Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 2

Catorze anos depois da sua conversão, confere Paulo a sua doutrina com os apóstolos. Êles lhe não prescrevem nada, nem o obrigam a observar a lei de Moisés. Antes dando-lhe a mão, o associam consigo. Declara de cara a cara a resistência a Pedro. Não é a Lei a que justifica, mas sim a graça de Jesus Cristo. O que é batizado, está morto para a lei. Se a lei justificasse, seria em vão a morte de Jesus Cristo.

1Catorze anos depois, subi dali outra vez a Jerusalém com Barnabé, levando também comigo a Tito.

2E subi em conseqüência duma revelação: Comuniquei com êles o Evangelho, que prego entre os gentios, e particularmente com aqueles que pareciam ser de maior consideração: Por temor de não correr em vão, ou de haver corrido:[1]POR TEMORIsto é, a fim de não ver malogrado o fruto do que eu esperava fazer, ou vinha já feito na carreira do meu ministério. No verso 6, adverte S. Paulo, que da conferência que tivera com o Colégio Apostólico, não aprenderá êle verdade alguma, que já antes lhe não tivesse sido revelada por Deus. O fim pois desta conferência não foi para ser ensinado mas sim para tapar a boca a seus Adversários, para êstes depois de verem provada publicamente pelo Sagrado Colégio a sua doutrina, não poderem espalhar que ela não era segura, nem verdadeira.

3Mas nem ainda Tito, que estava comigo, sendo gentio, foi compelido a que se circuncidasse.

4Nem ainda pelos falsos irmãos, que se intrometeram a esquadrinhar a nossa liberdade, que temos em Jesus Cristo, para nos reduzirem à servidão.

5Aos quais nem só uma hora quisemos estar em sujeição, para que permaneça entre vós a verdade do Evangelho.

6Mas quanto àquêles que pareciam ser mais consideráveis (quais tenham sido noutro tempo, nada me toca. Deus não aceita a aparência do homem) a mim certamente, os que pareciam ser alguma coisa, nada me comunicaram.

7Antes, pelo contrário, tendo visto que me havia sido encomendado o Evangelho da incircuncisão, como também a Pedro o da circuncisão:[2]ANTES, PELO CONTRÁRIOPelo contrário, do que queriam, e pretendiam os falsos irmãos, de que Corinto era cabeça, como nos informa Santo Epifânio. - Pereira.

8(Porque o que obrou em Pedro para o Apostolado da circuncisão, também obrou em mim para com as gentes).

9E como Tiago, e Cefas, e João, que pareciam ser as colunas, conheceram a graça que se me havia dado, deram as destras a mim, e a Barnabé, em sinal de companhia: Para que nós fôssemos aos gentios, e êles à circuncisão:[3]CEFASÉ S. Pedro.

10Recomendando sòmente que nos lembrássemos dos pobres, isto mesmo é o que eu também procurei executar com cuidado.

11Ora tendo vindo Cefas a Antioquia: Eu lhe resisti na cara, porque era repreensível.[4]EU LHE RESISTI NA CARAÉ notório pelas Cartas de S. Jerônimo e de Santo Agostinho a controvérsia, que houve entre êstes dois grandes doutores, sôbre a inteligência dêste texto, e dêste fato de S. Paulo com S. Pedro. Porque S. Jerônimo no comentar a êste lugar tinha escrito, que a repreensão, que S. Paulo dera a S. Pedro, fôra só por economia, e na aparência, e não que julgasse que S. Pedro verdadeiramente pecava, e era repreensível no que fazia, subtraindo-se a comer com os gentios. Pelo contrário, Santo Agostinho qualificou de falsa, e de perigosa esta interpretação: Observando judiciosamente, que se depois de S. Paulo escrever em têrmos expressos, que S. Pedro era repreensível, e que não andava direito com o Evangelho, era permitido cuidar, e escrever, que tudo fôra só na aparência, e não na realidade, vacilava tôda a verdade das Escrituras santas, e de todo o crédito dos Sagrados Apóstolos. Convencido das razões de Santo Agostinho, que escorava também o seu sentimento na autoridade do grande Santo Bispo, e Mártir Cipriano, retratou S. Jerônimo à primeira opinião, como é manifesto pelo seu diálogo contra os Pelagianos, e pela sua Apologia contra Rufino. E de todos, ou quase todos os que depois escreveram entre os Latinos, seguiram a Santo Agostinho, entre êles S. Gregório Magno nos seus Morais, e Homilias, Santo Agapito, também Sumo pontífice, na carta ao imperador Justiniano, e Santo Tomás no seu comentário a esta Epístola aos Gálatas. Deve-se advertir por último, como adverte Éstio: Que a culpa repreendida por S. Paulo não esteve precisamente na simulação de que usou S. Pedro, pois dela usou também S. Paulo, quando circuncidou a Timóteo, e quando se tosquiou à Nazarena por cumprir o seu voto. Mas esteve em usar da simulação, quando e onde não devia usar dela: porque subtraindo-se de comer com os gentios, dava a êstes ocasião de apostatarem da fé, ofendidos de S. Pedro os evitar como gente imunda. Concluo com a reflexão de Santo Agostinho, comparando a maldade de um Apóstolo com a fortaleza de outro: Muito mais admirável, e muito mais digno de louvor é em Pedro receber boamente a repreensão de Paulo, do que repreender Paulo com tanta liberdade o extravio de Pedro. Multo mirabilius est, et laudabilus libenter accipere corrigentem, quem audacter corrigere deviantem.

