Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 49

Salmo didático. O salmista anuncia a vinda do Senhor: mostra a insuficiência dos sacrifícios da lei antiga: e repreende aos ímpios as suas prevaricações.

1Salmo de Asaf. O Deus dos Deuses, o Senhor falou: E convocou a terra. Desde o oriente do sol até ao seu ocaso:[1]Salmo de AsafÊste salmo é destinado a inculcar a inutilidade dum culto puramente exterior. Tem três estrofes. Primeira (1-6) Descrição da aparição de Deus que vai falar. Segunda (7-15) Discurso de Deus aos fiéis, a quem recomenda que deseja um sacrifício que traduza a adoração do coração. Terceira (16-23) Discurso aos judeus pecadores, que esperam obter o perdão das suas culpas só pela oblação dos sacrifícios: Deus só perdoa aos que se arrependem.

2De Sião é que vem o resplendor da sua formosura.

3Deus virá manifestamente: Deus nosso, e não guardará silêncio. Fogo se incenderá na sua presença: E em roda dêle tempestade forte.[2]Deus virá manifestamente / Fogo se incenderáCheio de majestade, e de glória, e não como na sua primeira vinda, em traje humilde, e conhecido de mui poucos. — Calmet. — Fogo se incenderá: Um fogo abrasador precederá a sua vinda, que reduzirá tudo a cinza; e ao redor espantosas tempestades, que porão em consternação ao mundo. — P. Scio.

4Chamará de cima ao céu: E a terra para julgar ao seu povo.

5Congregai junto dêle os seus santos: Que compõem aliança com êle sôbre sacrifícios.[3]Que compõem aliançaO hebreu diz: "Que têm feito comigo ato com sacrifício." S. Jerônimo diz: Qui feriunt pactum meum. A nova aliança foi selada com o sangue do cordeiro. — P. Scio.

6E anunciaram os céus a justiça dêle: Porquanto Deus é o juiz.

7Ouve, povo meu, e eu falarei: Ouve, Israel, e testificarei contra ti: Deus, o teu Deus sou eu.[4]Ouve, povo meuAqui principia a falar o juiz até o fim do salmo. — Pereira.

8Não te arguirei sôbre os teus sacrifícios: Porque os teus holocaustos estão sempre adiante de mim.

9Não receberei de tua casa bezerros: Nem cabritos dos teus rebanhos.

10Porque minhas são tôdas as feras das selvas, os animais nos montes e bois.

11Conheço tôdas as aves do céu: E a formosura do campo comigo está.

12Se tiver fome não to direi a ti: Porque minha é a redondeza da terra, e a sua plenidão.

13Porventura comerei carnes de touros? ou beberei sangue de cabritos?

14Oferece a Deus sacrifício de louvor: E paga ao Altíssimo os teus votos.

15E invoca-me no dia da tribulação: Livrar-te-ei, e honrar-me-ás.

16Mas ao pecador disse Deus: Por que falas tu dos meus mandamentos, e tomas o meu testamento na tua bôca?

17Pôsto que tu tens aborrecido a disciplina: E postergaste as minhas palavras.

18Se vias um ladrão, corrias com êle: E com os adúlteros fazias sociedade.

19A tua bôca abundou de malícia: E a tua língua urdia enganos.

20Estando sentado falavas contra teu irmão, e punhas tropeço contra o filho da tua mãe:

21Isto fizeste, e eu me calei. Creste a iniquidade, que serei tal como tu: Argüir-te-ei, e to porei diante da tua cara.[5]Creste a iniquidadeAlguns o traduzem como advérbio: existimasti inique, cresce nèsciamente; e é mais conforme aos Setenta, onde se lê: extimuisti iniquitatem: e o hebreu: Creste que certamente seria eu semelhante a ti. — Pereira.

22Entendei isto os que vos esqueceis de Deus: Não suceda que vos arrebate, e não haja quem vos livre.

23Sacrifício de louvor me honrará: E ali o caminho, por onde lhe mostrarei a salvação de Deus.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
📄 PDF
📄 Original