Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 10

Declara o Apóstolo qual seja a sua milícia, e quais as suas armas. Que ou ausente, ou presente, é igualmente forte. Que êle se não gloria, senão a medida do seu trabalho. Que se não intromete nos limites dos outros. Que a verdadeira glória só vem de Deus.

1Mas eu mesmo Paulo vos rogo pela mansidão e modéstia de Cristo, eu que quando pessoalmente estou entre vós me mostro na verdade humilde, mas ausente sou ousado convosco.

2Rogo-vos pois que quando estiver presente, não me veja obrigado a usar com liberdade da ousadia que se me atribui ter contra alguns, que nos julgam, como se andássemos segundo a carne.

3Porque ainda que andamos em carne, não militamos segundo a carne.

4Porquanto as armas da nossa milícia não são carnais, mas são poderosas em Deus para destruição das fortificações, derribando os conselhos,[1]DERRIBANDO OS CONSELHOSIsto é, os discursos da Filosofia humana, como se viu em tantos sábios da Gentilidade convertidos pelos Apóstolos e seus sucessores ao Cristianismo, como foram Dionísio Aeropagita, Aristides, Justino, Panteno e outros.

5e tôda a altura que se levanta contra a ciência de Deus, e reduzindo a cativeiro todo o entendimento para que obedeça a Cristo.

6E tendo em nossa mão o poder de castigar a todos os desobedientes, depois que fôr cumprida a vossa obediência.[2]O PODER DE CASTIGAR A TODOS OS DESOBEDIENTESÊste lugar prova claramente o poder, que têm os Prelados Eclesiásticos, para castigar com penas espirituais os delinquentes, das quais penas a principal é a excomunhão contra os rebeldes e contumazes.

7Julgai ao menos das coisas pelo que elas são na aparência. Se algum está confiado que êle é de Cristo, considere isto também dentro de si: Que como êle é de Cristo, assim também nós o somos.

8Porque ainda que eu me glorie mais algum tanto do meu poder, que o Senhor me deu para vossa edificação, e não para vossa destruição: Não me envergonharei por isso.[3]DO MEU PODER QUE O SENHOR ME DEU PARA VOSSA EDIFICAÇÃOEis aqui o fim do Poder Eclesiástico, edificar e não destruir. E por êste fim se deve regular o uso do mesmo poder, como ensina o Concílio de Trento na Sessão 25, da Reformação, cap. 3.

9Mas para que não pareça que vos quero como aterrar por cartas:

10Porque na verdade as cartas, dizem alguns, são graves e fortes: Mas a presença do corpo é fraca, e a palavra desprezível:[4]DIZEM ALGUNSÊste homem, diziam, que escreve em um tom de autoridade tão alto, que faz tremer ainda aos mais esforçados, é muito diferente visto de perto, corpo pequeno, ar rústico, discurso trivial e bárbaro, apenas ousa apresentar-se diante das gentes, e assim não há para que temer a sua presença, como pretende persuadir-nos na sua carta. S. Paulo foi pequeno de estatura, e não mui favorecido nos dotes naturais do corpo. Ainda que a sua linguagem parecesse despojada da eloquência, adôrno, e graças da Acaia, isto não obstante estas cartas, em que parece lhe não devem nenhum cuidado o concerto, e a elegância do estilo, estão cheias dos mais nobres rasgos daquela grande e sublime eloquência, que era própria de um Apóstolo; e se atendermos em particular à presente que temos entre mãos, se vê claramente, que não ignorava as fontes da Eloquência.

11O tal que assim pensa entende que quais somos nas palavras por cartas estando ausentes, tais seremos também de fato quando estivermos presentes.

12Porque não ousamos entremeter-nos, ou comparar-nos com alguns que se gabam a si mesmos: Mas nós nos medimos conosco, e nos comparamos a nós mesmos.

13Nós pois não nos gloriaremos fora de medida, mas segundo a medida da regra com que Deus nos mediu, medida de chegar até vós outros.[5]DA REGRA COM QUE DEUS NOS MEDIUNão quer dizer Paulo com isto, ter tido alguma ordem de Deus para não passar de Corinto com a pregação do Evangelho, porque pelo preceito, que Cristo dera a todos por S. Mateus, ide por todo o mundo, ensinai tôdas as gentes, tinha cada Apóstolo por Diocese o mundo todo. E quando o mesmo Senhor constituiu a Paulo Apóstolo, e doutor dos povos gentios, nenhuma exceção faz de lugares, ou nações. Mas quer dizer, que tudo o de que êle com verdade se podia gloriar, lhe fôra distribuído por Deus, e que assim se êle se gloriava sôbre os coríntios, era porque por ordem de Deus tinha fundado aquela Igreja, sendo o primeiro que ali pregara o Evangelho.

14Porque não nos entendemos fora dos limites, como se não chegássemos lá a vós: Pois temos chegado até vós pregando o Evangelho de Cristo:

15Não nos gloriando fora de medida nos trabalhos alheios: Mas esperando que, crescendo a vossa fé, sejamos em abundância engrandecidos em vós outros, segundo a nossa regra.

16Que também anunciemos o Evangelho nos lugares que estão além de vós, não no distrito de outrem, para nos gloriarmos no que estava já aparelhado.

17Aquêle pois que se gloria, glorie-se no Senhor.

18Porque não é o que a si mesmo se recomenda, o que é estimável: Mas é sim aquêle a quem Deus recomenda.

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Data e lugar em que foi escrita. — Concordam os críticos em que esta Epístola foi escrita pouco depois das precedentes, no ano 57, segundo o maior número. S. Paulo estava na Macedônia, talvez em Filipos, para onde veio depois a perseguição que o obrigou a deixar Éfeso, e ali se encontra com Tito, por quem tem conhecimento do que se passava em Corinto. Em vista das informações prestadas, que eram desfavoráveis, pois que davam conta de inimizades, rixas freqüentes, vaidades mal reprimidas, ambições criminosas, escreveu, pelo muito afeto que consagrava a esta cristandade, a sua segunda Epístola, encarregando o seu próprio discípulo de ser o portador dela para Corinto.

Objeto. — Nesta carta nota-se uma apologia da sua conduta e do seu ministério; apologia moderada, depois franca, e no fim acerada e veemente.

Divisão. — Compreende um prólogo, 1, 14, em que descreve os seus sofrimentos.

Três seções: 1.ª, 1, 15; c. 7, Apologia calma.

2.ª — Digressão sôbre a esmola e mútuo auxílio, cc. 8 e 9.

3.ª — Apologia animada e veemente, cc. 10 e 12.

Nesta Epístola revela S. Paulo o seu judicioso critério e procura: 1.º dissipar qualquer prevenção contra a sua pessoa; 2.º reformar os abusos; 3.º confundir os falsos mestres.

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