Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 7

Exorta o Apóstolo os Coríntios a pureza da alma e corpo. Testemunha-lhes o amor que lhes tem. Adoça-lhes a severidade com que êle se tinha havido com o incestuoso. Alegra-se da tristeza que lhes causou, por ser uma tristeza em Deus. Consola-se pelo bom gasalhado que fizeram a Tito e pelas boas novas que lhe trouxera dêles.

1Tendo pois recebido estas promessas, meus caríssimos, purifiquemo-nos de tôda a imundícia da carne, e do espírito, aperfeiçoando a nossa santificação no temor de Deus.

2Recebei-nos dentro do vosso coração. Nós a ninguém temos ofendido, a ninguém temos corrompido, a ninguém temos enganado.

3Não vos digo isto por vos condenar: Pois já vos declaramos que vós estais nos nossos corações para a morte e para a vida.

4Tenho grande confiança de vós, e grande motivo de me gloriar de vós, cheio estou de consolação, exubero de gôzo em tôda a nossa tribulação.

5Porque ainda quando passamos à Macedônia, nenhum repouso teve a nossa carne, antes sofremos tôda a tribulação: Combates fora, sustos dentro.

6Porém Deus, que consola aos humildes, nos consolou a nós com a chegada de Tito.

7E não somente com a sua chegada, mas também com a consolação que êle recebeu de vós, tendo-me o mesmo referido as extremosas saudades, que vós tendes de me ver, as vossas lágrimas, o vosso zêlo por mim, o que tudo fêz crescer a minha alegria.

8Porque ainda que eu vos entristeci com a minha carta, não me arrependo disso: Se bem que ao princípio me pesasse, vendo que a tal carta (ainda que por breve tempo) vos entristeceu.

9Agora folgo: Não de vos haver entristecido, mas de que a vossa tristeza vos trouxe à penitência. A tristeza, que tivestes, foi segundo Deus, de sorte que nela nenhum detrimento recebestes de nós.

10Porque a tristeza, que é segundo Deus, produz para a salvação uma penitência estável: E a tristeza do século produz a morte.

11Considerai pois quanto esta mesma tristeza, que sentistes segundo Deus, produziu em vós não só de vigilante cuidado: Mas também de apologia, de indignação, de temor, de saudade, de zêlo, de vingança; vós mostrastes em tudo que não tínheis culpa neste negócio.[1]MAS TAMBÉM DE APOLOGIADe apologia, com que vos defendestes e justificastes diante de Tito, de não terdes parte no crime alheio, antes o castigastes com severidade. De indignação, contra o Incestuoso. De temor, não tornasse a suceder entre vós semelhante maldade. De saudade, de me verdes. De zelo, em acudir pela minha pessoa, defendendo, e aprovando o meu procedimento. De vingança, em castigar o crime. E desta última palavra, de vingança, provam bem os teólogos católicos, ser a satisfação parte da penitência, enquanto por ela castiga o pecador em si mesmo o mal que fez. - Éstio.

12Portanto, ainda que vos escrevi, não o fiz por causa do que fêz a injúria, nem por causa do que a padeceu: Mas sim para vos manifestar o nosso cuidado, que de vós temos,

13diante de Deus: Por isso nos havemos consolado. Mas na nossa consolação ainda mais nos havemos alegrado, pela alegria de Tito, vendo que todos vós contribuístes a aliviar-lhe o espírito.

14E se de vós em alguma coisa eu me tenho gloriado com êle, não me envergonho disso: Antes, como tudo que vos temos falado foi com verdade, assim também a gloriosa abonação que de vós fizemos a Tito, se tem achado ser verdade.

15E por isso a sua ternura por vós é cada vez maior: Quando êle se lembra da obediência que vós todos lhe prestastes: De como o recebestes com temor, e tremor.

16Eu me alegro, vendo que tudo me possa prometer de vós.

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Data e lugar em que foi escrita. — Concordam os críticos em que esta Epístola foi escrita pouco depois das precedentes, no ano 57, segundo o maior número. S. Paulo estava na Macedônia, talvez em Filipos, para onde veio depois a perseguição que o obrigou a deixar Éfeso, e ali se encontra com Tito, por quem tem conhecimento do que se passava em Corinto. Em vista das informações prestadas, que eram desfavoráveis, pois que davam conta de inimizades, rixas freqüentes, vaidades mal reprimidas, ambições criminosas, escreveu, pelo muito afeto que consagrava a esta cristandade, a sua segunda Epístola, encarregando o seu próprio discípulo de ser o portador dela para Corinto.

Objeto. — Nesta carta nota-se uma apologia da sua conduta e do seu ministério; apologia moderada, depois franca, e no fim acerada e veemente.

Divisão. — Compreende um prólogo, 1, 14, em que descreve os seus sofrimentos.

Três seções: 1.ª, 1, 15; c. 7, Apologia calma.

2.ª — Digressão sôbre a esmola e mútuo auxílio, cc. 8 e 9.

3.ª — Apologia animada e veemente, cc. 10 e 12.

Nesta Epístola revela S. Paulo o seu judicioso critério e procura: 1.º dissipar qualquer prevenção contra a sua pessoa; 2.º reformar os abusos; 3.º confundir os falsos mestres.

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