Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 111

Feliz o homem que teme verdadeiramente a Deus, ainda que seja aborrecido dos ímpios.

Aleluia, na volta de Ageu, e de Zacarias.[1]Na volta de Ageu e de ZacariasNA VOLTA DE AGEU E DE ZACARIAS — O hebreu e os Setenta não trazem título dêste salmo, senão o Aleluia. O mais que se acrescenta é próprio do autor da Vulgata, ou de outro mais antigo, que com esta adição quis significar, ou que Ageu e Zacarias se serviram dêste salmo, repetindo-o na retirada que o povo fêz de Babilónia para Jerusalém, ou que êle fôra então composto em ação de graças a Deus pela restituição daqueles dois santos profetas. S. João Crisóstomo considera êste salmo como continuação do anterior.

1Bem-aventurado o varão, que teme ao Senhor:
Nos seus mandamentos se comprazerá muito.[2]Se comprazerá muitoSE COMPRAZERÁ MUITO — Terá uma ardente vontade e desejo de cumprir perfeitamente os divinos mandamentos.

2Poderosa será a sua posteridade sôbre a terra:
Bendita será a geração dos justos.

3Há glória, e riquezas na sua casa:
E a justiça dêle permanece por todos os séculos.

4Nas trevas nasceu a luz aos retos:
Misericordioso é, e compassivo, e justo.[3]Nasceu a luz aos retosNASCEU A LUZ AOS RETOS — A luz da sua consolação e proteção, Cristo Senhor nosso, que disse de si: "Eu sou a luz do mundo". — Pereira.

5Ditoso o homem que se compadece e empresta, êle disporá os seus discursos com juízo.

6Porque nunca jamais será comovido.

7A memória do justo será eterna:
Não temerá ouvir palavra má.
O seu coração está sempre aparelhado para esperar no Senhor,[4]Não temerá ouvir palavra máNÃO TEMERÁ OUVIR PALAVRA MÁ — Por esta palavra má entendem S. Jerônimo e Santo Agostinho aquela terrível sentença no dia último: "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno". E esta mesma interpretação adotou dêles o nosso S. Julião, arcebispo de Toledo, no seu Prognóstico do século futuro. — Pereira.

8fortalecido está o seu coração:
Não será comovido até que veja abatidos a seus inimigos.

9Distribuiu, deu aos pobres:
A sua justiça permanece por todos os séculos, o seu poder será exaltado na glória.

10Vê-lo-á o pecador, e se indignará, rangerá com os dentes e se consumirá; o desejo dos pecadores perecerá.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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