Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 4

Os judeus debaixo da lei são como os pupilos debaixo do tutor. Os Gálatas guardando a lei tornam-se escravos. Os escravos não são herdeiros. A figura de Sara e de Agar. Jesus Cristo nos fez livres.

1Digo pois: Que quanto tempo o herdeiro é menino, em nada difere do servo, ainda que seja senhor de tudo.

2Mas está debaixo dos tutores, e curadores. até o tempo determinado por seu pai:

3Assim também nós quando éramos meninos, serviámos debaixo dos rudimentos do mundo.

4Mas quando veio o cumprimento do tempo, enviou Deus a seu Filho, feito de mulher, feito sujeito à lei.

5A fim de remir aquêles que estavam debaixo da lei, para que recebessemos adoção de filhos.

6E porque vós sois filhos, mandou Deus aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Pai, Pai.

7E assim já não é servo, mas filho. E se é filho: Também é herdeiro por Deus.[1]TAMBÉM É HERDEIROO grego tem: Herdeiro de Deus por Cristo, e isto seguiram os de Mons, Sacy e Huré.

8Mas então que certamente não conhecíeis a Deus, servieis aos que por natureza não são deuses.

9Porém agora tendo vós conhecido a Deus, ou para melhor dizer, sendo conhecidos de Deus: Como tornais outra vez aos rudimentos fracos, e pobres, aos quais quereis de novo servir?

10Observais os dias, e os meses, e os tempos, e os anos.

11Temo-me de vós, não tenha sido talvez baldado o trabalho que tive convosco.

12Sêde como eu, porque também eu sou como vós, o que vos peço, irmãos: Vós nunca me ofendestes.

13E sabeis que ao princípio vos preguei o Evangelho com enfermidade da carne: E sendo eu a vossa tentação na minha carne,[2]E SENDO EU A VOSSA TENTAÇÃOSendo eu, pelas afrontas que sofri, e males que me oprimiam, um objeto que vos podia servir de tentação para desprezardes o Evangelho que vos pregava tanto, não fui de vós ultrajado, que antes me vi respeitado e honrado como se fôra um anjo, ou mesmo Cristo em pessoa.

14vós me não desprezastes, nem rejeitastes: Antes me recebestes como a um Anjo de Deus, como a Jesus Cristo.

15Onde está logo a vossa bem-aventurança? Porque vos dou testemunho, que, se pudesse ser, vos arrancaríeis os olhos, e mos houvereis dado.

16Tornei-me eu logo vosso inimigo, porque vos disse a verdade?

17Êles vos zelam, não retamente: Mas querem-vos separar, para que os sigais a êles:[3]ÊLES VOS ZELAMÊles, isto é, os falsos Apóstolos, que vos persuadem ser necessária a observância da Lei de Moisés.

18Sêde pois zelosos do bem em bem sempre: E não só quando eu estou presente convosco.

19Filhinhos meus, por quem eu de novo sinto as dores do parto, até que Jesus Cristo se forme em vós.

20Eu porém quisera agora estar convosco, e mudar de palavras: Porque me vejo em tormento, sôbre como vos hei-de falar.

21Dizei-me-vós, os que quereis estar debaixo da Lei, não tendes lido a Lei?

22Porque está escrito: Que Abraão teve dois filhos, um de mulher escrava, e outro de mulher livre.

23Mas o que nasceu da escrava, nasceu segundo a carne: E o que nasceu da livre, nasceu por promessa:

24As quais coisas foram ditas por alegoria. Porque êstes são os dois Testamentos. Um certamente no monte Sinai, que gera para servidão; êste é figurado em Agar.

25Porque Sinai é um monte da Arábia, que representa a Jerusalém, que é cá debaixo, e que é escrava com seus filhos.[4]E QUE É ESCRAVA COM SEUS FILHOSIsto diz o Apóstolo, aludindo a que ainda estava em Jerusalém terrena observando a lei mosaica, mostrando-se nisso escrava da mesma lei.

26Mas aquela Jerusalém, que é lá de cima, é livre, a qual é nossa mãe.

27Porque escrito está: Alegra-te, ó estéril, que não pares: Esforça-te, e dá vozes, tu que não estás de parto: Porque são muitos mais os filhos da desolada, que daquela que tem marido.

28E nós, irmãos, somos filhos da promessa segundo Isaac.

29Mas como então aquêle, que havia nascido segundo a carne, perseguia ao que era segundo o espírito: Assim também agora.

30Mas o que diz a Escritura? Lança fora a escrava e a seu filho: Porque o filho da escrava não será herdeiro com o filho da livre.

