Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 9

Aflige-se Paulo com a perdição dos judeus. Ela não frustra as divinas promessas, porque o objeto das promessas de Deus são os filhos de Abraão segundo a eleição, e não segundo a carne. Isaac e Jacó foram os filhos da promessa, e não Ismael, nem os outros. Deus é senhor das suas misericórdias. Êle endurece a quem quer. O que era povo seu, deixa de o ser, e o que não era, vem a ser seu povo. Os judeus com a lei perderam-se, os gentios pela fé em Jesus Cristo salvaram-se.

1Eu digo a verdade em Cristo, não minto: Dando-me testemunho a minha consciência no Espírito Santo:

2Que tenho grande tristeza, e contínua dor no meu coração.

3Porque eu mesmo desejara ser anátema por Cristo, por amor de meus irmãos, que são do mesmo sangue que eu segundo a carne.[1]SER ANÁTEMA POR CRISTOO Latim e o Grego diz anátema esse: que vertido à letra soaria ser excomungado. Porque isso significa em ambas as línguas o nome anátema, o qual nas Escrituras se costuma tomar pela pessoa ou coisa apartada do uso e trato dos homens, não como sagrada mas como execrável e digna de exterminar. (Num 21, 3; Jos 6, 17). E assim na frase dos Cânones da Igreja o mesmo é dizer, seja anátema, que seja separado da sociedade dos Fiéis, separado dos Sacramentos, que é o que por uma só palavra chamamos excomungado. Como pois o ser separado de Jesus Cristo soa ser separado do amor, da companhia, da glória de Jesus Cristo, e ficar réu de pena eterna, e êste desejo, sendo absoluto, parece que pugna com as regras da Fé e da Moral Cristã, quanto mais com as luzes e santidade de um Paulo; tem Éstio e Duhamel por mais provável, que as palavras do Apóstolo se devem considerar uma hipérbole, com que êle quis exagerar quanto sentia no seu coração, e quão deveras desejava poder evitar a perdição de seus irmãos.

4Que são os israelitas, dos quais é a adoção de filhos, e a glória, e a aliança, e a legislação, e o culto e as promessas:

5Cujos pais são os mesmos, de quem descende também Cristo segundo a carne, que é Deus sôbre tôdas as coisas, bendito por todos os séculos, Amém.

6E não que a palavra de Deus haja faltado. Porque nem todos os que são de Israel, êstes tais são israelitas.

7Nem os que são linhagem de Abraão, todos são seus filhos: Mas de Isaac sairá uma estirpe que há de ter o teu nome:

8Isto é, não os que são filhos da carne, esses tais são filhos de Deus: Mas os que são filhos da promessa, se reputam descendentes.

9Porque a palavra da promessa é esta: Por êste tempo virei: E Sara terá um filho.

10E não sòmente ela: Mas também Rebeca de um ajuntamento que teve com Isaac, nosso pai, concebeu.

11Porque não tendo êles ainda nascido, nem tendo ainda feito bem, ou mal algum (para que o decreto de Deus ficasse firme segundo a sua eleição),

12não por respeito às suas obras, mas por causa da vocação de Deus, lhe foi dito a ela.

13O mais velho pois servirá ao mais moço, segundo o que está escrito: Eu amei a Jacó, e aborreci a Esaú.

14Pois que diremos? Há porventura em Deus injustiça? É certo que não.

15Porque êle disse a Moisés: Eu terei misericórdia com quem me aprouver ter misericórdia: E terei piedade com quem me aprouver ter piedade.

16Logo isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de usar Deus da sua misericórdia.

17Porque, diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo pois eu te levantei, para mostrar em ti o meu poder: E para que seja anunciado o meu nome por tôda a terra.

18Logo êle tem misericórdia de quem quer, e ao que quer endurece.[2]LOGO ÊLE TEM MISERICÓRDIASanto Agostinho na Epístola a Xisto, num. 3. Buscamos o merecimento da obduração e achamo-lo, porque pelo merecimento do pecado incorreu na condenação tôda a massa do gênero humano, nem Deus endurece, inspirando a malícia, mas não dando a graça. Buscamos o merecimento da misericórdia, e não achamos nenhum, porque não há nenhum. E isto para que se não evacue a graça, se a misericórdia se não dá gratuitamente, mas como prêmio dos merecimentos.

19Nêstes têrmos dir-me-ás tu agora. De que se queixa êle ainda? Porquanto, quem é o que resiste à sua vontade?[3]NÊSTES TÊRMOSPropõe o Apóstolo esta objeção em nome de um judeu obstinado. Se é verdade que Deus tem abandonado a nossa Nação à incredulidade, e que êle a não quis chamar eficazmente à fé de Jesus Cristo, por que se queixa êle de nós sermos incrédulos, como se dependesse de nós não o sermos? Porque quem há que resista à sua vontade? Como poderemos nós não ser incrédulos, pois que êle resolveu não nos dar a fé, e ninguém pode resistir ao que êle uma vez decretou? - Sacy.