12Porque antes que chegassem os que vinham de estar com Tiago, comia êle com os gentios: Mas depois que êles chegaram, subtraía-se, e separava-se dos gentios, temendo ofender aos que eram circuncidados.

13E os outros judeus consentiram na sua dissimulação, de sorte que ainda Barnabé foi induzido por êles àquela simulação.

14Mas quando eu vi que não andavam direitamente segundo a verdade do Evangelho, disse a Cefas diante de todos: Se tu, sendo judeu, vives como os gentios, e não como os judeus: Por que obrigas tu os gentios a judaizar?

15Nós somos judeus por natureza, e não pecadores dentre os gentios.

16Mas como sabemos que o homem não se justifica pelas obras da lei, senão pela fé de Jesus Cristo: Por isso também nós cremos em Jesus Cristo, para sermos justificados pela fé de Cristo, e não pelas obras da lei: Porquanto pelas obras da lei não será justificada tôda a carne.[5]MAS COMO SABEMOS QUE O HOMEMA primeira habilitação indispensável para se justificar o homem, é a fé no Mediador entre Deus e os homens, que é Jesus Cristo Deus e homem. Sem esta fé ninguém se salva, ninguém se justifica. As mesmas obras da lei mosaica, ou da lei natural, sendo destituidas daquela fé, e não as fecundando por meio da fé o sangue do Redentor, são totalmente estéreis em ordem à justificação e salvação. Êste é o assunto principal desta Epístola aos Gálatas.

17Pois se nós que procuramos ser justificados em Cristo somos também achados pecadores, é porventura Cristo ministro do pecado? Certo que não.[6]SOMOS TAMBÉM ACHADOS PECADORESIsto é, se somos ainda reputados pecadores pelos que judaizam e põem a sua justificação nas obras da lei Mosaica. - Éstio.

18Porque se eu torno a edificar o que destruí, faço-me prevaricador.

19Porque eu estou morto à Lei pela mesma Lei, para viver para Deus, estou encravado com Cristo na Cruz.[7]PORQUE EU ESTOU MORTO À LEI, PELA MESMA LEIEstar morto à Lei, pela mesma Lei, é estar desobrigado da Lei, pelo mesmo que ela ensina, entendida espiritualmente: Que é, que tendo vindo ao mundo o figurado pela Lei, que é Jesus Cristo, deve cessar a mesma Lei, como figura que é dêle. - Éstio.

20E vivo, por melhor dizer, não sou eu já o que vivo: Mas Cristo é que vive em mim. E se eu vivo agora em carne: Vivo na fé do Filho de Deus, que me amou, e se entregou a si mesmo por mim.

21Eu não rejeito a graça de Deus. Porque se a justiça é pela Lei, segue-se que morreu Cristo em vão.

