Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 65

Salmo gratulatorio em que o profeta convida a todos os moradores da terra a que glorifiquem ao Senhor pelos antigos prodígios, que havia obrado em favor do seu povo, e por outras graças particulares: oferece-lhe, por todos êstes benefícios, a louvá-lo sem cessar. Ao regente do côro.

1Cântico do Salmo da Ressurreição.
Celebrai a Deus todos os da terra,[1]Salmo da RessurreiçãoSALMO DA RESSURREIÇÃO — Estas palavras só se encontram na Vulgata, e, como o salmo, são obscuras. Podemos considerar duas partes neste salmo; na primeira o salmista agradece a libertação de sua nação, na segunda a liberdade de sua pessoa, mas ignora-se o assunto a que o autor alude. Tem cinco estrofes, as quatro primeiras divididas pela pausa selah, de que já tivemos ocasião de falar. A primeira estrofe (1-4). Que todos os povos da terra louvem a Deus, admirável nas suas obras. Segunda (5-7). Descreve as maravilhas operadas por Deus. Terceira. Glorifica o Senhor, que depois de ter provado o seu povo, lhe dá tranquilidade. Quarta (13-15). É o princípio da segunda parte, que é tôda pessoal. Promete pagar o voto que fêz na hora da angústia. Quinta (16-20). Narra ao povo os benefícios recebidos e o seu reconhecimento.

2dizei salmo ao seu nome: Dai a glória ao seu louvor.

3Dizei a Deus quão terríveis são, Senhor, as tuas obras! Por ocasião do teu grande poder se convencerão de mentira os teus inimigos.

4A terra tôda te adore, e te cante a ti salmo: Diga salmo ao teu nome.

5Vinde, e vêde as obras de Deus: Terrível nos conselhos sôbre os filhos dos homens.

6Êle tornou o mar em sêco, pelo rio passarão a pé enxuto: Ali nos alegraremos com êle.[2]Ali nos alegraremos com êleALI NOS ALEGRAREMOS COM ÊLE — Isto pode ser alusivo ao que se refere no livro 4 de Esdras, c. 13, que quando voltaram os prisioneiros se lhes abriu o Jordão, e o passaram a pé enxuto; e Isaías anuncia o mesmo, quando no c. 11, 15, diz: Passaram calçados pelo rio. E assim ibi laetabimur in ipso admite êstes dois sentidos. Ali, quando cheguemos ao Jordão nos alegraremos no mesmo Senhor, mostraremos o nosso regozijo, e exalçaremos as obras do seu poder, e com a memória do que sucedeu a nossos pais quando o passaram a pé enxuto, para entrar a primeira vez na Terra da Promissão, renovando o Senhor o mesmo prodígio, para que nós o passemos. Pode também interpretar-se: ibi laetabimur, por Laetati sumus in ipso. Naqueles sinalados prodígios, dos quais o primeiro foi o fim da escravidão do Egito, e o segundo a entrada da terra prometida. — P. Scio.

7Êle domina pelo seu poder para sempre, os olhos dêle estão olhando sôbre as gentes: Os que o irritam não se ensoberbeçam dentro de si mesmos.

8Bendizei, ó Gentes, o nosso Deus: E fazei que se ouça a voz do seu louvor.

9O qual tornou a minha alma em vida: E não permitiu que vacilassem os meus pés.[3]O qual tornou a minha almaO QUAL TORNOU A MINHA ALMA — A paráfrase caldaica diz: O que tornou a minha alma à vida do século futuro; o que se há de entender da Ressurreição de Jesus Cristo; e assim mesmo da nossa à vida eterna: havendo sido a de Jesus Cristo causa e modêlo da nossa. — 1 Cor 15. — P. Scio.

10Porquanto nos provaste, ó Deus: Com fogo nos afinaste, como se afina a prata.

11Puseste-nos em cadeias, carregaste tribulações sôbre nossas costas:

12Puseste homens sôbre as nossas cabeças.
Passamos pelo fogo e pela água: E nos tiraste para o lugar do refrigério.[4]Puseste homensPUSESTE HOMENS — Quer dizer: puseste-nos debaixo do jugo pesado de uns homens cruéis, que nos governavam como animais. O hebreu tem: Fizeste cavalgar homem sôbre a nossa cabeça, ou também fazendo-nos servir em lugar de animais, para puxar carros, e levar cargas. — P. Scio.

13Entrarei na tua casa com holocaustos: Pagar-te-ei os meus votos,

14que pronunciaram os meus lábios.
E proferiu a minha bôca na minha tribulação.

15Oferecer-te-ei holocaustos pingues com perfumes de carneiros: Oferecer-te-ei bois com cabritos.[5]Com perfumesCOM PERFUMES — Aquela parte dos sacrifícios pacíficos, que devia ser queimada, e resolver-se em fumo. Lev 3, 3. 9. 14.

16Vinde, ouvi todos os que temeis a Deus, e vos referirei quão grandes coisas tem feito à minha alma.

17A êle pela minha bôca clamei, e o exaltei com a minha língua.

18Se eu visse iniquidade pegada no meu coração, não me ouviria o Senhor.[6]Pegada no meu coraçãoPEGADA NO MEU CORAÇÃO — Pode ser o sentido se tivesse havido em mim hipocrisia, se os meus lábios não houvessem pronunciado o mesmo que eu tinha no meu coração, o Senhor me não ouviria. Santo Agostinho com os Setenta e muitos saltérios lêem: non exaudiat, não me ouça o senhor. — P. Scio.

19Por isso ouviu Deus, e atendeu à voz da minha deprecação.[7]Por isso ouviu DeusPOR ISSO OUVIU DEUS — Deus nos ouvirá sempre, se recorrermos a êle contritos, e arrependidos. — Pereira.

20Bendito Deus que não rejeitou a minha oração, nem apartou a sua misericórdia de mim.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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