20Mas, ó homem, quem és tu, para replicares a Deus? Porventura o vaso de barro diz a quem o fez: Por que me fizeste assim?[4]MAS Ó HOMEM, QUEM ÉS TU, PARA REPLICARES A DEUS?Porventura o vaso de barro, etc. Santo Tomás na lição 4, diz assim: Duas questões se podem fazer sôbre a eleição dos Santos, e reprovação dos ímpios. Uma geral e absoluta. Donde vem querer Deus endurecer a uns e usar de misericórdia com outros. Outra especial e comparativa. Porque quer Deus usar de misericórdia com êste e endurecer aquêle. Da primeira questão pode-se dar razão, mas da segunda não se pode dar outra senão únicamente ser assim vontade de Deus. Ora S. Paulo não responde à segunda questão senão nos versos 22 e 23. Mas à primeira responde êle logo no verso 20, com um texto de Isaías no capítulo 45, verso 9, que diz assim: Porventura o vaso de barro diz a quem o fez: Por que me fizeste tu assim? Sôbre o que se deve considerar: Que se um artífice faz um vaso formoso e próprio a empregar-se em usos nobres, de uma matéria vil, tudo o que êste vaso tem de excelente, se atribui à bondade do artífice. Porém se de uma matéria vil, como é a terra, faz êle um vaso para servir em usos vis, se êste vaso tivesse inteligência, não poderia queixar-se de quem o fizera, mas poderia queixar-se de alguma sorte, se a matéria, em que trabalhou o artífice, fôsse uma matéria de grande preço, como é o ouro e as pedras preciosas. Ora a natureza humana é vil pela sua matéria, pois o homem foi formado por Deus do limo da terra, e ainda é muito mais vil pela corrupção do pecado, que de um se transfundiu por todos. Por esta razão tudo o que tem de bom, deve o homem atribuir à bondade divina como à habilidade do artífice. E assim ou Deus exalte o homem ou o deixe na sua baixeza e o destine a usos vis, a nenhum faz Deus injustiça, e nenhum tem direito para se queixar dêle. Da mesma sorte pois que o oleiro, que trabalha numa matéria vil, pode, sem que haja lugar para a queixa, formar da mesma massa desta vil matéria um vaso de honra, isto é, destinado a usos nobres, e outro de ignomínia, isto é, destinado a usos vis; assim também é livre a Deus formar da mesma matéria do gênero humano, corrompida pelo pecado, como de uma vil matéria, uns homens preparados para a glória, outros deixados na sua miséria, sem que alguém se possa queixar, que êle lhe faz injúria.

21Acaso não tem poder o oleiro para fazer por certo de uma mesma massa um vaso para honra e outro para ignomínia?

22Do que te não deves queixar, se querendo Deus mostrar a sua ira e fazer manifesto o seu poder, sofreu com muita paciência os vasos de ira, aparelhados para a morte.

23A fim de mostrar as riquezas da sua glória sôbre os vasos de misericórdia, que preparou para a glória.

24Os quais somos nós, a quem êle também chamou não só dos judeus, mas ainda dos gentios.

25Assim como êle diz em Oséias: Chamarei povo meu ao que não era meu povo: E amado, ao que não era amado: E que alcançou misericórdia, ao que não havia alcançado misericórdia.

26E acontecerá isto: No lugar em que lhes foi dito: Vós não sois povo meu: Ali serão chamados filhos de Deus vivo.

27E pelo que toca a Israel, dêle clama Isaías: Se fôr o número dos filhos de Israel como a areia do mar, as relíquias serão salvas.

28Porquanto a palavra será consumadora e abreviadora em justiça: Porque o Senhor fará abreviada a palavra sôbre a terra:[5]PORQUANTO A PALAVRA SERÁ CONSUMADORAComo se dissera: Deus consumará e abreviará a palavra, isto é, o negócio; convém a saber, fará breve, isto é, pequeno o número dos fiéis de Israel. - Menóchio.

29E assim como predisse Isaías: Se o Senhor dos exércitos nos não tivera deixado alguns da nossa geração, estaríamos nós feitos semelhantes a Sodoma e tais como Gomorra.

30Que diremos, pois? Que os gentios, que não seguiam a justiça, abraçaram a justiça, e a justiça que vem da fé.

31Mas Israel, que seguia a lei da justiça, não chegou à lei da justiça.

32Por que causa? Porque não pela fé, mas como se ela se pudesse alcançar pelas obras: Porque tropeçaram na pedra do tropêço,

33conforme o que está escrito: Eis aí ponho eu em Sião o que é a pedra do tropêço, e a pedra de escândalo, e todo aquêle que crê nêle não será confundido.

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