Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 6

Que se não deve desprezar o tempo da graça. Paulo honrando o seu Ministério. Exorta os Coríntios a um amor recíproco. Proibe o Matrimônio dos Fiéis com os Infiéis. Os Cristãos são o Templo, o Povo, e os Filhos de Deus.

1E assim nós como coadjutores vos exortamos a que não recebais a graça de Deus em vão.

2Porque êle diz: Eu te ouvi no tempo aceitável, e te ajudei no dia da Salvação. Eis-aqui agora o tempo aceitável, eis-aqui agora o dia da Salvação.

3Não demos a ninguém ocasião alguma de escândalo para que não seja vituperado o nosso ministério.

4Mas em tôdas as coisas nos portemos em nossas mesmas pessoas como ministros de Deus, na muita paciência, nas tribulações, nas necessidades, nas angústias,

5nos açoutes, nos cárceres, nas sedições, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns,

6na castidade, na ciência, na longanimidade, na mansidão, no Espírito Santo, na caridade não fingida,[1]NO ESPÍRITO SANTOIsto é, pelos frutos ou dons do Espírito Santo, como com Éstio expõem os de Mons, Sacy, Calmet, Mesengui. - Pereira.

7na palavra da verdade, na virtude de Deus, pelas armas da justiça, na prosperidade, e na adversidade:

8Por honra, e por desonra, por infâmia, e por boa fama: Como enganadores, ainda que verdadeiros, como os que são desconhecidos, ainda que conhecidos:

9Como morrendo, e eis aqui está que vivemos: Como castigados, mas não amortecidos:

10Como tristes mas sempre alegres: Como pobres, mas enriquecendo a muitos: Como quem não tendo nada, mas possuindo tudo.

11A nossa bôca aberta está para vós, ó Coríntios, o nosso coração se tem dilatado.

12Não estais estreitados em nós: Mas estais apertados nas vossas entranhas:[2]NÃO ESTAISO sentido é: A afeição que eu vos tenho é tão grande, que a todos vos trago no meu coração, mas vós tendes-me tão pouco a mim, que nem lugar tenho no vosso. - Sacy.

13E correspondendo-me vós com igual ternura, eu vos falo como a filhos: Dilatai-vos também vós outros.

14Não vos prendais ao jugo com os infiéis. Porque que união pode haver entre a justiça e a iniqüidade? Ou que comércio entre a luz e as trevas?[3]NÃO VOS PRENDAIS AO JUGO COM OS INFIÉISIsto é, não caseis com êles. É logo proibido por Direito Divino o matrimônio dos fiéis com os infiéis, como dêste texto mostra S. Jerônimo no livro 1 contra Joviniano, cap. 5, e na carta a Ageruchia. E êste é o impedimento dirimente do matrimônio, que os teólogos e canonistas chamam disparidade de culto ou de religião. O que se deve entender, quando o que já era fiel casa com a que ainda é infiel. Porque quando tendo casado ambos sendo infiéis, um se converte à fé, e outro não se converte, este é já outro caso, sobre que o Apóstolo dá outra doutrina na primeira aos Coríntios, capítulo sétimo.

15E que concórdia entre Cristo e Belial? Ou que sociedade entre o fiel e o infiel?

16E que consenso entre o Templo de Deus e os ídolos? Porque vós sois o templo de Deus vivo, como Deus diz: Eu pois habitarei neles, e andarei entre êles, e serei o seu Deus, e êles serão o meu povo.

17Portanto saí do meio dêles, e separai-vos dos tais, diz o Senhor, e não toqueis o que é imundo:

18E eu vos receberei: E ser-vos-ei Pai, e vós sereis para mim filhos, e filhas, diz o Senhor Todo Poderoso.

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Data e lugar em que foi escrita. — Concordam os críticos em que esta Epístola foi escrita pouco depois das precedentes, no ano 57, segundo o maior número. S. Paulo estava na Macedônia, talvez em Filipos, para onde veio depois a perseguição que o obrigou a deixar Éfeso, e ali se encontra com Tito, por quem tem conhecimento do que se passava em Corinto. Em vista das informações prestadas, que eram desfavoráveis, pois que davam conta de inimizades, rixas freqüentes, vaidades mal reprimidas, ambições criminosas, escreveu, pelo muito afeto que consagrava a esta cristandade, a sua segunda Epístola, encarregando o seu próprio discípulo de ser o portador dela para Corinto.

Objeto. — Nesta carta nota-se uma apologia da sua conduta e do seu ministério; apologia moderada, depois franca, e no fim acerada e veemente.

Divisão. — Compreende um prólogo, 1, 14, em que descreve os seus sofrimentos.

Três seções: 1.ª, 1, 15; c. 7, Apologia calma.

2.ª — Digressão sôbre a esmola e mútuo auxílio, cc. 8 e 9.

3.ª — Apologia animada e veemente, cc. 10 e 12.

Nesta Epístola revela S. Paulo o seu judicioso critério e procura: 1.º dissipar qualquer prevenção contra a sua pessoa; 2.º reformar os abusos; 3.º confundir os falsos mestres.

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