Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 32

Exorta Davi aos fiéis a que louvem o Senhor, por causa das obras do seu poder, e da fidelidade das suas promessas, e da particular Providência com que governa e atende pela sua Igreja: tendo sempre presente a ruína, e extermínio dos ímpios.

Salmo de Davi.[1]Salmo de DaviSALMO DE DAVI — Êste título não aparece no hebreu. Êste Salmo foi composto quando Israel foi livre do jugo estrangeiro. O paralelismo sinonímico é mantido em todo o poema. Tem dez estrofes.

1Exultai, ó justos, no Senhor: Aos retos convém que o louvem.[2]Aos retos convém que o louvemAOS RETOS CONVÉM QUE O LOUVEM — No que não devem ter parte os hipócritas, e ímpios, que profanam o Nome de Deus, se estando longe dêle o seu coração o pronunciam com a bôca. Vejam-se sôbre isto o Sl 108, 7. Prov 28, 9. Zac 11, 5. — P. Scio.

2Louvai ao Senhor com a cítara: Cantai-lhe hinos a êle com o saltério de dez cordas.

3Cantai-lhe a êle um novo cântico: Celebrai-o com concêrto de instrumentos e de vozes.

4Porque a palavra do Senhor é reta, e a sua fidelidade resplandece em tôdas as suas obras.

5Êle ama a misericórdia e a justiça: Da misericórdia do Senhor está cheia tôda a terra.

6Pela palavra do Senhor se firmaram os céus: E pelo Espírito da sua bôca tôda a sua virtude.[3]Pela palavra do SenhorPELA PALAVRA DO SENHOR — Pela manifestação da sua vontade e eficaz Decreto: ou pela sua palavra subsistente, que é a Pessoa do Verbo, pelo Espírito da sua bôca, que é a terceira pessoa da Trindade, inseparável das duas, assim na essência, como nas operações. Gên 1, 2. 26, Jó 28, 4. Neste versículo se dá idéia das três Pessoas da Santíssima Trindade, pelas palavras; Dominus, Verbum, et Spiritus. — P. Scio.

7Êle ajunta como em odre as águas do mar: Êle põe os abismos em tesouros.

8Tôda a terra tema ao Senhor: E todos os que habitam o universo tremam dêle.

9Porque êle disse, e foram feitas as coisas: Êle mandou e foram criadas.

10O Senhor dissipa os projetos das nações: E reprova os intentos dos povos, e arruina os conselhos dos príncipes.[4]E arruína os conselhos dos príncipesE ARRUINA OS CONSELHOS DOS PRÍNCIPES — Estas últimas palavras não se lêem no hebreu, lêem-se na versão dos Setenta. — Pereira.

11Mas o conselho do Senhor permanece eternamente: Os pensamentos do seu coração de geração em geração.

12Bem-aventurada a gente que tem ao Senhor por seu Deus: O povo, a quem escolheu em herança para si.[5]O povo a quem escolheuO POVO A QUEM ESCOLHEU — Isto conveio ao povo dos hebreus; porém com maior razão, e melhor título se apropria aos cristãos, que é genus electum, regale Sacerdotium, gens sancta, 1 Pdr 2, 9. — P. Scio.

13Desde o céu olhou o Senhor e viu todos os filhos dos homens.[6]Desde o céuDESDE O CÉU — O que explica a admirável Providência com que o Senhor atende a tôdas as coisas humanas, e as governa. — Pereira.

14Desde a sua morada que tem preparada olhou sôbre todos os que habitam a terra.

15Êle é o que formou o coração de cada um dêles: O que entende tôdas as suas obras.[7]Êle é o que formou o coraçãoÊLE É O QUE FORMOU O CORAÇÃO — Dêste texto deduzia S. Jerônimo que as nossas almas não propagadas umas das outras, as dos filhos das dos pais, mas criadas imediatamente por Deus cada uma de per si. — Pereira.

16Não se salva o rei por grande exército: Nem o gigante se salvará pela sua fôrça.

17Enganoso o cavalo para a salvação: E em a sua grande fôrça não se salvará.[8]Não se salvaráNÃO SE SALVARÁ — Isto é, não se salvará a si, nem a quem o monta, nem a multidão, nem a fôrça da cavalaria poderá defender, ou pôr a salvo, e fora de todo o perigo ao que não tem a Deus em seu favor, nem conta com êle em tôdas as suas emprêsas. — P. Scio.

18Eis-aqui os olhos do Senhor sôbre os que o temem: E em aqueles que esperam sôbre a sua misericórdia.

19Para livrar da morte as suas almas: E para os sustentar na sua fome.

20A nossa alma espera ao Senhor: Porque é nosso favorecedor e protetor.[9]A nossa alma espera ao SenhorA NOSSA ALMA ESPERA AO SENHOR — O sustinet da Vulgata no sentido de expectat, quer significar: que espera com paciência que o Senhor lhe assista, e o socorra. — P. Scio.

21Porque nêle se alegrará o nosso coração: E no seu santo Nome temos esperado.

22Faça-se, Senhor, sôbre nós a tua misericórdia: Da maneira que em ti temos esperado.[10]Da maneira que em ti temos esperadoDA MANEIRA QUE EM TI TEMOS ESPERADO — Daqui se colhe quão grande era a esperança de Davi, que por ela quer que o Senhor meça a sua misericórdia sôbre êle. — Teodoreto.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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