Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 60

Salmo deprecatório e profético, em que Davi implora o auxílio do Senhor, e suspira pelo tabernáculo do seu Deus: anunciando o reino eterno do Messias.

Ao regente do côro. Com acompanhamento de instrumentos de corda.

1De Davi.[1]DE DAVIÊste salmo foi composto durante a revolta de Absalão quando Davi fugia para Maanaim, perto de Galaad. Tem três estrofes de seis versos. Primeira (2-4). Davi fugindo pede a Deus que o guarde e conduza. Segunda (4-6). Deus é a sua fôrça; deseja pois habitar sempre junto do Tabernáculo. Terceira (7-9). Que Deus dê longos dias ao rei, que o guarde, e êste lhe agradecerá celebrando o seu Santo nome.

2Ouve, Deus meu, a minha deprecação: Atende à minha oração.

3Desde os fins da terra a ti clamei: Quando estava angustiado o meu coração, na pedra me colocaste. Guiaste-me,[2]DESDE OS FINS DA TERRAIsto mostra que Davi compôs êste salmo, quando fugiu de Absalão, para os confins do reino de Israel, 2 Rs 18, 22, ainda que o atribuem indeterminadamente ao tempo em que vivia longe de Jerusalém, e do tabernáculo, sofrendo a violenta perseguição de Saul. Sl 41, 8. Em outro sentido se dá a entender que a Igreja se estenderia até às extremidades da terra, e que em todo o lugar seria adorado, e invocado o seu Deus. — P. Scio.

4porque te fizeste a minha esperança: Tôrre da fortaleza diante do inimigo.

5Habitarei no teu tabernáculo pelos séculos: Abrigar-me-ei à sombra das tuas asas.

6Porque tu, Deus meu, ouviste a minha oração: Deste herança aos que temem o teu nome.

7Acrescentarás dias aos dias do rei: Os seus anos durarão até o dia de uma e de outra geração.[3]ATÉ AO DIAFazendo que viva, e reine sob a proteção da tua graça, e constante amor todo o tempo que tiveres determinado: e que o reino da tua Igreja seja eterno no Messias, que há de nascer da minha descendência. Estas palavras de consentimento unânime de todos os padres, e ainda dos rabinos antigos, não tiveram o seu perfeito cumprimento, nem se verificaram senão só na pessoa de Jesus Cristo, cujo reino não tem fim, e o seu dia é o da nova geração, porque somos "reproduzidos nêle" para uma vida que nunca se há de acabar. — P. Scio.

8Êle permanece eternamente na presença de Deus: A misericórdia e a verdade dêle quem a sondará?

9Assim cantarei eu salmo ao teu nome pelo século do século: Para cumprir os meus votos cada dia.[4]PELO SÉCULO DO SÉCULOO reino em Davi era temporal, em Cristo não tem fim. Esta misericórdia, e esta verdade serão para mim digno argumento de eternos hinos e louvores. — P. Scio.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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