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Epístola de S. Paulo aos Gálatas

Introdução

Causa e objeto desta Epístola. - A Galácia era a Gália do Oriente. Três séculos antes de Jesus Cristo, deixaram muitos galo-célticos o seu país, passaram para o norte da Grécia, indo depois estabelecer-se na Ásia, acampando nos arredores de Ancira, onde foram conhecidos pelo nome de Gálatas. Êste êxodo gaulês foi capitaneado por Lutário, e teve lugar, segundo as mais justas referências, pelo ano 280 A. C. Pôsto que em contato com os gregos, conservaram sempre traços característicos da sua antiga nacionalidade, tanto na língua como nos costumes. Unum est, quod inferimus et promissum in exordio reddimus, Galatas excepto sermone gracco; que omnis Oriens loquitur, propriam linguam eandem paene habere quam Treviros, nec referre, si aliqua exinde corrumperint S. Jeronymo. Conni iv ep. Gar. Ocupavam-se principalmente na agricultura, e alguma coisa no comércio em pequena escala em Ancira, Tavium, Pessinonte, etc. Da sua religião só sabemos que eram idólatras. Foram governados pelos seus reis, mesmo sob a dominação romana, que tornou o país tributário no ano 189. Morto seu último rei Amintas, os romanos enviaram-lhe procuradores da sua nacionalidade, tornando-se então a Galácia uma província romana, que ocupava o centro da Ásia Menor.

Os Gálatas eram inteligentes, mas duma acentuada volubilidade de espírito e dum caráter sobremaneira inconstante, o que foi sempre nota característica da raça gaulesa. Sunt ii capiendis consiliis nobiles, et novis plerumque rebus student Cesar. De Bello Gallico. IV. 5. Apesar disso S. Paulo empreendeu aí a pregação do Evangelho e obteve resultados lisonjeiros. Mais tarde soube que doutores judaizantes vindos de Jerusalém, alteravam os seus ensinamentos, impondo práticas de mosaismo. Se uns resistiram, outros deixaram-se enlevar pela novidade, estabelecendo a necessária e consequente cisão, pelo que o Apóstolo lança mão da sua bem aparada pena e reconstitui a verdadeira doutrina.

Tempo e lugar de composição desta Epístola. - Esta epístola deve ter sido composta pela mesma época em que foi a primeira epístola aos Coríntios. Quanto ao lugar, S. Jerônimo, Teodoreto e muitos outros dataram-na de Roma, atendendo ao v. 17 do Capítulo 6. Porém bons argumentos apresentam outros considerados autores que sustentam ter sido escrita em Êfeso, pouco tempo depois da sua vinda a esta cidade, aí pelo ano 55. Windischmann, Erklarung des Galaterb, pág. 6. Cfr. Glaire, Introduction hist. ecrit aux livres de l'A. et du N. T. tomo 6.

Autenticidade. - Deve-se aos herejes o melhor ensejo de se demonstrar a autenticidade desta Epístola, por não só a citarem a cada passo, como deram ocasião aos Padres que a citassem do mesmo modo. Marcio, não sòmente a insere no cânon dos livros sagrados, como vai aí buscar argumentos em favor das suas proposições. De igual sorte procederam os maniqueus, e contra êstes abusos dos herejes ergueram-se então os apologetas como S. Trineu, dizendo Et iterum in epistola quae est ad Galatas, ait Paulus, e Tertuliano que se exprime da mesma sorte. Mas já anteriormente se encontram citações à Epístola aos Gálatas em S. Inácio de Antioquia, ad Philadcl. 1 Policarpo, ad Philipp. e 1 Justino Orat ad Gracc. Foi talvez por êstes e outros testemunhos herejes e ortodoxos que a hipercrítica poupa geralmente a Epístola aos Gálatas.

Divisões. - Compreende um exórdio e três pactos.

Exórdio - 1, 1-10. - Breve saudação e manifestação clara do desgôsto de ver corrompida a sua doutrina.

1 Secção Apologética. 1, 11-2, 16, em que demonstrou a realidade do seu apostolado e perfeita identidade com a doutrina dos apóstolos.

2 Secção dogmática. 2, 17-5, 13 - Demonstra que a justificação depende da fé em Jesus Cristo e não no mosaismo cuja observância é perigosa.

3 Secção anual 5, 14-6 - Corrige os abusos e fortalece os espíritos na fé.

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