Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 102

Salmo de ação de graças pela remissão dos pecados: e convida a todos os anjos e criaturas a louvar ao Senhor.

1Do mesmo Davi.
Bendiz, ó alma minha, ao Senhor: E tôdas as coisas que há dentro de mim bendigam ao seu santo Nome.[1]Êste salmoÊste salmo é o cântico das misericórdias do Senhor, e um dos mais belos de tôda a coleção. Dêle escreve La Harpe: Elles (les miséricordes du Seigneur) n'ont jamais été célébrées d'un ton plus sublime, et jamais le sublime n'a été plus touchant. Tem cinco estrofes. Primeira (1-5). Exorta-nos o salmista a que louvemos a Deus, agradecendo todos os benefícios que a sua Infinita Bondade nos liberaliza. Segunda (6-9). Porque cuidou sempre dos oprimidos, como fêz aos hebreus nos dias de Moisés. Terceira (10-14). Por causa do perdão que concede aos pecadores. Quarta (15-18). Por causa da sua bondade que vem de geração em geração e que não pára, como a vida do homem. Quinta (19-22). Que o Céu e a terra louvem ao Senhor.

2Bendiz, ó alma minha, ao Senhor: E não queiras esquecer-te de todos os seus benefícios.

3O que perdoa tôdas as tuas maldades: O que sara tôdas as tuas enfermidades.

4O que redime da morte a tua vida: O que te coroa da sua misericórdia, e das suas graças.

5O que enche de bens o teu desejo: Renovar-se-á como a da águia a tua mocidade.[2]Como a da águiaCOMO A DA ÁGUIA — A águia, como as demais aves, despe-se anualmente da sua plumagem, aparecendo depois da muda mais remoçada. O salmista escolheu a águia para têrmo de comparação, por ser a rainha das aves, pela sua fôrça e vivacidade.

6O Senhor que faz misericórdias: E justiça a todos os que sofrem agravos.

7Fêz conhecer a Moisés os seus caminhos, aos filhos de Israel as suas vontades.[3]Fêz conhecer a MoisésFÊZ CONHECER A MOISÉS — Quando lhe mandou que fôsse apresentar-se a Faraó, para que deixasse sair o seu povo, e passar ao deserto. — P. Seio. AS SUAS VONTADES — Nas duas tábuas da sua Santíssima lei, que deu a Moisés, para que a intimasse ao povo de Israel. — P. Seio.

8É benigno, e misericordioso o Senhor: Magnânimo e de muita misericórdia.

9Não estará irado para sempre: Nem ameaçará eternamente.

10Não nos há tratado a nós segundo os nossos pecados: Nem nos tem pago segundo as nossas maldades.

11Pois quanto a elevação do céu está remontada sôbre a terra: Tanto êle tem firmado a sua misericórdia sôbre os que o temem.

12Quanto dista o Oriente do Ocidente: Tanto êle tem apartado de nós as nossas maldades.

13Como o pai se compadece dos filhos, assim se tem compadecido o Senhor dos que o temem:

14Porque êle já tem conhecido a fragilidade da nossa origem.
Lembrou-se que somos pó:

15O homem, cujos dias são como feno, assim se murchará como a flor do campo.

16Porque o espírito estará nêle de passagem, e êle não subsistirá: E não conhecerá dali em diante o seu lugar.

17Mas a misericórdia do Senhor está desde a eternidade e até à eternidade sôbre os que temem.
E a sua justiça sôbre os filhos dos filhos,

18para com aquêles que guardam a sua aliança:
E se lembram dos seus mandamentos, para observá-los.

19O Senhor tem prevenido no céu o seu trono: E o seu reino dominará sôbre todos.

20Bendizei ao Senhor todos os anjos dêle: Poderosos em virtude, que sois executores da sua palavra, para obedecer à voz das suas ordens.

21Bendizei ao Senhor tôdas as virtudes dêle: Vós, ministros seus, que fazeis a sua vontade;

22Bendizei ao Senhor tôdas as suas obras: Em todo o lugar do seu senhorio, bendiz, ó alma minha, ao Senhor.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
📄 PDF
📄 Original