Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 12

Refere Paulo as revelações que teve. A necessidade de se defender o obriga a fazê-lo. Remédio, que Deus lhe ensinou, para se não ensoberbecer. O seu amor pelos Coríntios.

1Se importa que alguém se glorie (o que não convém na verdade.): Descerei agora às visões, e às revelações do Senhor.

2Conheço a um homem em Cristo, que catorze anos há foi arrebatado, se foi no corpo não o sei, ou se fora do corpo, também não sei, Deus o sabe, até ao terceiro Céu.

3E conheço a êsse tal homem, se foi no corpo, ou fora do corpo, não o sei, Deus o sabe:

4Que foi arrebatado ao Paraíso: E que ouviu lá palavras secretas, que não é permitido a um homem referir.

5Dêste tal me gloriarei: Mas de mim em nada me gloriarei, senão nas minhas fraquezas.

6Porque, ainda quando me quiser gloriar, não serei insipiente: Porque direi a verdade: Mas deixo isto, para que nenhum cuide de mim fora do que vê em mim, ou ouve de mim.

7E para que a grandeza das revelações me não ensoberbecesse, permitiu Deus que eu sentisse na minha carne um estímulo, que é o anjo de satanás, para me esbofetear.

8Por cuja causa roguei ao Senhor três vezes, que êle se apartasse de mim:

9E então me disse: Basta-te a minha graça: Porque a virtude se aperfeiçoa na enfermidade. Portanto de boa vontade me gloriarei nas minhas enfermidades, para que habite em mim a virtude de Cristo.[1]BASTA-TE A MINHA GRAÇANão foi ouvido Paulo no que expressamente pedia, mas foi ouvido no que implicitamente queria e intentava, que era o seu bem espiritual. Louvado seja o nosso bom Deus, (diz S. Jerônimo na mesma Carta a Paulo) que muitas vêzes não concede o que queremos, para nos dar o que mais quiséramos. Donde se segue que aquela promessa, que Cristo nos fez no Evangelho: «Tudo o que pedirdes a meu Pai em meu Nome, êle vo-lo concederá» — se deve entender necessariamente com esta restrição: Tudo o que pedirdes, que seja conveniente para a vossa salvação. — Éstio.

10Pelo que sinto complacência nas minhas enfermidades, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por Cristo: Porque quando estou enfermo, então estou forte.

11Tenho-me feito insipiente, vós mesmos me obrigastes a isso: Porque eu devia ser louvado de vós: Pois que em nada fui inferior aos mais excelentes Apóstolos: Ainda que eu nada sou:

12Entre vós contudo se tem visto os sinais do meu Apostolado em todo o gênero de tolerância, nos milagres, e nos prodígios, e nas virtudes.

13Porque em que tendes vós sido inferiores às outras igrejas, se não é que em nada vos quis eu mesmo ser pesado? Perdoai-me esta injúria.

14Eis-aqui estou pronto terceira vez a vos ir ver: E também agora vos não gravarei. Porque eu não busco as vossas coisas, mas a vós. Pois que não são os filhos que devem entesourar para os pais, mas os pais para os filhos.

15E eu de mui boa vontade darei o meu, e me darei a mim mesmo pelas vossas almas: Ainda que amando-vos eu mais, seja menos amado.

16Mas seja assim: Eu não vos gravei: Porém, como sou astuto, vos tomei com dolo.

17Porventura enganei-vos por algum daqueles que vos enviei?

18Roguei a Tito, e enviei com êle um irmão. Porventura enganou-vos Tito? Não andamos com o mesmo espírito? Não fomos por umas mesmas pisadas?

19Cuidais há bem tempo que nos escusamos convosco? Deus é testemunha, que em Cristo falamos: E tudo, meus muito amados, para vossa edificação.

20Porque temo que talvez quando eu vier, vos não ache quais vos eu quero: E que vós me acheis qual não quereis: Que por desgraça não haja entre vós contendas, invejas, rixas, dissensões, detrações, mexericos, altivezas, parcialidades:

21Para que não suceda que quando eu vier outra vez, me humilhe Deus entre vós, e que chore a muitos daqueles que antes pecaram, e não fizeram penitência da imundície, e fornicação, e desonestidade, que cometeram.

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Data e lugar em que foi escrita. — Concordam os críticos em que esta Epístola foi escrita pouco depois das precedentes, no ano 57, segundo o maior número. S. Paulo estava na Macedônia, talvez em Filipos, para onde veio depois a perseguição que o obrigou a deixar Éfeso, e ali se encontra com Tito, por quem tem conhecimento do que se passava em Corinto. Em vista das informações prestadas, que eram desfavoráveis, pois que davam conta de inimizades, rixas freqüentes, vaidades mal reprimidas, ambições criminosas, escreveu, pelo muito afeto que consagrava a esta cristandade, a sua segunda Epístola, encarregando o seu próprio discípulo de ser o portador dela para Corinto.

Objeto. — Nesta carta nota-se uma apologia da sua conduta e do seu ministério; apologia moderada, depois franca, e no fim acerada e veemente.

Divisão. — Compreende um prólogo, 1, 14, em que descreve os seus sofrimentos.

Três seções: 1.ª, 1, 15; c. 7, Apologia calma.

2.ª — Digressão sôbre a esmola e mútuo auxílio, cc. 8 e 9.

3.ª — Apologia animada e veemente, cc. 10 e 12.

Nesta Epístola revela S. Paulo o seu judicioso critério e procura: 1.º dissipar qualquer prevenção contra a sua pessoa; 2.º reformar os abusos; 3.º confundir os falsos mestres.

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