Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 3

O Espírito Santo não foi dado pela lei, mas pelo Evangelho. É uma loucura acabar pela carne, tendo começado pelo espírito. Abraão foi justificado pela fé, e assim o serão seus filhos. O que está debaixo da lei, está debaixo da maldição. Jesus Cristo fez-se por nós maldição. As promessas feitas a Abraão cumpriram-se pela fé. A lei serviu de freio e de monitor.

1O' insensatos Gálatas, quem vos fascinou para não obedecerdes à verdade, vós ante cujos olhos foi já representado Jesus Cristo, como crucificado entre vós mesmos?

2Só quero saber isto de vós: Tendes recebido o Espírito pelas obras da Lei, ou pela fé que ouvistes?

3Sois vós tão faltos de juízo, que depois de terdes começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne?

4Será debalde que vós tenhais padecido tantos trabalhos? Se é que todavia foram debalde.[1]SE É QUE TODAVIA FORAM DEBALDEÊste lugar mostra o que ensinam os Teólogos, que as boas obras, seguindo-se pecado grave, morrem e se fazem infrutuosas. E que as mesmas, arrependendo-se o pecador, tornam a reviver e aproveitam. Pode o pecador dar quantas esmolas, fazer quanto de bem quiser, que o estado de pecador é obstáculo a que essas obras lhe aproveitem.

5Aqüêle pois que vos dá o seu Espírito, e que obra milagres entre vós, acaso fá-lo êle pelas obras da Lei, ou pela fé, que vós ouvistes pregar?

6Assim como está escrito, Abraão creu a Deus, e lhe foi imputado a justiça.

7Reconhecei pois que os que são da fé, êsses tais são filhos de Abraão.

8Mas vendo antes a Escritura, que Deus pela fé justifica as gentes, anunciou primeiro a Abraão: Em ti serão pois benditas tôdas as gentes.

9Assim os que são da fé, serão benditos com o fiel Abraão.

10Porque todos os que são das obras da Lei, estão debaixo da maldição. Porque escrito está: Maldito todo o que não permanecer em tôdas as coisas, que estão escritas no Livro da lei, para fazê-las.

11E é claro que pela lei nenhum é justificado diante de Deus: Porque o justo vive da fé.

12Ora a lei não é da fé, mas diz: O que observar êstes preceitos, achará neles vida.

13Cristo nos remiu da maldição da lei, feito êle mesmo maldição por nós: Porque está escrito: Maldito todo aquele que é pendurado no lenho:

14Para que a bênção de Abraão fôsse comunicada aos gentios em Jesus Cristo, a fim de que pela fé recebamos a promessa do espírito.

15Irmãos (falo como homem) ainda que um testamento seja de um homem, contudo, sendo confirmado, ninguém o reprova, nem lhe acrescenta coisa alguma.

16As promessas foram ditas a Abraão, e à sua semente. Não diz: E as sementes, como de muitos: Senão como de um: E à tua semente, que é Cristo.

17Mas digo isto, que o testamento foi confirmado por Deus: A Lei que foi feita quatrocentos e trinta anos depois, não o faz nulo para abrogar a promessa.

18Porque se da lei é que vem a herança, logo não vem ela já da promessa. Ora, pela promessa é que Deus deu a esperança a Abraão.

19Para que é logo a lei? Por causa das transgressões foi posta, até que viesse a semente, a quem havia feito a promessa, ordenada por Anjos, na mão de um mediador.[2]POR CAUSA DAS TRANSGRESSÕES FOI POSTAEnquanto foi posta, ou para as coibir com o terror das penas ameaçadas, como explicam S. Jerônimo e S. João Crisóstomo, ou para as manifestar e aumentar, como entende Santo Agostinho. NA MÃO DE UM MEDIADOR - Uns o expõem assim: Na mão, isto é, pelo poder e direção do mediador, que lhes ensina ser Jesus Cristo, que dêste modo preparava o povo israelítico para a sua vinda. Dêste sentimento é Santo Agostinho, que o prosseguiu largamente. Outros assim: Na mão do mediador, isto é, intervindo o mediador, qual êles crêem chamar-se aqui Moisés. A êste segundo se inclina mais Éstio.

20O mediador porém não é de um só: E Deus é só um.[3]NÃO É DE UM SÓMas de muitos, ou ao menos de dois: Porque isso significa mediador, o que se põe no meio dos extremos. E assim falando de Jesus Cristo, diz o Apóstolo escrevendo a Timóteo, que êle é o mediador entre Deus e os homens. E falando de si, disse Moisés ao povo, depois de promulgar a lei: Eis aqui fui eu o mediador entre Deus e vós. - Éstio.

21Logo a lei é contra as promessas de Deus? De nenhuma sorte. Porque se a lei, que foi dada, pudesse vivificar, a justiça na verdade seria pela lei.

22Mas a Escritura tôdas as coisas encerrou debaixo do pecado, para que a promessa fôsse dada aos crentes, pela fé em Jesus Cristo.

