Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 138

Salmo gratulatório e didático. Descreve-se a particular e admirável providência de Deus sôbre os justos: os ímpios perecerão.

1Ao regente do côro salmo de Davi.
Senhor, provaste-me, e conheceste-me:[1]Ao regente do côro salmo de DaviÊste belo salmo de Davi é uma bela instrução dogmática sôbre a natureza de Deus. Pode dividir-se em três partes. Primeira (1-12). Davi descreve a onisciência e imensidade de Deus, exercendo a sua onipotente ação sôbre todo o criado. Segunda (13-18). Louva o Senhor que dá a vida ao homem. Terceira (19-24). Insurge-se contra os inimigos de Deus, e pede ao Senhor que o purifique, e porque é onisciente conhece o servo bom e o mau. Tem quatro estrofes: as duas primeiras correspondem à 1.ª parte, a terceira à 2.ª e a quarta à 3.ª.

2Tu me conheceste ao assentar-me, e ao levantar-me.[2]E ao levantar-meÊste é um provérbio dos hebreus semelhante àquele outro: "Minhas entradas, e minhas saídas," para significar tôdas as ações da vida, todos os movimentos, afetos, desejos e pensamentos do homem.

3De longe entendeste os meus pensamentos: Observaste a minha vereda, e o curso da minha vida.[3]Curso da minha vidaSeguiremos neste versículo, difícil de interpretar, como diz Boulleret, ob. cit., a tradução de Glaire. É certo que ao têrmo hebraico que a Vulgata traduziu por funiculum, melhor corresponde accubitum. O sentido que mais satisfaz é, sem dúvida, o apresentado por Boulleret: Conheces de longe os meus pensamentos, investigas os meus caminhos e o meu fim. Cognoscis cogitationes meas de longe / Semitas meas et terminum meum investigas. Ob. cit.

4E previste todos os meus caminhos: Ainda quando não está a palavra na minha língua.

5Eis-aqui, Senhor, tu conheceste tôdas as coisas, as novíssimas, e as antigas: Tu me formaste, e puseste sôbre mim a tua mão.

6Maravilhosa se tem feito a tua ciência em mim, sublime é, e não poderei lá chegar.

7Como me irei do teu Espírito? e para onde fugirei da tua presença?

8Se subir ao céu, tu ali te achas: Se descer ao inferno, presente nêle estás.

9Se eu tomar as minhas asas ao romper da alva, e fôr habitar nas extremidades do mar:[4]Se eu tomar as minhas asasO hebreu diz: "Se tomar as asas da alva, e habitar as extremidades do mar," ou do Ocidente, porque o Mediterrâneo era ocidental a respeito da Palestina. A Alva, ou Aurora se toma pelo lugar onde nasce o Sol, isto é, pelo mesmo Oriente. Se eu correr com tanta presteza como os raios do sol, desde o Oriente ao Poente, etc. — P. Scio.

10Ainda lá me guiará a tua mão: E me susterá a tua direita.

11E disse: Talvez me ocultarão as trevas: Mas a noite se converte em claridade para me descobrir entregue às minhas delícias.

12Porque as trevas não serão escuras para ti, e a noite será iluminada como o dia: Como as trevas daquela, assim são também a luz dêste.

13Porque tu possuíste os meus afetos: Recebeste-me desde o ventre de minha mãe.

14Eu te glorificarei, porque assombrosamente tens sido engrandecido: Maravilhosas são as tuas obras, e a minha alma o conhece muito.

15Nenhum dos meus ossos que formaste em segrêdo, te é a ti oculto: Nem a minha substância nas entranhas da terra.

16Os teus olhos me viram, quando era informe, e no teu livro todos serão escritos: Os dias serão formados, e ninguém nêles.[5]Os teus olhos me viram, quandoO hebreu diz: "A minha imperfeição," a matéria de que foi formado o meu corpo, antes que tivesse forma de homem, "viram os teus olhos: e no teu Livro estavam escritas tôdas aquelas coisas que foram então formadas, sem faltar uma delas." Ou também: "E tôdas estas coisas estavam escritas, e delineadas no teu Livro ao tempo que se formavam, quando nem uma delas era ainda." Quem sabe o que será no mundo aquela massa informe, e indigesta. É uma estátua imperfeita; não se sabe se representará a Pedro, ou a Paulo, e Deus entretanto o sabe, e nota no seu Livro. Savério Mattei e P. Scio.

17Mas para mim têm sido singularmente honrados os teus amigos, ó Deus: Muito se tem fortificado o principado dêles.

18Contá-los-ei, e mais que a areia se multiplicarão: Despertei, e ainda estou contigo.[6]E ainda estou contigoPrometeste a Abraão e a Jacó que multiplicarias a sua posteridade como as areias da ribeira do mar, que pela sua imensidade se não podem reduzir a número: quis pôr-me com muito vagar a contar a larga série de seus descendentes, mas tive que deixá-lo, oprimido do seu cálculo que não alcanço. Isto convém pròpriamente à Igreja: os seus Apóstolos foram singularmente honrados, e os seus discípulos se multiplicaram mais que as areias do mar. A Igreja aplica isto a Cristo na sua Ressurreição. — P. Scio.

19Se matares, ó Deus, os pecadores: Homens sangüinários, retirai-vos de mim:[7]Se mataresE haverá todavia ímpios que duvidem, Senhor, da tua adorável Providência? Se os há, Deus meu, toma por tua conta destruí-los a todos e exterminá-los. Fugi de mim, homens cruéis e sangüinários, que não vos quero sofrer na minha presença. — Pereira.

20Porque dizeis no vosso pensamento: Tomarão em vão as tuas cidades.[8]Tomarão em vãoQuer dizer: Em vão darás a êste teu povo a posse das tuas cidades, pouco durarão nela, porque depressa acabaremos com êles todos, e os exterminaremos da terra. — P. Scio.

21Porventura não aborrecia eu, Senhor, aos que te aborreceram: E não me consumia por causa dos teus inimigos?

22Com ódio consumado eu os aborrecia: E êles se tornaram meus inimigos.[9]E êles se tornaram meus inimigosO que se deve entender não por ódio, ou efeito de má vontade, ou desejo de vingança, senão por um ardente zêlo da glória de Deus. Santo Agostinho explica isto admiràvelmente, dizendo: "Êste é o ódio perfeito, que nem por causa dos vícios se aborreçam os homens, nem por causa dos homens se amem os vícios." — Pereira.

23Prova-me, ó Deus, e sonda o meu coração: Pergunta-me, e conhece as minhas veredas.

24E vê, se há em mim caminho de iniqüidade: E conduze-me pelo caminho da eternidade.[10]E conduze-meO caminho eterno é o da caridade, como comumente se expõe, e o que anda por êle não perecerá jamais, pelo contrário o que vai pelo caminho dos ímpios: porém pode ser também uma conclusão da imprecação do juramento, e via eterna, ou via aeternitatis em idiotismo hebreu significa a morte. É difícil de entender muitas expressões dêste salmo, se se não tomarem em sentido profético, aplicando-as à Ressurreição de Jesus Cristo, que é o seu objeto principal, como o explicaram os Santos Padres, com a tradição da Igreja. — P. Scio.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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