Capítulo 14
1Ao que é pois ainda fraco na fé, ajudai-o, não com debates de opiniões;
2Porque um crê que pode comer de tudo: Outro porém que é fraco não come senão legumes.[1]PORQUE UM CRÊ — Éste era um dos pontos controvertidos, não entre os fiéis judeus e os fiéis gentios, como supõe Martini, mas entre os convertidos do Judaísmo uns com outros, como bem prova Éstio. Os que, pois dentre os judeus estavam plenamente capacitados, pela Redenção feita por Jesus Cristo, ficara de todo abrogada a Lei de Moisés naqueles Preceitos, que não eram da Lei natural, comiam de tudo sem escrúpulo, não fazendo diferença alguma de vianda a vianda. Outros, que não eram tão bem instruídos na plena liberdade que a morte do Redentor trouxera ao mundo, abstinham-se ainda de comer carne e só comiam legumes. Daqui nasciam que os segundos consideravam os primeiros como violadores da Lei e tradição de seus Maiores, e os primeiros tratavam os segundos com desprêzo, reputando-os uns homens ignorantes e materiais. E não só os desprezavam, mas ainda lhes davam ocasião de escândalo, enquanto com o seu exemplo os provocam a comer talvez contra o ditame da própria consciência. Para evitar o dano espiritual que de parte a parte se seguia, é que S. Paulo dirige o presente capítulo.
3O que come, não despreze ao que não come: E o que não come, não julgue ao que come: Porque Deus o recebeu por seu.
4Quem és tu, que julgas o servo alheio? Para seu Senhor está em pé, ou cai: Mas êle estará firme: Porque poderoso é Deus para o segurar.[2]PORQUE PODEROSO É DEUS PARA O SEGURAR — Éste texto está consagrado por todos os Padres e pelo Concílio de Trento, sessão 6, cap. 13, para estabelecer o dom da perseverança.
5Porque um faz diferença entre dia e dia: Outro porém considera iguais todos os dias: Cada um abunde em seu sentido.[3]CADA UM ABUNDE EM SEU SENTIDO — O abuso que desta sentença do Apóstolo fazem os Protestantes, quando dela concluem, que sem razão proíbe a Igreja em certos dias a comida de carne e de laticínios, é um abuso tão grosseiro e de tão má fé que basta qualquer simples reflexão do intento do Apóstolo, para logo o convencer, porque é mais que evidente que S. Paulo não fala senão das abstinências legais, e a Igreja, mui longe de induzir os fiéis a estas observâncias da lei de Moisés, lhes tem absolutamente proibido tôda a prática delas. Nem ela tem outro objeto nas abstinências que lhes impõe, que o de elevar os seus espíritos a Deus e dar-lhes ocasião de merecerem e impetrarem o perdão de seus pecados por meio dêste exercício de penitência, que tão recomendado se acha pelo exemplo dos Varões santos do Velho e Novo Testamento. E assim a liberdade que o Apóstolo aqui dá de comer de tudo ou de se abster de certas viandas, por isso mesmo que é contrária à observância ou não observância de uma lei que já por si não obrigava os fiéis, só se pode trazer em conseqüência nos casos semelhantes, isto é, naqueles casos em que a matéria da ação humana é indiferente ou de sua natureza ou por falta de lei que determine o que se deve fazer. Nos quais casos a regra de obrar com prudência e segurança, é seguir cada um a sua consciência e permitir aos outros que façam o mesmo. - Pereira.
6O que distingue o dia, para o Senhor o distingue: E o que come, para o Senhor come: Porque a Deus dá graças: E o que não come, para o Senhor não come, e dá graças a Deus.
7Porque nenhum de nós vive para si, e nenhum de nós morre para si.
8Porque se vivemos, para o Senhor vivemos: Se morremos, para o Senhor morremos. Logo ou nós vivamos, ou morramos, sempre somos do Senhor.
9Porque por isso é que morreu Cristo, e ressuscitou: Para ser Senhor, tanto de mortos, como de vivos.
10E tu por que julgas a teu irmão? Ou por que desprezas tu a teu irmão? Pois todos compareceremos ante o tribunal de Cristo:[4]E TU — E tu que não comes por que julgas a teu irmão que come?
11Porque escrito está: Por minha vida, diz o Senhor, que ante mim se dobrará todo o joelho: E tôda a língua dará louvor a Deus.
12E assim cada um de nós dará conta a Deus de si mesmo.
13Não nos julguemos pois mais uns aos outros: Antes cuidai bem nisto; em não pordes tropêço, ou escândalo ao vosso irmão.
14Eu sei, e estou persuadido no Senhor Jesus, que nenhuma coisa há imunda de sua natureza, senão para aquele que a tem por tal, para êsse é que ela é imunda:
15Pois se por causa da comida entristeces tu a teu irmão: Já não andas segundo a caridade. Não percas tu pelo teu manjar aquele por quem Cristo morreu.
16Não seja pois blasfemado o nosso bem.
17Porque o reino de Deus não é comida, nem bebida; mas justiça e paz, e gôzo no Espírito Santo.
18E quem nisto serve a Cristo, agrada a Deus, e é aprovado dos homens.
19Pelo que sigamos as coisas que são de paz: E as que são de edificação, guardemo-las, assim uns, como outros.
20Não queiras destruir a obra de Deus por causa da comida: Tôdas as coisas na verdade são limpas: Mas é mau para o homem, que come com escândalo.
21Bom é não comer carne, nem beber vinho, nem coisa em que teu irmão acha tropêço, ou se escandaliza, ou se enfraquece.
22Tu tens fé? pois tem-na em ti mesmo diante de Deus. Bem-aventurado o que não se condena a si mesmo naquilo que aprova.[5]POIS TEM-NA EM TI MESMO DIANTE DE DEUS — Quer dizer o Apóstolo que se um está plenamente persuadido que os cristãos estão desonerados pelo Evangelho das observâncias da lei de Moisés, e que tôdas as viandas são igualmente puras e permitidas aos fiéis, mas ao mesmo tempo vê que obrando segundo esta persuasão em comer de tudo, escandaliza a outro irmão que é mais fraco por menos ilustrado. Deve contentar-se de ter a Deus por testemunha da sua fé e suprimi-la aos olhos do próximo. Não que alguma vez seja lícito negar a fé por palavra ou obra, mas porque nalguns casos pede a prudência e a caridade que a ocultemos.
23Mas o que faz distinção, se comer, é condenado: Porque não come por fé. E tudo o que não é segundo a fé, é pecado.[6]E TUDO O QUE NÃO É SEGUNDO A FÉ — A fé neste lugar do Apóstolo, segundo a interpretação mais comum, toma-se pela consciência, isto é, pela persuasão com que um obra crendo ser lícito o que obra.