Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 6

Devem-se advertir os que pecam; sofrerem-se uns aos outros; não se estimar um a si mesmo. Cada um há de recolher, conforme tiver semeado. Paulo se não gloria senão em Jesus Cristo crucificado. A graça não consiste nem na circuncisão, nem na incircuncisão.

1Irmãos, se algum como homem fôr surpreendido ainda em algum delito, vós outros, que sois espirituais, admoestai ao tal com espírito de mansidão: Tu considera-te a ti mesmo, não sejas também tentado.[1]TU CONSIDERA-TE A TI MESMONada modera tanto a severidade de quem corrige, como o temor da queda própria. Santo Tomás. NÃO SEJAS TAMBÉM TENTADO - Pôs o Apóstolo a causa pelo efeito: a tentação pela queda. Porque o sentido é: Não caias tu também na tentação, segundo o que noutra parte diz o mesmo Apóstolo: O que está firme, veja não caia.

2Levai as cargas uns dos outros, e desta maneira cumprireis a Lei de Cristo.

3Porque se algum tem para si que é alguma coisa não sendo nada, êle mesmo a si se engana.

4Mas prove cada um a sua obra, e então terá glória em si mesmo sòmente, e não em outro.[2]E ENTÃO TERÁ GLÓRIA EM SI MESMOIsto é, no que achar de bom em si mesmo, e não em outro, isto é, e não comparando-se com outro. - Sacy.

5Porque cada um levará a sua carga.

6E o que é catequizado na palavra, reparta de todos os bens com o que o doutrina.

7Não queirais errar, de Deus não se zomba.

8Porque aquilo que semear o homem, isso também segará. Porquanto o que semeia na sua carne, da carne também segará corrupção: Mas o que semeia no espírito, do espírito segará a vida eterna.

9Não nos cansemos pois de fazer bem: Porque a seu tempo segaremos, não desfalecendo.

10Logo, enquanto temos tempo, façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé.

11Vêde que carta vos escrevi de minha própria mão.

12Porque todos os que querem agradar na carne, êstes vos obrigam a que vos circuncideis, só por não padecerem êles a perseguição da Cruz de Cristo.

13Porque êsses mesmos, que se circuncidam, não guardam a Lei: Mas querem que vós vos circuncideis, para se gloriarem na vossa carne.

14Mas nunca Deus permita que eu me glorie, senão na Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo: Por quem o mundo está crucificado para mim, e eu crucificado para o mundo.

15Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão, nem a incircuncisão valem nada, mas o ser uma nova criatura.

16E a todos os que seguirem esta regra, paz, e misericórdia sôbre êles, e sôbre o Israel de Deus.[3]E SÔBRE O ISRAEL DE DEUSIsto acrescenta o Apóstolo, por não parecer que exclui da salvação todos os judeus. - Éstio.

17Quanto ao mais ninguém me seja molesto: Porque eu trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus.

18A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, irmãos, assista no vosso espírito. Amém.

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Epístola de S. Paulo aos Gálatas

Introdução

Causa e objeto desta Epístola. - A Galácia era a Gália do Oriente. Três séculos antes de Jesus Cristo, deixaram muitos galo-célticos o seu país, passaram para o norte da Grécia, indo depois estabelecer-se na Ásia, acampando nos arredores de Ancira, onde foram conhecidos pelo nome de Gálatas. Êste êxodo gaulês foi capitaneado por Lutário, e teve lugar, segundo as mais justas referências, pelo ano 280 A. C. Pôsto que em contato com os gregos, conservaram sempre traços característicos da sua antiga nacionalidade, tanto na língua como nos costumes. Unum est, quod inferimus et promissum in exordio reddimus, Galatas excepto sermone gracco; que omnis Oriens loquitur, propriam linguam eandem paene habere quam Treviros, nec referre, si aliqua exinde corrumperint S. Jeronymo. Conni iv ep. Gar. Ocupavam-se principalmente na agricultura, e alguma coisa no comércio em pequena escala em Ancira, Tavium, Pessinonte, etc. Da sua religião só sabemos que eram idólatras. Foram governados pelos seus reis, mesmo sob a dominação romana, que tornou o país tributário no ano 189. Morto seu último rei Amintas, os romanos enviaram-lhe procuradores da sua nacionalidade, tornando-se então a Galácia uma província romana, que ocupava o centro da Ásia Menor.

Os Gálatas eram inteligentes, mas duma acentuada volubilidade de espírito e dum caráter sobremaneira inconstante, o que foi sempre nota característica da raça gaulesa. Sunt ii capiendis consiliis nobiles, et novis plerumque rebus student Cesar. De Bello Gallico. IV. 5. Apesar disso S. Paulo empreendeu aí a pregação do Evangelho e obteve resultados lisonjeiros. Mais tarde soube que doutores judaizantes vindos de Jerusalém, alteravam os seus ensinamentos, impondo práticas de mosaismo. Se uns resistiram, outros deixaram-se enlevar pela novidade, estabelecendo a necessária e consequente cisão, pelo que o Apóstolo lança mão da sua bem aparada pena e reconstitui a verdadeira doutrina.

Tempo e lugar de composição desta Epístola. - Esta epístola deve ter sido composta pela mesma época em que foi a primeira epístola aos Coríntios. Quanto ao lugar, S. Jerônimo, Teodoreto e muitos outros dataram-na de Roma, atendendo ao v. 17 do Capítulo 6. Porém bons argumentos apresentam outros considerados autores que sustentam ter sido escrita em Êfeso, pouco tempo depois da sua vinda a esta cidade, aí pelo ano 55. Windischmann, Erklarung des Galaterb, pág. 6. Cfr. Glaire, Introduction hist. ecrit aux livres de l'A. et du N. T. tomo 6.

Autenticidade. - Deve-se aos herejes o melhor ensejo de se demonstrar a autenticidade desta Epístola, por não só a citarem a cada passo, como deram ocasião aos Padres que a citassem do mesmo modo. Marcio, não sòmente a insere no cânon dos livros sagrados, como vai aí buscar argumentos em favor das suas proposições. De igual sorte procederam os maniqueus, e contra êstes abusos dos herejes ergueram-se então os apologetas como S. Trineu, dizendo Et iterum in epistola quae est ad Galatas, ait Paulus, e Tertuliano que se exprime da mesma sorte. Mas já anteriormente se encontram citações à Epístola aos Gálatas em S. Inácio de Antioquia, ad Philadcl. 1 Policarpo, ad Philipp. e 1 Justino Orat ad Gracc. Foi talvez por êstes e outros testemunhos herejes e ortodoxos que a hipercrítica poupa geralmente a Epístola aos Gálatas.

Divisões. - Compreende um exórdio e três pactos.

Exórdio - 1, 1-10. - Breve saudação e manifestação clara do desgôsto de ver corrompida a sua doutrina.

1 Secção Apologética. 1, 11-2, 16, em que demonstrou a realidade do seu apostolado e perfeita identidade com a doutrina dos apóstolos.

2 Secção dogmática. 2, 17-5, 13 - Demonstra que a justificação depende da fé em Jesus Cristo e não no mosaismo cuja observância é perigosa.

3 Secção anual 5, 14-6 - Corrige os abusos e fortalece os espíritos na fé.

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