Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 11

Deus reservou para si alguns dos judeus. Isto foi pela eleição de Deus, e não pelas obras dos homens. Os outros ficaram na sua cegueira. A sua perda, que deu ocasião a se salvarem os gentios, deve no exemplo dêstes achar o seu remédio. A sua conversão será útil para todo o mundo.

1Digo pois agora: Rejeitou Deus acaso o seu povo? Não por certo. Porque eu também sou israelita, do sangue de Abraão, da tribo de Benjamim.

2Não rejeitou Deus o seu povo, que êle conheceu na sua presciência. Porventura não sabeis vós o que a Escritura refere de Elias? De que modo pede êle justiça a Deus contra Israel?

3Senhor, mataram os teus profetas, derribaram os teus altares: E eu fiquei sozinho, e êles me procuram tirar a vida.

4Mas que lhe disse a resposta de Deus? Eu reservei para mim sete mil homens, que não dobraram os joelhos diante de Baal.

5Do mesmo modo pois ainda neste tempo, segundo a eleição da sua graça, salvou Deus a um pequeno número, que êle reservou para si.[1]SEGUNDO A ELEIÇÃO DA SUA GRAÇAE segundo a eleição gratuita, com que Deus, sem olhar para algumas boas obras, escolheu para si e determinou salvar a um certo número de judeus. Porque, como já advertimos nas notas ao capítulo oitavo, sempre quando se trata da predestinação dos Justos, a refunde S. Paulo na gratuita eleição ou escolha de Deus, e nunca na previsão dos merecimentos futuros.

6E se isto foi por graça, não foi já pelas obras: Doutra sorte a graça já não será graça.

7Que diremos logo? Senão que Israel não conseguiu o que buscava: E que os escolhidos o conseguiram: E que os mais foram obcecados:

8Assim como está escrito: Deus lhes deu um espírito de estupidez: Olhos para que não vejam, e ouvidos para que não ouçam até o presente dia.

9E Davi diz: A mesa dêles se lhes converta em laço, em prisão, e em escândalo, e em paga.

10Escurecidos sejam os olhos dêles para que não vejam: E encurva sempre o seu espinhaço.

11Digo pois: Acaso tropeçaram êles de maneira que caíssem? Não, por certo. Mas pelo pecado dêles, veio a salvação aos gentios, para incitá-los à imitação.

12Porque se o pecado dêles são as riquezas do mundo e o menoscabo dêles as riquezas dos gentios: Quanto mais a plenitude dêles?

13Porque convosco falo, ó gentios: Enquanto eu na verdade fôr Apóstolo das Gentes, honrarei o meu ministério.

14Para ver se de algum modo posso mover à emulação aos da minha nação, e fazer que se salvem alguns dêles.

15Porque se a perda dêles é a reconciliação do mundo: Que será o seu restabelecimento, senão uma vida restaurada dentre os mortos?

16Se as primícias porém são santas, também o é a massa: e se é santa a raiz, também o são os ramos.

17E se alguns dos ramos foram quebrados, e tu, sendo zambujeiro, foste enxertado nêles, e tens sido participante da raiz, e do suco da oliveira,

18não te jactes contra os ramos: Porque se te jactas, tu não sustentas a raiz, mas a raiz a ti.

19Porém dirás: Os ramos foram quebrados, para que eu seja enxertado.

20Bem: Por sua incredulidade foram quebrados. Mas tu pela fé estás firme: Pois não te ensoberbeças por isso, mas teme.[2]MAS TEMEA razão para o temor é a que o Apóstolo dá no verso 22. E a bondade de Deus para contigo se permaneceres na bondade, doutra maneira também tu serás cortado. Dêstes textos, como também de outro aos Flp 2, 12, em que S. Paulo os exorta, a que cuidem em obrar a sua salvação com temor e tremor, se prova manifestamente contra os Calvinistas, que pode o justo perder a fé e descair do estado da graça.

21Porque se Deus não perdoou aos ramos naturais: Deves tu temer que êle te não perdoe a ti.

22Considera pois a bondade, e a severidade de Deus: A severidade por certo para com aquêles que caíram: E a bondade de Deus para contigo, se permaneceres na bondade; doutra maneira também tu serás cortado.

23E ainda êles, se não permanecerem na incredulidade, serão enxertados: Pois Deus é poderoso para enxertá-los de novo.

24Porque se tu foste cortado do natural zambujeiro, e contra a tua natureza foste enxertado em boa oliveira: Quanto mais aquêles que são naturais, serão enxertados na sua própria oliveira?

25Mas não quero, irmãos, que vós ignoreis êste mistério, (para que não sejais sábios em vós mesmos) que a cegueira veio em parte a Israel, até que haja entrado a multidão das gentes.[3]ATÉ QUE HAJA ENTRADOIsto é, até que o povo gentílico tenha entrado na igreja. - Pereira.

26E que assim todo Israel se salvasse, como está escrito: Virá de Sião um que seja libertador, e que desterre a impiedade de Jacó.[4]E QUE ASSIM TODO ISRAEL SE SALVASSEDaqui inferem S. João Crisóstomo, S. Tomás, Caetano e Soto, que depois de convertidos todos os gentios no fim do mundo, também todos os judeus, que até ali eram incrédulos, hão de reconhecer a Jesus Cristo e abraçar a sua fé. Todavia, S. Gregório Magno, e com êle Éstio, o entendem só da maior parte dêles.

27E esta será com êle a minha aliança: Quando eu tirar os seus pecados.

28É verdade que quanto ao Evangelho, êles agora são aborrecidos por vossa causa: Mas quanto à eleição, êles são mui queridos por amor de seus pais.

29Porque os dons, e a vocação de Deus são imutáveis.

30Porque assim como também vós em algum tempo não crêstes a Deus, e agora haveis alcançado misericórdia pela incredulidade dêles:

31Assim também êstes agora não creram na vossa misericórdia.

32Porque Deus a todos encerrou na incredulidade, para usar com todos de misericórdia.

33Ó profundidade das riquezas da sabedoria e da ciência de Deus! Quão incompreensíveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos![5]QUÃO INCOMPREENSÍVEIS SÃO OS SEUS JUÍZOS!Tôda esta exclamação com que o Apóstolo conclui o seu largo discurso sôbre a reprovação dos judeus e vocação dos gentios, mostra bem que até no seu juízo é esta uma matéria superior a tôda a compreensão criada, e que assim tanto da predestinação, como da reprovação dos homens, não se deve buscar a causa na previsão dos merecimentos, mas que tôda ela está na vontade de Deus, na qual se contêm tôdas as suas razões das suas obras. - Éstio.

34Porque quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro?

35Ou quem lhe deu alguma coisa primeiro, para esta lhe haver de ser recompensada?[6]OU QUEM LHE DEU ALGUMA COISA PRIMEIRO?Esta pergunta do Apóstolo basta para fazer emudecer tôda a presunção humana. Aqui está a chave com que se nos patenteia, que o nosso mesmo obrar bem é o nosso mesmo merecer obrando o devemos nós reputar entre os dons gratuitos de Deus: quanto mais o prevenir-nos êle para o bem, e o ajudar-nos para o querer.

36Porque dêle e por êle e nêle existem tôdas as coisas: A êle seja dada glória por todos os séculos. Amém.

↑ topo reporte um problema
📄 PDF
📄 Original