Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 7

Salmo didático. Davi patenteando ao Senhor as injúrias que recebe de seus perseguidores, lhe pede o seu socorro, e anuncia a sua ruína: com o que se prepara para mostrar o seu agradecimento, e cantar-lhe os devidos louvores.

1Salmo de Davi, que cantou ao Senhor, por causa das palavras de Cus o benjamita (2 Rs, 16.)[1]Salmo / Cus o benjamitaAssim traduziu a Vulgata o têrmo hebraico Schuiggyôn, o qual é diferente do mizmor — psalmus. Não se conhece perfeitamente a significação dêste têrmo, que parece designar uma ode irregular e ditirâmbica, em que o autor, arrastado pelo entusiasmo, não se prendeu com a ligação das idéias, nem com a uniformidade do ritmo. Cantio erratica lhe chamaram. CUS O BENJAMITA — Cus equivale a etiópico. É desconhecido o personagem da tribo de Benjamim, a quem se refere o salmista, divergindo os antigos e modernos intérpretes. Mathei suspeita que fôsse algum cantor, mas sem razão: outros entendem que fôsse Semei; outros alguns dos partidários de Saul, que, como Doeg e os Zifeus, aproveitassem a ausência de Davi caluniando-o, e excitassem contra êle a cólera do rei. Ainda que os livros históricos não determinem êste personagem, os pormenores do 1 dos Rs esclarecem muitas passagens dêste salmo. Davi, e êste é o objeto do Salmo, pede a Deus que vingue as injúrias do mau. Tem seis estrofes de número variado de versos. A primeira (2-3) é uma invocação a Deus para que o salve dos seus inimigos. A segunda (4-6) é um protesto, sob a forma duma imprecação, contra a falsa acusação que lhe imputa Cus. Terceira (7-9) Que Deus o julgue e lhe faça justiça. Quarta (10-11) Que Deus, seu socorro e salvador, ponha fim à injustiça. Quinta (12-14) Deus é justo, e castiga o pecador, que não pode subtrair-se aos rigores dos seus juízos. Sexta (15-18) O pecador tem a sorte que merece; cai no abismo que cavou. Deus louvado.

2Senhor, Deus meu, em ti esperei: Salva-me de todos os que me perseguem, e livra-me.

3Para que como leão não arrebate ultimamente a minha alma, quando não haja quem me livre, nem quem me reduza a pó e me salve.

4Senhor Deus meu, se eu fiz isso, se há iniquidade nas minhas mãos:[2]Se eu fiz issoIsto que Saul suspeita de mim, que é que eu lhe procuro fazer mal. A qual suspeita o mesmo Davi remove de si. 1 Rs 24, 10-12. — Bossuet.

5Se paguei mal aos que mo faziam, caia eu com razão debaixo dos meus inimigos sem esperança.

6Persiga o inimigo a minha alma, e apodere-se dela, e pise juntamente com a terra a minha vida, e reduza minha glória.

7Levanta-te, Senhor, na tua ira: Mostra a tua grandeza no meio dos meus inimigos. E levanta-te, Senhor, Deus meu, segundo o preceito que tu ordenaste:[3]Segundo o preceito, etc.Segundo o decreto que tu ordenaste para que eu fôsse rei de todo o Israel. Vatablo. Ou também: esta oração de Davi nos representa a Ressurreição e triunfo de Jesus Cristo. Levanta-te, segundo o eterno decreto com que estabeleceste ressuscitar ao Filho, depois de morrer pela salvação de todos os homens. — Scio.

8E a multidão dos povos se unirá em roda de ti. E por amor desta remonta-te ao alto:

9O Senhor julga os povos. Julga-me, Senhor, segundo a minha justiça, e segundo a inocência que há em mim.

10Será consumida a malícia dos pecadores, e caminharás ao justo, ó Deus, que sondas os corações e as entranhas.[4]E as entranhasÀ letra: os 'rins' ou já sejam os afetos e os movimentos da vontade. — Pereira.

11Justo é o meu auxílio que vem do Senhor, o qual salva os retos de coração.

12Deus, Juiz justo, forte, e paciente: Ira-se acaso todos os dias?

13Se vós vos não converterdes, vibrará a sua espada: Armou o seu arco, e o tem pronto.

14Já pôs nêle os instrumentos da morte; já preparou as suas setas ardentes.[5]As suas setas ardentesQuer dizer: os seus juízos.

15Olha como êle causou a injustiça: Concebeu dor. e produziu a iniquidade.

16O fôsso abriu, e o cavou: Mas precipitou-se na cova por si aberta.

17A sua dor se voltará contra a sua cabeça: E sôbre a sua fronte recairá a sua iniquidade.

18Glorificarei ao Senhor seguindo a sua justiça: E exaltarei o seu nome Santo, sôbre as altas nuvens, até ao Céu.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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