Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 72

Salmo didático. O profeta declara a terrível tentação por que foi combatida a sua alma ao ver a prosperidade dos ímpios neste mundo: e assegura que o seu espírito sossegou vendo o desgraçado fim dos mesmos ímpios. Toma daqui argumento para arraigar mais e mais no Senhor a sua esperança.

1Salmo de Asaf.
Quão bom é Deus para Israel! Para os que são retos de coração.[1]AsafASAF — Era um dos principais músicos de Davi. Sl 6, 31-39, 2 Esdr 2, 46, porém os salmos que têm o seu nome não são dêle, mas dum dos seus descendentes ou de outro salmista seu homónimo. Vigouroux, Manuel Biblique. Fôsse quem fôsse, o que é certo é que os salmos de Asaf são excelentes modelos do gênero didático. Herder, Histoire de la poesie hebraique, 1845. O assunto dêste salmo é análogo ao do Sl 36. Divide-se em duas partes, compreendendo quatro estrofes cada uma. Primeira parte. Descreve a felicidade do mau. Segunda parte. Explica esta falsa felicidade, e incita o justo a unir-se sempre a Deus, desprezando tudo o que não seja Deus.

2Os meus pés por pouco não vacilaram: Por pouco se não transtornaram os meus passos.

3Porque tive zelo sôbre os iníquos, vendo a paz dos pecadores.[2]A pazA PAZ — Os hebreus designavam por esta palavra uma vida tranquila e próspera, e bem assim o sossêgo e a tranquilidade.

4Porque êles não atendem à sua morte: E não há firmeza na sua ferida.

5Não participam dos trabalhos dos homens, nem com os homens serão flagelados:[3]Nem com os homens serão flageladosNEM COM OS HOMENS SERÃO FLAGELADOS — Não experimentam os trabalhos, penas e misérias do comum dos mortais, nem parecem que nasceram como os demais para padecer. Por isso estão cheios de soberba, de modo que nem temem a Deus, nem respeitam aos homens. — Pereira.

6Portanto os possui a soberba, cobertos estão da sua iniqüidade, e impiedade.

7Como da gordura nasceu a sua maldade: Se transformaram segundo o afeto do seu coração.

8Cogitaram, e falaram maldade: Iniqüidade falaram em alto.

9Puseram no céu a sua bôca: E a língua dêles foi discorrendo pela terra.[4]Puseram no céu a sua bôcaPUSERAM NO CÉU A SUA BÔCA — Ofenderam a Deus no Céu pelas suas blasfémias, e os homens na terra pelas suas calúnias. — Glaire.

10Por isto se voltará aqui o meu povo: E serão achados nêles os dias cheios.[5]Por istoPOR ISTO — Nos Setenta e no hebreu se lê huc: quer dizer, para aqui, é isto que acontece aos ímpios: o meu povo (diz Davi) voltando os olhos para estas coisas, e vendo que apesar dos péssimos procedimentos dos ímpios, êles vivem largamente, e cheios de felicidades temporais, que são os dias cheios, se achará perplexo, e quase tentado a dizer: Acaso Deus sabe isto, etc. — P. Scio.

11E disseram: Acaso Deus sabe isto, e tem disto notícia o Altíssimo?

12Eis-aqui os mesmos pecadores, e os que abundam no século têm adquirido riquezas.

13E disse: Logo em vão justifiquei o meu coração, e lavei entre os inocentes as minhas mãos:

14Pois tenho sido afligido todo o dia, e castigado desde a manhã.

15Se dizia: Contá-lo-ei assim: Via que condenava a nação de teus filhos.

16Pensava para entender isto, trabalho é êste aos meus olhos:

17Até que eu entre no santuário de Deus: E aprenda qual será o fim dêles.

18Certamente por causa dos seus enganos lhes mandaste males: Derribaste-os quando se elevavam.[6]Por causa dos seus enganosPOR CAUSA DOS SEUS ENGANOS — Assim verteu Glaire, dizendo que é a tradução que julga mais autorizada, tanto mais que alguns exemplares da versão dos Setenta e os mais antigos saltérios têm expressas palavras eus e males. O padre Pereira tinha traduzido "Certamente em enganos os pusestes", e Boulleret na sua moderna e já citada obra interpreta desta forma: In via deceptoria (hebr lúbrica) posuisti eos. Preferimos a primeira versão, não só pela autoridade de Glaire, mas por ser a que melhor se liga ao contexto.

19Como os que são postos em desolação, repentinamente feneceram. Pereceram pela sua maldade.

20Como sonho dos que despertam, tornarás, Senhor, em nada a imagem dêles, na tua cidade.

21Porque se inflamou o meu coração, as minhas entranhas se comoveram:

22Também eu fui reduzido ao nada, e não o entendi.

23Como jumento me tenho feito diante de ti: E eu estarei sempre contigo.

24Tomaste-me pela minha mão direita: E me conduziste segundo a tua vontade, e com glória me acolheste.[7]Com glóriaCOM GLÓRIA — Acumulando-me de glória.

25Pois que tenho eu no céu? E fora de ti, que desejei eu sôbre a terra?

26Desfaleceu a minha carne, e o meu coração: Deus do meu coração, e minha porção, Deus para sempre.

27Pois eis-aqui, os que se apartam de ti perecerão: Acabaste com todos os que te quebrantam a fé.

28Mas para mim me é bom unir-me a Deus: E pôr no Senhor Deus a minha esperança:
Para anunciar todos os teus louvores nas portas da cidade de Sião.[8]Cidade de SiãoCIDADE DE SIÃO — Assim traduz Glaire o Filiae Sion da Vulgata.

Todos os Livros Santos têm sido objeto de profundos estudos; acerca de cada um tem-se escrito muito, mas nenhum tem sido estudado tão profundamente, e dado ocasião a maior número de importantes trabalhos, como o Livro dos Salmos. Sobem a mil e duzentos os comentários ao Saltério; e fàcilmente se percebe pela sua grande importância, e pelo lugar proeminente que ocupam estes cânticos na Sagrada Liturgia. O sacerdote repete-os quotidianamente; os fiéis recitam-nos frequentes vezes, sendo por isto a parte mais vulgarizada e mais conhecida da Sagrada Escritura. Ignora-se o nome com que os hebreus designavam a coleção dos Salmos. Modernamente na Bíblia hebraica aparecem sob a designação de Thehillim, que significa os louvores. Os Setenta é que deram a denominação de Salmos. Segundo o testemunho constante dos autores antigos, o número dos Salmos é de cento e cinquenta. A versão grega, reproduzida pela Vulgata, reúne os Salmos 9 e 10, 114 e 115 do hebreu; divide o Salmo 116 em dois. A tradição judaica divide os Salmos em cinco livros. Davi é, sem dúvida alguma, o principal autor desta coleção, em que se revela como o maior poeta lírico de Israel. São composição sua quase dois terços dos Salmos. Doze Salmos têm o nome de Asaf, mestre de música; outros onze são atribuídos aos filhos de Core. O assunto dos Salmos resume-se em duas palavras: Deus e o homem. Deus na sua Infinita Grandeza, Onipotência, Onisciência, Bondade e Justiça; e o homem na sua fraqueza, abatimento, misérias, infelicidades e carência absoluta de socorro do Criador. A versão da Vulgata participa das imperfeições dos Setenta, mas estas diferenças não afetam a doutrina neles contida, nem alteram o sentido moral que nos Salmos se encerra. Pelos Salmos aprendemos a rogar o socorro do céu em nossas aflições, alentando-nos a esperança na proteção do céu. Ensinam-nos a amar a Deus, e a amar o próximo pelo amor de Deus.
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