Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 70

Salmo deprecatório. Davi roga ao Senhor que lhe continue a sua proteção até os últimos anos da sua vida.

Salmo de Davi.

1Dos filhos de Jonadab, e dos primeiros cativos.
Em ti, Senhor, tenho esperado, não seja eu jamais confundido:[1]Dos filhosDOS FILHOS — Êste salmo não tem título no hebreu. O título da Vulgata significa provàvelmente que êste salmo era muitas vêzes cantado pelos recabitas (Jer 35) e pelos primeiros cativos. Neste salmo encontram-se muitas repetições de alguns anteriores. Tem oito estrofes.

2Na tua justiça livra-me, e põe-me a salvo.
Inclina para mim o teu ouvido, e salva-me.

3Sejas para mim um Deus protetor, e um asilo seguro: Para me fazer salvo.
Porquanto a minha firmeza, e o meu refúgio és tu.

4Deus meu, livra-me da mão do pecador e da mão do que procede contra a lei, e do iníquo:[2]E do iníquoE DO INÍQUO — Isto pode entender-se de Absalão, ou, pôsto o singular pelo plural, de todos os que seguiam o seu partido, e se haviam declarado contra Davi: e o mesmo aplicando-se aos inimigos de Cristo. — Pereira.

5Porque tu, Senhor, és a minha paciência. Senhor, tu és a minha esperança desde a minha mocidade.[3]És a minha paciênciaÉS A MINHA PACIÊNCIA — Isto quer dizer que é de vós que vem a minha paciência, cfr. Sl 61, 6.

6Em ti tenho sido confirmado desde antes de nascer: Desde o ventre de minha mãe tu és o meu protetor.
Tu fôste sempre o assunto dos meus cânticos;

7como portento tenho sido para muitos: E tu favorecedor forte.

8Encha-se a minha bôca de louvor, para cantar a tua glória: Todo o dia para celebrar a tua grandeza.

9Não me desampares no tempo da velhice: Quando faltar a minha fortaleza, não me desampares.

10Porque os meus inimigos falaram contra mim: E os que insidiavam a minha alma, tiveram juntos conselho,

11dizendo: Deus o desamparou, persegui-o, e prendei-o: Porque não há quem o livre.

12Ó Deus, não te apartes de mim: Deus meu, volta os teus olhos em meu socorro.

13Confundidos sejam, e pereçam os que maldizem a minha alma: Cobertos sejam de confusão e de vergonha os que me procuram males.

14Mas eu sempre esperarei: E acrescentarei louvor sôbre o teu louvor.

15A minha bôca anunciará a tua salvação.
Porque não conheci a ciência vã;[4]A ciência vãA CIÊNCIA VÃ — A falsa sabedoria, e a astúcia, de que estava possuído Aquitofel, conselheiro de Davi, que seguiu o partido de Absalão.

16me internarei nas obras do poder do Senhor: Senhor, farei memória só da tua justiça.[5]Me internareiME INTERNAREI — Isto é, refletirei no poder infinito do Senhor.

17Ensinaste-me, ó Deus, desde a minha mocidade: E eu publicarei as tuas maravilhas, que tenho experimentado até agora.

18E até à velhice e idade avançada: Ó Deus, não me desampares,
até que anuncie a fôrça do teu braço a tôda a geração que há de vir:
O teu poder,

19e a tua justiça, ó Deus, até no mais alto, as maravilhas que fizeste: Ó Deus, quem é semelhante a ti?[6]No mais altoNO MAIS ALTO — No original hebraico está o têrmo marem que significa altum, excelsum, e em particular collum, o céu. Cfr. Leopoldo ob. cit.

20Quantas tribulações me tens feito provar a mim, muitas e penosas: E voltado a mim, me tens dado vida, e dos abismos da terra outra vez me tens tirado:

21Tens multiplicado a tua magnificência: E voltando-te a mim me tens consolado.

22Porque eu também te louvarei com instrumentos de salmo pela tua verdade: Ó Deus, eu te direi salmo ao som da cítara, Santo de Israel.[7]Com instrumentos de salmoCOM INSTRUMENTOS DE SALMO — Com instrumentos músicos, com os quais se acompanhavam os salmos.

23Regozijar-se-ão os meus lábios quando cantar os teus louvores: E a minha alma, que redimiste se alegrará.

24E também a minha língua meditará todo o dia a tua justiça: Quando fôrem confundidos, e envergonhados os que me solicitam males.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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