre o mesmo assunto das precedentes. Os versículos 22-39 desta edição correspondem aos versículos 1-18 do Salmo 10 segundo a numeração hebraica.

23Entretanto que o ímpio se ensoberbece, é abrasado o pobre: Êles são apanhados nos pensamentos de que o seu espírito está ocupado.

24Porque o pecador tira louvor nos desejos da sua alma: E o iníquo é abençoado.

25O pecador irritou ao Senhor, não o buscará segundo a grandeza da sua indignação.

26Não há Deus diante dêle: Os seus caminhos são maculados em todos os tempos. Os teus juízos estão tirados de diante dêle: Êle dominará a todos os seus inimigos.

27Porque êle disse do seu coração: Não serei abalado de geração em geração, sem mal.[6]Porque êle disse no seu coraçãoTodo êste verso vem assim na versão de S. Jerônimo: Loquitur in corde suo. Non movebor: in generatione ero sine malo. Da mesma sorte o lê e expõe segundo a versão dos Setenta S. João Crisóstomo. — Pereira.

28A sua bôca está cheia de maledicência, e de amargura e de dolo: Debaixo da sua língua está o trabalho e a dor.

29Está de assento em emboscada com os ricos em lugares ocultos, para matar ao inocente.

30Os seus olhos estão voltados contra o pobre: Arma ciladas, em secreto, como o leão na sua cova. Arma ciladas para arrebatar ao pobre: Para arrebatar ao pobre atraindo-o a si.[7]Arma ciladasÉ uma bela descrição de um ladrão de estradas, que espera emboscado nos caminhos para cair sôbre os passageiros e roubá-los. Nesta imagem, se representam todos aquêles que por meio de violências, enganos e más artes, enganam aos outros. — P. Scio.

31Êle o abaterá no seu laço, se inclinará, e deixará cair, logo que se apoderar dos pobres.

32Porque êle disse no seu coração: Deus se esqueceu, apartou o seu rosto para não ver jamais.

33Levanta-te, Senhor Deus, eleve-se a tua mão: Não te esqueças dos pobres:

34Por que razão irritou o ímpio a Deus? Por que disse no seu coração? Êle não perguntará por isso.

35Tu o vês, porque tu consideras o trabalho e a dor: Para os entregares às tuas mãos. Para ti se reservou o cuidado do pobre: Tu serás o que ajudes o órfão.

36Quebra o braço do pecador e do maligno: O seu pecado buscar-se-á, e não se achará.[8]O seu pecado buscar-se-á, e não se acharáPecado se toma aqui pelas coisas que se buscaram e alcançaram por meio dêle. — Bossuet.

37O Senhor reinará eternamente, e por séculos de séculos: Vós, ó Nações, sereis exterminadas da sua terra.

38O Senhor ouviu o desejo dos pobres: A tua orelha entendeu a disposição do seu coração.

39Para julgares a favor do pupilo e do humilde, a fim de que o homem não empreenda mais engrandecer-se sôbre a terra.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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