31E assim, irmãos, não somos filhos da escrava, senão da livre: Com cuja liberdade Cristo nos fêz livres.

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Epístola de S. Paulo aos Gálatas

Introdução

Causa e objeto desta Epístola. - A Galácia era a Gália do Oriente. Três séculos antes de Jesus Cristo, deixaram muitos galo-célticos o seu país, passaram para o norte da Grécia, indo depois estabelecer-se na Ásia, acampando nos arredores de Ancira, onde foram conhecidos pelo nome de Gálatas. Êste êxodo gaulês foi capitaneado por Lutário, e teve lugar, segundo as mais justas referências, pelo ano 280 A. C. Pôsto que em contato com os gregos, conservaram sempre traços característicos da sua antiga nacionalidade, tanto na língua como nos costumes. Unum est, quod inferimus et promissum in exordio reddimus, Galatas excepto sermone gracco; que omnis Oriens loquitur, propriam linguam eandem paene habere quam Treviros, nec referre, si aliqua exinde corrumperint S. Jeronymo. Conni iv ep. Gar. Ocupavam-se principalmente na agricultura, e alguma coisa no comércio em pequena escala em Ancira, Tavium, Pessinonte, etc. Da sua religião só sabemos que eram idólatras. Foram governados pelos seus reis, mesmo sob a dominação romana, que tornou o país tributário no ano 189. Morto seu último rei Amintas, os romanos enviaram-lhe procuradores da sua nacionalidade, tornando-se então a Galácia uma província romana, que ocupava o centro da Ásia Menor.

Os Gálatas eram inteligentes, mas duma acentuada volubilidade de espírito e dum caráter sobremaneira inconstante, o que foi sempre nota característica da raça gaulesa. Sunt ii capiendis consiliis nobiles, et novis plerumque rebus student Cesar. De Bello Gallico. IV. 5. Apesar disso S. Paulo empreendeu aí a pregação do Evangelho e obteve resultados lisonjeiros. Mais tarde soube que doutores judaizantes vindos de Jerusalém, alteravam os seus ensinamentos, impondo práticas de mosaismo. Se uns resistiram, outros deixaram-se enlevar pela novidade, estabelecendo a necessária e consequente cisão, pelo que o Apóstolo lança mão da sua bem aparada pena e reconstitui a verdadeira doutrina.

Tempo e lugar de composição desta Epístola. - Esta epístola deve ter sido composta pela mesma época em que foi a primeira epístola aos Coríntios. Quanto ao lugar, S. Jerônimo, Teodoreto e muitos outros dataram-na de Roma, atendendo ao v. 17 do Capítulo 6. Porém bons argumentos apresentam outros considerados autores que sustentam ter sido escrita em Êfeso, pouco tempo depois da sua vinda a esta cidade, aí pelo ano 55. Windischmann, Erklarung des Galaterb, pág. 6. Cfr. Glaire, Introduction hist. ecrit aux livres de l'A. et du N. T. tomo 6.

Autenticidade. - Deve-se aos herejes o melhor ensejo de se demonstrar a autenticidade desta Epístola, por não só a citarem a cada passo, como deram ocasião aos Padres que a citassem do mesmo modo. Marcio, não sòmente a insere no cânon dos livros sagrados, como vai aí buscar argumentos em favor das suas proposições. De igual sorte procederam os maniqueus, e contra êstes abusos dos herejes ergueram-se então os apologetas como S. Trineu, dizendo Et iterum in epistola quae est ad Galatas, ait Paulus, e Tertuliano que se exprime da mesma sorte. Mas já anteriormente se encontram citações à Epístola aos Gálatas em S. Inácio de Antioquia, ad Philadcl. 1 Policarpo, ad Philipp. e 1 Justino Orat ad Gracc. Foi talvez por êstes e outros testemunhos herejes e ortodoxos que a hipercrítica poupa geralmente a Epístola aos Gálatas.

Divisões. - Compreende um exórdio e três pactos.

Exórdio - 1, 1-10. - Breve saudação e manifestação clara do desgôsto de ver corrompida a sua doutrina.

1 Secção Apologética. 1, 11-2, 16, em que demonstrou a realidade do seu apostolado e perfeita identidade com a doutrina dos apóstolos.

2 Secção dogmática. 2, 17-5, 13 - Demonstra que a justificação depende da fé em Jesus Cristo e não no mosaismo cuja observância é perigosa.

3 Secção anual 5, 14-6 - Corrige os abusos e fortalece os espíritos na fé.

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