Capítulo 6
1Que diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que abunde a graça?
2Deus nos livre, porque uma vez que ficamos mortos ao pecado, como viveremos ainda nêle?
3Vós não sabeis que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte?
4Porque nós fomos sepultados com êle para morrer ao pecado pelo batismo: Para que como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Padre, assim também nós andemos em novidade de vida.
5Porque se nós fomos plantados juntamente com êle à semelhança da sua morte: Sê-lo-emos também igualmente na conformidade da sua ressurreição.
6Sabendo isto, que o nosso homem velho foi crucificado juntamente com êle para que seja destruído o corpo do pecado e não sirvamos jamais ao pecado.[1]SABENDO ISTO, QUE O NOSSO HOMEM VELHO — O homem velho na frase do Apóstolo é a corrupção do pecado, que o homem contraiu em Adão: ou é o mesmo homem, enquanto afeto, ou infeto desta corrupção. E na Epístola aos Efésios, cap. 4, verso 24, opõe o Apóstolo ao homem velho, o homem novo, que é o homem regenerado pela graça a uma nova vida: isto é, a uma vida em que já não reinem as antigas paixões, mas o amor da justiça.
7Porque o que é morto, justificado está do pecado.[2]JUSTIFICADO ESTÁ DO PECADO — Isto é, isento, livre do pecado. - Pereira.
8E se somos mortos com Cristo: Cremos que juntamente viveremos também com Cristo.
9Sabendo, que tendo Cristo ressurgido dos mortos já não morre, nem a morte terá sôbre êle mais domínio.
10Porque enquanto a êle morrer pelo pecado, êle morreu uma só vez: Mas enquanto ao viver, vive para Deus.
11Assim também vós considerai-vos que estais certamente mortos ao pecado, porém vivos para Deus, em nosso Senhor Jesus Cristo.
12Não reine pois o pecado no vosso corpo mortal, de maneira que obedeçais aos seus apetites.
13Nem tão pouco ofereçais os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade: Mas oferecei-vos a Deus, como ressuscitados dos mortos: E os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça.
14Porque o pecado vos não dominará: Pois já não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.[3]POIS JÁ NÃO ESTAIS DEBAIXO DA LEI, MAS DEBAIXO DA GRAÇA — Santo Agostinho (sem cuja lição, como dizia o grande Dominicano Fr. Luiz de Sotto Maior, se não pode entender bem S. Paulo) distingue, segundo a doutrina do Apóstolo, quatro estados, em que o homem se pode considerar: "Antes da lei, debaixo da lei, debaixo da graça, na paz." Não há divisão mais célebre, nem mais frequente em Santo Agostinho. Êle a traz na explicação dalgumas proposições tiradas da Epístola aos Romanos; no comentário sôbre a Epístola aos Gálatas; no livro Da Continência; no Manual a Lourenço; no livro das oitenta e três questões. Como nesta última obra se explica o Santo Doutor mais concisamente, dela transcreverei as suas palavras como elas se acham na questão 66. "O primeiro estado é antes da lei, o segundo debaixo da lei, o terceiro debaixo da graça, e o quarto na paz. O estado antes da lei, é quando nós nos entregamos às concupiscências da carne, sem sabermos que coisa é pecado. O estado debaixo da lei, é quando depois de se nos proibir o pecado, nós não deixamos de o cometer, por estarmos habituados a êle, porque ainda não temos o socorro da fé. O estado debaixo da graça, é quando nós temos uma fé plena e inteira no nosso libertador, e atribuindo tudo à sua misericórdia, e nada aos nossos merecimentos, nós resistimos aos deleites daquele mau hábito, que nos incita ao pecado, e não somos mais dêle vencidos, ainda que sem nos podermos desfazer das suas importunas solicitações. O estado na paz, é quando já não há nada no homem que resista ao espírito, o que sucederá quando o nosso corpo mortal fôr revestido da Imortalidade." Segundo esta explicação de Santo Agostinho à frase de S. Paulo, dizem-se estar "debaixo da lei", aquêles que vivem debaixo do jugo da lei de Moisés, considerada nua e pura, isto é, sem a fé, e sem a graça de Jesus Cristo, que êles não conhecem, e sem as quais é forçoso que êles se deixem arrastar e vencer da concupiscência carnal. E pelo contrário dizem-se estar "debaixo da graça" aquêles que, pela fé e graça do Salvador, têm, ou esperam ter, a verdadeira justiça, ou êles vivam adstritos à lei de Moisés, ou não vivam. Por onde os justos do testamento velho, ainda que obrigados a guardar a lei de Moisés, não estavam debaixo da lei, mas debaixo da graça.
15Pois que? Pecaremos, porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça? Deus tal não permita.
16Não sabeis que seja qual fôr ou a quem vos ofereceis por servos para lhe obedecer, ficais servos do mesmo a quem obedeceis, ou do pecado para a morte, ou da obediência para a justiça?
17Porém graças a Deus, que fostes servos do pecado, e haveis obedecido de coração àquela forma de doutrina, a que tendes sido entregues.
18E libertados do pecado, haveis sido feitos servos da justiça.
19Humanamente falo, atendendo à fraqueza da vossa carne: Que assim como para a maldade oferecestes os vossos membros para que servissem à imundícia e à iniquidade, assim para santificação oferecei agora os vossos membros para que sirvam a justiça.
20Porque quando éreis escravos do pecado, fostes livres da justiça.
21Que fruto pois tivestes então naquelas coisas, de que agora vos envergonhais? Pois o fim delas é morte.
22Mas agora que estais livres do pecado, e que haveis sido feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto em santificação, e por fim a vida eterna.
23Porque o estipêndio do pecado é a morte. Mas a graça de Deus é a vida perdurável em nosso Senhor Jesus Cristo.