Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 3

Diz o Apóstolo que êle não necessita de que alguém o recomende, pois assaz recomendado está pela conversão dos Coríntios. O Novo Testamento é mais digno de honra do que o Velho. Êste causava morte, aquêle da vida. Os judeus lêem a Escritura com um véu sôbre os olhos. Êste véu é tirado pelos que anunciam o Evangelho. A luz, que êles têm, é maior que a de Moisés.

1Começamos de novo a louvar-nos a nós mesmos? ou temos acaso necessidade (como alguns) de cartas de recomendação para vós ou de vós?[1]DE NOVO A LOUVAR-NOS A NÓS MESMOS?O Apóstolo, com o fim de reprimir o orgulho dos seus êmulos, se viu necessitado na carta antecedente e no fim do capítulo que precede, a dizer muitas coisas que redundavam em louvor próprio; como a experiência lhe ensinava, que os seus contrários não deixariam de opor-lhe que dava sentença em causa própria, para prevenir a sua acusação, diz desta sorte: "Farei eu agora o elogio de mim mesmo? ou será necessária uma carta de recomendação, para que saibais quem eu sou, ou que a deis vós, para que o saibam as outras Igrejas?" — S. João Crisóstomo.

2A nossa carta sois vós, escrita em nossos corações, que é reconhecida, e lida por todos os homens.

3Sendo manifesto que vós sois a carta de Cristo, feita pelo nosso ministério, e escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo: Não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne do coração.

4E temos uma tal confiança em Deus por Cristo:

5Não que sejamos capazes de nós mesmos de ter algum pensamento, como de nós mesmos: Mas a nossa capacidade vem de Deus:

6O qual é também o que nos fêz idôneos ministros do Novo Testamento: Não pela letra, mas pelo Espírito: Porque a letra mata, e o Espírito vivifica.

7E se o ministério de morte gravado com letras sôbre pedras, foi acompanhado de tanta glória, de maneira que os filhos de Israel não podiam olhar para o rosto de Moisés, pela glória do seu semblante, a qual era transitória:

8Como não será de maior glória o ministério do Espírito?

9Porque se o ministério da condenação foi glória: De muito maior glória vem a ser o ministério da justiça.

10Porque o que resplandeceu nesta parte, não foi glorioso, à vista da sublime glória.

11Porque se o que se desvanece é reputado por grande glória: De muito maior glória é o que fica permanente.

12Tendo pois uma tal esperança, falamos com muita confiança:

13E não como Moisés, que punha um véu sôbre seu rosto, para que os filhos de Israel não fixassem a vista no seu semblante, cuja glória havia de perecer.

14E assim os sentidos dêles ficaram obtusos. Porque até ao dia de hoje permanece na lição do Antigo Testamento o mesmo véu sem levantar-se, (porque não se tira senão por Cristo)

15pelo que até ao dia de hoje, quando lêem a Moisés, o véu está pôsto sôbre o coração dêles,

16Mas quando se converter ao Senhor, será tirado o véu.

17Ora, o Senhor é Espírito. E onde há o Espírito do Senhor: aí há liberdade.[2]AÍ HÁ LIBERDADEDa mesma sorte que o temor de Deus é o alicerçamento da sã ciência Initium sapientiae est timor Dei, o espírito divino é a melhor garantia de liberdade. O homem que pauta os atos da sua vida pelo espírito de Deus, exalta-se e não se escraviza às suas paixões, aos seus ruins instintos, e os povos que orientam os seus destinos por êsse mesmo, que é o da suprema justiça, inefavel retidão, logram a verdadeira liberdade, que é e será sempre a faculdade de praticar o bem, excluindo o mal. Era êste o espírito que ilustrava aqueles portuguêses que, ao fundarem a nação portuguêsa, exclamavam: Nos liberi sumus, rex noster liber est. Nós queremos ser livres e governados por um rei livre, e conseguintemente responsável perante Deus e perante o povo livre. Expressão que revela o mais alevantado conceito da soberania popular.

18Todos nós pois, registrando à cara descoberta a glória do Senhor, somos transformados de claridade em claridade na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor.

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Data e lugar em que foi escrita. — Concordam os críticos em que esta Epístola foi escrita pouco depois das precedentes, no ano 57, segundo o maior número. S. Paulo estava na Macedônia, talvez em Filipos, para onde veio depois a perseguição que o obrigou a deixar Éfeso, e ali se encontra com Tito, por quem tem conhecimento do que se passava em Corinto. Em vista das informações prestadas, que eram desfavoráveis, pois que davam conta de inimizades, rixas freqüentes, vaidades mal reprimidas, ambições criminosas, escreveu, pelo muito afeto que consagrava a esta cristandade, a sua segunda Epístola, encarregando o seu próprio discípulo de ser o portador dela para Corinto.

Objeto. — Nesta carta nota-se uma apologia da sua conduta e do seu ministério; apologia moderada, depois franca, e no fim acerada e veemente.

Divisão. — Compreende um prólogo, 1, 14, em que descreve os seus sofrimentos.

Três seções: 1.ª, 1, 15; c. 7, Apologia calma.

2.ª — Digressão sôbre a esmola e mútuo auxílio, cc. 8 e 9.

3.ª — Apologia animada e veemente, cc. 10 e 12.

Nesta Epístola revela S. Paulo o seu judicioso critério e procura: 1.º dissipar qualquer prevenção contra a sua pessoa; 2.º reformar os abusos; 3.º confundir os falsos mestres.

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