Capítulo 5
1Tende-vos firmes, e não vos coloqueis outra vez sob o jugo da escravidão.
2Olhai que eu Paulo vos digo: Que se vos fazeis circuncidar, Cristo vos não aproveitará nada.
3E de novo protesto a todo o homem que se circuncida, que está obrigado a guardar tôda a lei.
4Vazios estais de Cristo os que vos justificais pela lei: Decaistes da graça.
5Porque nós aguardamos pelo Espírito a esperança da justiça pela fé.
6Porque em Jesus Cristo nem a circuncisão vale alguma coisa, nem a incircuncisão: Mas sim a fé, que obra por caridade.
7Vós corrieis bem: Quem vos impediu que não obedecesseis à verdade?
8Esta persuasão não vem daquele que vos chamou.
9Um pouco de fermento altera tôda a massa.
10Eu confio de vós no Senhor, que não tereis outros sentimentos: Mas o que vos inquieta, quem quer que êle seja, levará sôbre si a condenação.[1]QUE NÃO TEREIS OUTROS SENTIMENTOS — Entende-se, os que eu tenho.
11E quanto a mim, irmãos, se eu ainda prego a circuncisão: A que fim padeço eu ainda perseguição? Logo está tirado o escândalo da Cruz.[2]A QUE FIM PADEÇO EU AINDA PERSEGUIÇÃO? — Os falsos Apóstolos, para mais facilmente persuadirem aos gálatas a circuncisão, diziam-lhes que o mesmo Paulo a pregava, e observava ainda. Desfaz o Apóstolo esta calúnia, mostrando que se assim fôra, não padeceria êle tanto dos judeus, nem êles se escandalizariam tanto da Cruz de Jesus Cristo.
12Oxalá que também foram cortados os que vos inquietam.[3]OXALÁ QUE TAMBÉM FORAM CORTADOS — Todos os padres gregos, e latinos, como advertem Éstio e Amelote, entendem êste corte do corte, que deixasse castrados aos que aconselhavam aos gálatas a circuncisão. E êste é o sentido, que nas suas versões exprimem os de Mons, Sacy e Huré, dizendo assim: Plut a Dieu, que ceux qui vous troublent, fussent non seulement circoncis, mais plus que circoncis. A diferença que há entre os padres, é que Santo Agostinho, e com êle Santo Tomás, querem que as palavras do Apóstolo se tomem não em tom de imprecação mas de deprecação, entendendo-as não da castração corporal, mas da espiritual, qual é a de que fala Cristo no Evangelho, quando diz: Que alguns se fizeram eunucos pelo reino dos Céus. Porém, como no desejo que o Apóstolo mostrava de que fôssem cortados os falsos doutores, e entendem alguns doutos e pios modernos do desejo, de que aqueles homens fôssem cortados do corpo dos fiéis por meio da excomunhão, que é o que Éstio tem por mais provável: Por esta razão preferi neste texto a versão de Amelote e Mesengui à de Mons, Sacy e Huré, por dar lugar, como também de si o confessa Amelote, a ambas as inteligências. - Pereira.
13Porque vós, irmãos, haveis sido chamados à liberdade: Cuidai só em que não deis a liberdade por ocasião da carne, mas servi-vos uns aos outros pela caridade do Espírito.
14Porque tôda a lei se encerra neste só preceito: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.
15Se vós porém vos mordeis, e vos devorais uns aos outros: Vêde não vos consumais uns aos outros.
16Digo-vos pois: Andai segundo o espírito e não cumprireis os desejos da carne.
17Porque a carne deseja contra o espírito: E o espírito contra a carne: Porque estas coisas são contrárias entre si: Para que não façais tôdas aquelas coisas que quereis.
18Se vós porém sois guiados pelo espírito, não estais debaixo da lei.[4]NÃO ESTAIS DEBAIXO DA LEI — Isto é, não olhais para a lei com temor, como para um severo amo: E não é êste temor o que vos faz fugir o pecado, mas é o amor o que vo-lo faz fugir. Por isso diz noutra parte o Apóstolo: A lei não foi posta ao justo: porque êle de si mesmo previne o preceito.
19Mas as obras da carne estão patentes: Como são a fornicação, a impureza, a desonestidade, a luxúria,
20a idolatria, os envenenamentos, as inimizades, as contendas, os zelos, as iras, as brigas, as discórdias, as seitas,
21as invejas, os homicídios, as bebedices, as devassidões, e outras coisas semelhantes, das quais eu vos declaro, como já vos disse, que os que tais coisas cometem, não possuirão o reino de Deus.
22Mas o fruto do espírito é: A caridade, o gôzo, a paz, a paciência, a benignidade, a bondade, e a longanimidade,
23a mansidão, a fidelidade, a modéstia, a continência, a castidade. Contra estas coisas não há lei.
24E os que são de Cristo, crucificaram a sua própria carne com os seus vícios e concupiscências.
25Se nós vivemos pelo espírito, conduzammo-nos também pelo espírito.
26Não nos façamos cobiçosos da vanglória, provocando-nos uns aos outros, tendo inveja uns dos outros.