Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 46

Neste salmo profético, debaixo da figura da entrada da arca em Sião, se descreve o reino espiritual de Jesus Cristo na sua Ascensão aos Céus: e juntamente se contém uma clara profecia da vocação dos gentios.

1Ao regente do côro. Dos filhos de Coré. Salmo.[1]SalmoMuitos críticos consideram êste salmo um cântico de vitória, entoado depois da condução da arca para o monte Sião. A tradição eclesiástica aplicou-o geralmente à Ascensão de Nosso Senhor. Tem 5 estrofes: Primeira (2-3): Saudação a Deus. Segunda (4-5): Porque submete os povos ao domínio de Jacó. Terceira (6-7): Grandeza de Deus, dever de exaltar a sua glória. Quarta (8-9): porque é rei de tôda a terra. Quinta: E tudo lhe pertence.

2Tôdas as gentes aplaudi com as mãos: Celebrai a Deus com vozes de regozijo.[2]Tôdas as gentesO profeta convida todos os povos da terra a manifestar o seu reconhecimento, publicando a grandeza, e as vitórias de Jesus Cristo. Ou talvez a mesma Igreja convida a tôdas as nações a cantar a glória do Onipotente, que havia feito grandes prodígios a seu favor. Tôdas estas expressões são figuradas, e sòmente significam o excesso de alegria, que deviam mostrar no triunfo glorioso de Jesus Cristo: Em cuja celebridade procedam acordes, diz Santo Agostinho, as mãos, e a língua: Esta confesse, e obrem aquelas. — P. Scio.

3Porque o Senhor é excelso, terrível: Rei grande sôbre tôda a terra.

4Submeteu-nos os povos a nós, e as gentes debaixo de nossos pés.

5Escolheu para nós a sua herança: A formosura de Jacó, à qual amou.[3]Escolheu para nósO hebreu tem: "Êle nos escolherá a nossa herança: A formosura de Jacó, a qual amou: Êle nos deu uma excelente herança, escolhida sôbre tôdas as outras, na qual está tôda a nossa glória. O que literalmente pertencia à terra da promissão, e nela a cidade de Jerusalém, que formava tôda a glória do povo de Israel, e que distinguiu o Senhor com particulares demonstrações do seu amor e proteção.

6Subiu Deus com júbilo: E o Senhor com voz de trombeta.[4]Com voz de trombetaIsto à letra pode entender-se da Arca do testamento, trasladada, com grande pompa, e festa, ou por Davi à sua cidade, 2 Rs 6, 12, ou por Salomão ao Templo, 3 Rs 8, 4. Mas no sentido profético, que é o principal, se refere em doutrina dos Santos Padres à Ascensão de Jesus Cristo, como no Sl 67, 25.26, o qual por sua própria virtude subiu aos Céus. — Pereira.

7Cantai salmos ao nosso Deus, cantai salmos: Cantai salmos ao nosso Rei, cantai salmos.

8Porque Deus é o Rei de tôda a terra: Cantai salmos sàbiamente.

9Deus reinará sôbre as nações: Deus está sentado sôbre o seu santo trono.

10Os príncipes dos povos se reuniram com o Deus de Abraão: Porque os deuses fortes da terra têm sido grandemente exaltados.[5]Os príncipes dos povos se reuniram / Os deuses fortes da terraO hebreu tem: "Os príncipes dos povos se agregaram ao povo do Deus de Abraão": isto é, de todos os povos se formou um só, do qual se compõe a Igreja de Jesus Cristo. É uma profecia da vocação dos gentios. — Bossuet. — Os deuses fortes da terra: Por êstes se entendem comumente os mesmos príncipes que têm domínio na terra, e que, agregando-se à Igreja de Cristo, e chegando a ser membros do corpo dêle, foram elevados à dignidade de filhos de Deus. Outros por "deuses fortes" entendem os apóstolos. — Calmet. — Grandemente exaltados: O hebreu oferece outro sentido: "Porque de Deus são os escudos da terra" quer dizer: Deus é o protetor, e governador de todo o mundo: "êle é muito exaltado e por isso é justo que todos o reconheçam, e o sirvam como a um só Deus, e rei imortal. — P. Scio.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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