Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 81

Salmo didático. O profeta exorta aos juízes da terra a que façam justiça aos pobres e aos órfãos, por ser Deus o supremo juiz de todos os juízes.

1Salmo de Asaf.
Deus assistiu sempre no conselho dos deuses: No meio dêles julga os mesmos deuses.

2Até quando julgareis injustamente: E tereis respeito às faces dos pecadores?

3Fazei justiça ao necessitado, e ao órfão: Atendei à razão do humilde, e do pobre.

4Tirai ao pobre: E livrai o desvalido da mão do pecador.

5Não souberam, nem entenderam, andam em trevas: Serão abalados todos os fundamentos da terra.[1]Serão abaladosSERÃO ABALADOS — Desta corrupção dos juízes procede uma geral perturbação das famílias, e ruína do estado: Prov 14, 34. Porque as bases dos reinos e de tôdas as repúblicas são a justiça, e a observância das leis. — Pereira.

6Eu disse: Sois deuses, e todos filhos do Excelso.

7Mas vós como homens morrereis: E caireis como um dos príncipes.

8Levanta-te, ó Deus, julga a terra: Porque tu herdarás em tôdas as gentes.[2]HerdarásHERDARÁS — É apóstrofe que o profeta faz a Deus. Já que os vossos ministros têm pervertido tôda a justiça, vem tu mesmo a restabelecê-la, e a ser o juiz de tôda a terra, pôsto que teu é o domínio de tôdas as nações, que a tôdas hás de possuir. Segundo os Padres, é um vaticínio expresso da conversão dos gentios à fé de Cristo. — P. Scio.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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