23Ora, antes que a fé viesse, estávamos debaixo da guarda da lei, encerrados para aquela fé que havia de ser revelada.

24Assim que a lei nos serviu de pedagogo, que nos conduziu a Cristo, para sermos justificados pela fé.

25Mas depois que veio a fé, já não estamos debaixo de pedagogo.

26Porque todos vós sois filhos de Deus pela fé, que é em Jesus Cristo.

27Porque todos os que fôstes batizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo.

28Não há judeu, nem grego: Não há servo, nem livre: Não há macho, nem fêmea. Porque todos vós sois um em Jesus Cristo.

29E se vós sois de Cristo: Logo sois vós a semente de Abraão, os herdeiros segundo a promessa.

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Epístola de S. Paulo aos Gálatas

Introdução

Causa e objeto desta Epístola. - A Galácia era a Gália do Oriente. Três séculos antes de Jesus Cristo, deixaram muitos galo-célticos o seu país, passaram para o norte da Grécia, indo depois estabelecer-se na Ásia, acampando nos arredores de Ancira, onde foram conhecidos pelo nome de Gálatas. Êste êxodo gaulês foi capitaneado por Lutário, e teve lugar, segundo as mais justas referências, pelo ano 280 A. C. Pôsto que em contato com os gregos, conservaram sempre traços característicos da sua antiga nacionalidade, tanto na língua como nos costumes. Unum est, quod inferimus et promissum in exordio reddimus, Galatas excepto sermone gracco; que omnis Oriens loquitur, propriam linguam eandem paene habere quam Treviros, nec referre, si aliqua exinde corrumperint S. Jeronymo. Conni iv ep. Gar. Ocupavam-se principalmente na agricultura, e alguma coisa no comércio em pequena escala em Ancira, Tavium, Pessinonte, etc. Da sua religião só sabemos que eram idólatras. Foram governados pelos seus reis, mesmo sob a dominação romana, que tornou o país tributário no ano 189. Morto seu último rei Amintas, os romanos enviaram-lhe procuradores da sua nacionalidade, tornando-se então a Galácia uma província romana, que ocupava o centro da Ásia Menor.

Os Gálatas eram inteligentes, mas duma acentuada volubilidade de espírito e dum caráter sobremaneira inconstante, o que foi sempre nota característica da raça gaulesa. Sunt ii capiendis consiliis nobiles, et novis plerumque rebus student Cesar. De Bello Gallico. IV. 5. Apesar disso S. Paulo empreendeu aí a pregação do Evangelho e obteve resultados lisonjeiros. Mais tarde soube que doutores judaizantes vindos de Jerusalém, alteravam os seus ensinamentos, impondo práticas de mosaismo. Se uns resistiram, outros deixaram-se enlevar pela novidade, estabelecendo a necessária e consequente cisão, pelo que o Apóstolo lança mão da sua bem aparada pena e reconstitui a verdadeira doutrina.

Tempo e lugar de composição desta Epístola. - Esta epístola deve ter sido composta pela mesma época em que foi a primeira epístola aos Coríntios. Quanto ao lugar, S. Jerônimo, Teodoreto e muitos outros dataram-na de Roma, atendendo ao v. 17 do Capítulo 6. Porém bons argumentos apresentam outros considerados autores que sustentam ter sido escrita em Êfeso, pouco tempo depois da sua vinda a esta cidade, aí pelo ano 55. Windischmann, Erklarung des Galaterb, pág. 6. Cfr. Glaire, Introduction hist. ecrit aux livres de l'A. et du N. T. tomo 6.

Autenticidade. - Deve-se aos herejes o melhor ensejo de se demonstrar a autenticidade desta Epístola, por não só a citarem a cada passo, como deram ocasião aos Padres que a citassem do mesmo modo. Marcio, não sòmente a insere no cânon dos livros sagrados, como vai aí buscar argumentos em favor das suas proposições. De igual sorte procederam os maniqueus, e contra êstes abusos dos herejes ergueram-se então os apologetas como S. Trineu, dizendo Et iterum in epistola quae est ad Galatas, ait Paulus, e Tertuliano que se exprime da mesma sorte. Mas já anteriormente se encontram citações à Epístola aos Gálatas em S. Inácio de Antioquia, ad Philadcl. 1 Policarpo, ad Philipp. e 1 Justino Orat ad Gracc. Foi talvez por êstes e outros testemunhos herejes e ortodoxos que a hipercrítica poupa geralmente a Epístola aos Gálatas.

Divisões. - Compreende um exórdio e três pactos.

Exórdio - 1, 1-10. - Breve saudação e manifestação clara do desgôsto de ver corrompida a sua doutrina.

1 Secção Apologética. 1, 11-2, 16, em que demonstrou a realidade do seu apostolado e perfeita identidade com a doutrina dos apóstolos.

2 Secção dogmática. 2, 17-5, 13 - Demonstra que a justificação depende da fé em Jesus Cristo e não no mosaismo cuja observância é perigosa.

3 Secção anual 5, 14-6 - Corrige os abusos e fortalece os espíritos na fé.

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