Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 4

Abraão justificado pela fé, ainda antes de circuncidado. A sua circuncisão foi um sinal da sua fé. As promessas foram feitas a Abraão não pela lei, mas pela fé. A justiça da fé vem da graça. A fé fez a Abraão pai de todos. Êle creu contra o que se lhe representava que devia esperar. A sua fé lhe foi imputada a justiça. Ela o será também aos que o imitarem.

1Que vantagem diremos pois ter achado Abraão, nosso pai segundo a carne?

2Porque, se Abraão foi justificado pelas obras, tem êle que se gloriar, mas não diante de Deus.[1]SE ABRAÃO FOI JUSTIFICADOSe Abraão neste estado tivera devido a sua justificação às suas obras, tivera sido o autor dêle sem que a graça de Deus tivesse feito nada; ou se tivesse tido parte, houvera sido com dependência da vontade de Abraão, que nesta hipótese devia considerar-se como o primeiro princípio, e por assim dizer a causa determinante. - S. Tomás.

3Que diz pois a Escritura? Abraão creu em Deus: E isto lhe foi imputado à justiça.

4E ao que trabalha, não se lhe imputa salário como favor, mas como dívida.

5Mas ao que não obra, e crê naquêle que justifica o ímpio, à sua fé lhe é imputada a justiça, segundo o decreto da graça de Deus.

6Como também Davi declara a bem-aventurança do homem, a quem Deus atribui justiça sem obras:

7Bem-aventurados aquêles, cujas iniquidades foram perdoadas, e cujos pecados têm sido cobertos.

8Bem-aventurado o varão, a quem o Senhor não imputou pecado.

9Ora, esta bem-aventurança está sòmente na circuncisão, ou também no prepúcio? Porquanto dizemos que a fé foi imputada a Abraão a justiça.

10Como lhe foi ela pois imputada? depois da circuncisão, ou antes da circuncisão? Não foi depois da circuncisão, mas sim antes da circuncisão.

11E recebeu o sinal da circuncisão, como sêlo da justiça que tinha adquirido pela fé, quando incircunciso, a fim de que fôsse pai de todos os crentes incircuncisos, a fim de que também a êles lhes seja imputada a justiça:

12E seja pai da circuncisão, não sòmente àquêles que são circuncidados senão também aos que seguem as pisadas da fé, que teve nosso pai Abraão antes de ser circuncidado.

13Porque a promessa a Abraão, ou à sua posteridade, de que seria herdeiro do mundo, não foi pela lei: Mas pela justiça da fé.

14Porque se os da lei é que são os herdeiros, fica aniquilada a fé, sem valor a promessa.

15Porque a lei provoca a cólera. Porquanto onde não há lei, não há transgressão.[2]PORQUE A LEI PROVOCA A CÓLERAEsta expressão, à primeira vista obscura, significa que a lei tem como resultado o castigo, não a graça nem a salvação. Operatur iram occasionaliter tamen non ex se, efficaciter. Cfr. Lc 2, 34; Rom 7, 7-13, 2 Cor 2, 16. Em direito, todo aquêle que viola uma lei incorre numa pena imposta à transgressão. Mas de fato todos os submetidos à lei mosaica transgrediram-na mais ou menos. Por isso duas consequências deduz o Apóstolo: - 1.º A lei só não tornou os homens justos, mas multiplicou as transgressões e tornou-os mais devedores para com a justiça divina. Isto não provém de que a lei seja má, nem que arraste ao mal, de contrário, mas nós é que somos fracos, e de tal sorte inclinados ao pecado, que nem as penas, nem o temor dos castigos inerentes às infrações da lei nos demovem de a transgredir. - 2.º Se as promessas feitas a Abraão tivessem por condição indispensável a observância rigorosamente exata e perfeita da lei do Sinai, esta promessa jamais seria realizada.

16Em consequência do que pela fé é que são os herdeiros, a fim de que por graça a promessa seja firme a tôda a sua posteridade, não sòmente ao que é da lei, senão também ao que é da fé de Abraão, que é pai de todos nós,[3]QUE É PAI DE TODOS NÓSPai de todos os crentes pela imitação, e seguimento da sua fé.

17(Como está escrito: Eu pois te constituí pai de muitas gentes) diante de Deus, a quem havia crido, o qual dá vida aos mortos, e chama às coisas que não são, como as que são.[4]EU POIS TE CONSTITUÍNo sentido literal e histórico foi Abraão pai de muitas nações por Ismael, por Isaac, e pelos outros filhos que teve de Cetura. Mas no sentido moral e profético havia Abraão de vir a ser pai de muitas nações, pela conversão do gentilismo à fé de Jesus Cristo. - Calmet.

18Êle creu em esperança contra a esperança, que seria pai de muitas gentes, segundo o que se lhe havia dito: Assim será a sua descendência.

19E não fraqueou na fé, nem considerou o seu próprio corpo amortecido, sendo já de quase cem anos: Nem que a virtude de conceber se achava extinta em Sara.

20Não hesitou ainda com a mais leve desconfiança na promessa de Deus, mas foi fortificado pela fé, dando glória a Deus.

21Tendo por muito certo, que também é poderoso para cumprir tudo quanto prometeu.

22Por isso lhe foi também imputado a justiça.

23E não está escrito sòmente por êle, que lhe foi imputado a justiça:

24Mas sòmente por nós, a quem será imputado, se cremos naquêle que ressurgiu dos mortos, Jesus Cristo nosso Senhor.

25O qual foi entregue por nossos pecados, e ressuscitou para nossa justificação.[5]O QUAL FOI ENTREGUE POR NOSSOS PECADOSS. Paulo faz esta distinção para pôr em evidência as relações que existem entre a vida do cristão e a de Jesus Cristo. Assim a morte do Homem Deus é a figura mais natural da destruição do homem velho, aferrado ao mundo, ilaqueado pelas suas seduções, crucificado às suas paixões; e a ressurreição à imagem do homem novo, quebrando os liames que o acorrentavam ao mal, surgindo do sepulcro da hipocrisia e do egoísmo; ressuscitando para o bem e para a justiça e para o Céu; duplo caráter da vida cristã, duplo efeito da graça do Salvador no Sacramento da regeneração. Quia affectus habet aliquam similitudinem causae, mortem Christi, qua extincta est in eo mortalis vita, Apostolus dicit esse causam extinctionis peccatorum nostrorum, resurrectionem autem ejus, qua reddit ad novam vitam gloriae, dicit esse causam justificationis nostrae per quam redimus ad novitatem justitiae. - S. Tomás, In Rom 4, 25. Cfr. p.p. 39, 49 e 53.

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