Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 93

Salmo didático. Anuncia Davi o castigo dos maus, e o prémio dos bons, que são protegidos pelo Senhor.

Salmo do mesmo Davi, Para o dia quarto da semana.[1]Para o dia quartoPARA O DIA QUARTO — Isto é, para a quarta, dia em que ainda hoje é recitado na sinagoga. Devia ter sido composto durante a revolta de Absalão. Tem seis estrofes. Primeira (1-3). Invocação contra os maus. Segunda (4-7). Quadro da sua tirania. Terceira (8-11). Deus conhece os desígnios dos maus. Quarta (12-15). O povo será defendido pelo seu Deus. Quinta (16-19). No meio das adversidades o salmista não perdeu a confiança em Deus. Sexta (20-23). Deus castigará os maus. Cfr. Huyser. Revue des Sciences ecclésiastiques. 1878.

1O Deus das vinganças é o Senhor: O Deus das vinganças sempre obrou livremente.[2]Sempre obrou livrementeSEMPRE OBROU LIVREMENTE — Vinga o Senhor, principalmente os ultrajes feitos aos seus servos, e obra livremente de tal sorte que ninguém pode resistir à sua vontade, e não há coisa que possa opor-se aos seus desígnios. — Pereira.

2Exalta-te tu que julgas a terra: Dá a retribuição aos soberbos.

3Até quando os pecadores, Senhor: Até quando os pecadores se hão de gloriar:

4Pronunciarão, e falarão iniqüidade: E falarão todos os que obram injustiça?[3]E falarãoE FALARÃO — O hebreu tem: "Falarão coisas duras," palavras insofríveis: porque hás de tolerar que acrescentem sacrílegas blasfêmias, com que ultrajam o teu Augusto Nome, às violências com que nos tiranizam. — Pereira.

5Ao teu povo, Senhor, humilharam: E à tua herança maltrataram.

6À viúva, e ao estrangeiro mataram: E aos órfãos tiraram a vida.

7E disseram: Não o verá o Senhor, nem o saberá o Deus de Jacó.

8Entendei, insensatos do povo: E vós, néscios, entrai uma vez em prudência.

9O que plantou o ouvido, não ouvirá? Ou o que formou o ôlho, não verá?

10O que castiga as gentes, não repreenderá: Êle que ensina ao homem ciência?

11O Senhor conhece os pensamentos dos homens, que são vãos.[4]Que são vãosQUE SÃO VÃOS — Aqui vãos se pode também tomar no sentido de pecaminosos, porque na Escritura vanitas se toma freqüentemente pelo pecado. — Pereira.

12Bem-aventurado o homem, a quem tu instruíres, Senhor: E na tua lei amestrares.

13A fim de o pôr em descanso nos dias maus: Entretanto que se abre a cova para o pecador.

14Porque o Senhor não repelirá o seu povo: Nem abandonará a sua herança.

15Até que a justiça venha a fazer juízo: E que estejam perto dela todos os que são retos de coração.[5]E que estejam perto delaE QUE ESTEJAM PERTO DELA — O P. Calmet observa que as palavras hebraicas podem também trasladar-se mais claramente: "Até que o justo se assente em juízo, entre a reinar, e junto dêle todos os retos de coração." O que em sentido literal se aplica a Ciro, que devia restituir a liberdade aos prisioneiros, e destruir o império de Babilónia; e no sentido, mais sublime ao Messias desejado. — Pereira.

16Quem se levantará a meu favor contra os malignos? Ou quem estará comigo contra os que obram iniqüidade?

17Se não fôsse porque o Senhor me valeu: Quase que a minha alma houvera caído no inferno.

18Se dizia: Está vacilante o meu pé: A tua misericórdia, Senhor, me sustentava.

19Segundo as muitas dores que provou o meu coração, as tuas consolações alegraram a minha alma.

20Acaso tem união contigo a cadeira da iniqüidade: Quando tu nos impões mandamentos penosos?

21Êles irão à caça da alma do justo: E condenarão o inocente.

22Mas o Senhor me serviu de refúgio: E o meu Deus de socorro da minha infância.

23E fará cair sôbre êles a sua iniqüidade: E na sua malícia os destruirá: Destrui-los-á a êles o Senhor nosso Deus.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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