Capítulo 7
1Salmo de Davi, que cantou ao Senhor, por causa das palavras de Cus o benjamita (2 Rs, 16.)[1]Salmo / Cus o benjamita — Assim traduziu a Vulgata o têrmo hebraico Schuiggyôn, o qual é diferente do mizmor — psalmus. Não se conhece perfeitamente a significação dêste têrmo, que parece designar uma ode irregular e ditirâmbica, em que o autor, arrastado pelo entusiasmo, não se prendeu com a ligação das idéias, nem com a uniformidade do ritmo. Cantio erratica lhe chamaram. CUS O BENJAMITA — Cus equivale a etiópico. É desconhecido o personagem da tribo de Benjamim, a quem se refere o salmista, divergindo os antigos e modernos intérpretes. Mathei suspeita que fôsse algum cantor, mas sem razão: outros entendem que fôsse Semei; outros alguns dos partidários de Saul, que, como Doeg e os Zifeus, aproveitassem a ausência de Davi caluniando-o, e excitassem contra êle a cólera do rei. Ainda que os livros históricos não determinem êste personagem, os pormenores do 1 dos Rs esclarecem muitas passagens dêste salmo. Davi, e êste é o objeto do Salmo, pede a Deus que vingue as injúrias do mau. Tem seis estrofes de número variado de versos. A primeira (2-3) é uma invocação a Deus para que o salve dos seus inimigos. A segunda (4-6) é um protesto, sob a forma duma imprecação, contra a falsa acusação que lhe imputa Cus. Terceira (7-9) Que Deus o julgue e lhe faça justiça. Quarta (10-11) Que Deus, seu socorro e salvador, ponha fim à injustiça. Quinta (12-14) Deus é justo, e castiga o pecador, que não pode subtrair-se aos rigores dos seus juízos. Sexta (15-18) O pecador tem a sorte que merece; cai no abismo que cavou. Deus louvado.
2Senhor, Deus meu, em ti esperei: Salva-me de todos os que me perseguem, e livra-me.
3Para que como leão não arrebate ultimamente a minha alma, quando não haja quem me livre, nem quem me reduza a pó e me salve.
4Senhor Deus meu, se eu fiz isso, se há iniquidade nas minhas mãos:[2]Se eu fiz isso — Isto que Saul suspeita de mim, que é que eu lhe procuro fazer mal. A qual suspeita o mesmo Davi remove de si. 1 Rs 24, 10-12. — Bossuet.
5Se paguei mal aos que mo faziam, caia eu com razão debaixo dos meus inimigos sem esperança.
6Persiga o inimigo a minha alma, e apodere-se dela, e pise juntamente com a terra a minha vida, e reduza minha glória.
7Levanta-te, Senhor, na tua ira: Mostra a tua grandeza no meio dos meus inimigos. E levanta-te, Senhor, Deus meu, segundo o preceito que tu ordenaste:[3]Segundo o preceito, etc. — Segundo o decreto que tu ordenaste para que eu fôsse rei de todo o Israel. Vatablo. Ou também: esta oração de Davi nos representa a Ressurreição e triunfo de Jesus Cristo. Levanta-te, segundo o eterno decreto com que estabeleceste ressuscitar ao Filho, depois de morrer pela salvação de todos os homens. — Scio.
8E a multidão dos povos se unirá em roda de ti. E por amor desta remonta-te ao alto:
9O Senhor julga os povos. Julga-me, Senhor, segundo a minha justiça, e segundo a inocência que há em mim.
10Será consumida a malícia dos pecadores, e caminharás ao justo, ó Deus, que sondas os corações e as entranhas.[4]E as entranhas — À letra: os 'rins' ou já sejam os afetos e os movimentos da vontade. — Pereira.
11Justo é o meu auxílio que vem do Senhor, o qual salva os retos de coração.
12Deus, Juiz justo, forte, e paciente: Ira-se acaso todos os dias?
13Se vós vos não converterdes, vibrará a sua espada: Armou o seu arco, e o tem pronto.
14Já pôs nêle os instrumentos da morte; já preparou as suas setas ardentes.[5]As suas setas ardentes — Quer dizer: os seus juízos.
15Olha como êle causou a injustiça: Concebeu dor. e produziu a iniquidade.
16O fôsso abriu, e o cavou: Mas precipitou-se na cova por si aberta.
17A sua dor se voltará contra a sua cabeça: E sôbre a sua fronte recairá a sua iniquidade.
18Glorificarei ao Senhor seguindo a sua justiça: E exaltarei o seu nome Santo, sôbre as altas nuvens, até ao Céu.