Capítulo 3
1Começamos de novo a louvar-nos a nós mesmos? ou temos acaso necessidade (como alguns) de cartas de recomendação para vós ou de vós?[1]DE NOVO A LOUVAR-NOS A NÓS MESMOS? — O Apóstolo, com o fim de reprimir o orgulho dos seus êmulos, se viu necessitado na carta antecedente e no fim do capítulo que precede, a dizer muitas coisas que redundavam em louvor próprio; como a experiência lhe ensinava, que os seus contrários não deixariam de opor-lhe que dava sentença em causa própria, para prevenir a sua acusação, diz desta sorte: "Farei eu agora o elogio de mim mesmo? ou será necessária uma carta de recomendação, para que saibais quem eu sou, ou que a deis vós, para que o saibam as outras Igrejas?" — S. João Crisóstomo.
2A nossa carta sois vós, escrita em nossos corações, que é reconhecida, e lida por todos os homens.
3Sendo manifesto que vós sois a carta de Cristo, feita pelo nosso ministério, e escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo: Não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne do coração.
4E temos uma tal confiança em Deus por Cristo:
5Não que sejamos capazes de nós mesmos de ter algum pensamento, como de nós mesmos: Mas a nossa capacidade vem de Deus:
6O qual é também o que nos fêz idôneos ministros do Novo Testamento: Não pela letra, mas pelo Espírito: Porque a letra mata, e o Espírito vivifica.
7E se o ministério de morte gravado com letras sôbre pedras, foi acompanhado de tanta glória, de maneira que os filhos de Israel não podiam olhar para o rosto de Moisés, pela glória do seu semblante, a qual era transitória:
8Como não será de maior glória o ministério do Espírito?
9Porque se o ministério da condenação foi glória: De muito maior glória vem a ser o ministério da justiça.
10Porque o que resplandeceu nesta parte, não foi glorioso, à vista da sublime glória.
11Porque se o que se desvanece é reputado por grande glória: De muito maior glória é o que fica permanente.
12Tendo pois uma tal esperança, falamos com muita confiança:
13E não como Moisés, que punha um véu sôbre seu rosto, para que os filhos de Israel não fixassem a vista no seu semblante, cuja glória havia de perecer.
14E assim os sentidos dêles ficaram obtusos. Porque até ao dia de hoje permanece na lição do Antigo Testamento o mesmo véu sem levantar-se, (porque não se tira senão por Cristo)
15pelo que até ao dia de hoje, quando lêem a Moisés, o véu está pôsto sôbre o coração dêles,
16Mas quando se converter ao Senhor, será tirado o véu.
17Ora, o Senhor é Espírito. E onde há o Espírito do Senhor: aí há liberdade.[2]AÍ HÁ LIBERDADE — Da mesma sorte que o temor de Deus é o alicerçamento da sã ciência Initium sapientiae est timor Dei, o espírito divino é a melhor garantia de liberdade. O homem que pauta os atos da sua vida pelo espírito de Deus, exalta-se e não se escraviza às suas paixões, aos seus ruins instintos, e os povos que orientam os seus destinos por êsse mesmo, que é o da suprema justiça, inefavel retidão, logram a verdadeira liberdade, que é e será sempre a faculdade de praticar o bem, excluindo o mal. Era êste o espírito que ilustrava aqueles portuguêses que, ao fundarem a nação portuguêsa, exclamavam: Nos liberi sumus, rex noster liber est. Nós queremos ser livres e governados por um rei livre, e conseguintemente responsável perante Deus e perante o povo livre. Expressão que revela o mais alevantado conceito da soberania popular.
18Todos nós pois, registrando à cara descoberta a glória do Senhor, somos transformados de claridade em claridade na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor.