Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 5

A justiça adquirida pela fé nos faz esperar a glória de filhos de Deus. Jesus Cristo, que morreu pelos ímpios, salvar-nos-á, sendo justos. Todos são mortos em Adão, e todos viverão por Jesus Cristo. A sua graça é mais abundante do que o pecado.

1Justificados pois pela Fé, tenhamos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo:

2Pelo qual temos também acesso pela Fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória dos filhos de Deus.

3E não sòmente nesta esperança, mas também nas tribulações nos gloriamos: Sabendo que a tribulação produz paciência:

4E a paciência experiência, e a experiência esperança.

5E a esperança não traz confusão: Porque a caridade de Deus está derramada em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi dado.

6A que fim pois, quando nós ainda estávamos enfermos, morreu Cristo, no tempo prescrito por uns ímpios?

7Porque apenas há quem morra por um justo, ainda que algum se atreva talvez a morrer por um bom.[1]PORQUE APENASMostra o Apóstolo a fineza da Redenção dos homens por Jesus Cristo, observando, que quando dificultosamente se acha no mundo quem dê a vida por um homem benéfico, quando ainda é mais raro achar-se quem dê a vida por um homem justo, foi contudo tão intenso, tão extremoso o amor de Deus para com os homens, que sendo êstes maus, sendo ingratos, sendo pecadores, quis êle morrer pelos homens, e livrá-los com a sua morte da condenação eterna.

8Mas Deus faz brilhar a sua caridade em nós: Porque ainda quando éramos pecadores em seu tempo,

9morreu Cristo por nós: Pois muito mais agora, que somos justificados pelo seu sangue, seremos salvos da ira por êle mesmo.

10Porque se, sendo nós inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho: Muito mais estando já reconciliados, seremos salvos por sua vida.

11E não só fomos reconciliados: Mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por quem agora temos recebido a reconciliação.

12Portanto assim como por um homem entrou o pecado neste mundo, e pelo pecado a morte, assim passou também a morte a todos os homens por um homem, no qual todos pecaram.[2]NO QUAL TODOS PECARAMSem que pretendamos fazer a história dos êrros contra a doutrina do pecado original desde os Gnósticos, Maniqueus, Pelagianos, protestantes, etc., não podemos deixar de fazer referência ao artigo de Janet, publicado na Revue des Deux mondes, sôbre o pecado original escrito em têrmos violentos, como se pode deduzir desta passagem "Quant à cette justice qui punit les innocents pour les coupables et declare coupable celui qui n'a pas encore agi, c'est la VENDETTA barbare, ce n'est pas la justice des hommes éclairés"; noutra passagem declara que "à moins d'admettre la préexistence des âmes ou une sorte de pantheisme humanitaire, on ne peut pas comprendre cette expression theologique: tous les hommes ont pêché en Adam." A combater o impugnador do pecado original apareceu um lutador impertérrito Mgr. Elias Meric, com um opúsculo intitulado La Chute originelle et la responsabilité humaine. Paris 1885. A moderna teoria ortodoxa sôbre o pecado original e acêrca dêste texto pode resumir-se no seguinte: Adão pecou, transgredindo uma lei que lhe fôra solenemente imposta; por êste ato foi despojado de todos os dons, que êle fruía nesse estado de justiça por privilégio divino; ficou privado de todos os dons sobrenaturais com que havia sido graciosamente enriquecido. Nós nascemos de Adão depois da culpa, portanto depois de êle ter perdido todos êsses favores, todos êsses auxílios, todos êsses dons, conseguintemente privados de herdar o que êle já não possuía. Assim nós não afirmamos em Adão um ato mau, e em todos os demais homens um estado de indigência, que se concatena pela solidariedade do sangue e da alma ao pai da raça humana; é para explicar esta solidariedade que os teólogos repetem: - todo o homem pecou em Adão. - Nunca a Igreja ensinou que nós cooperássemos na falta adâmica, e cometêssemos, ao nascer, uma falta original; tão longe foi que condenou os que diziam que o homem devia fazer penitência tôda a vida pelo pecado original. Tal afirmação estaria em contradição com o ensino dos teólogos. São claras as palavras de S. Tomás: Peccatum originale non esse actionem quandam, quae maxime spectat ad personam; sed esse privationem rectitudinis et sanctitatis. E assim o asserto de Janet, que já Bayle havia formulado: Il est évident qu'une créature qui n'existe pas ne saurait être complice d'une action mauvaise, nada tem que ver com o ensinamento católico acêrca do dogma do pecado original, que não ofende nem os atributos de Deus nem os mais respeitáveis direitos do coração humano. Muito menos razão de ser tem a afirmativa de Janet quando diz: le dogme du pêché originel est un dogme barbare. Sê-lo-ia se o ensinamento católico propusesse o que Janet inculca, ou o que queriam os jansenistas e os falsos místicos que, desnaturando a doutrina do pecado original, transformavam Deus num carrasco injusto e indomável, e o homem num ser essencialmente corrupto e degradado. Mas nós cremos com S. Tomás e com os teólogos da melhor nomeada, que Deus retirou a Adão, em castigo da sua culpa, os dons gratuitos que lhe havia comunicado, e que por título algum poderia exigir de Deus, da mesma sorte que nós não temos título algum para também os reclamar. Acreditamos que a geração nos faz nascer com uma natureza idêntica à de Adão. Ora, a natureza adâmica tendo sido despojada da justiça original, nós nascemos como ela, carentes dessa justiça, e isto é o que chamam culpa original. Estamos privados de dons gratuitos e sobrenaturais, e a tal privação não pode ser nunca uma punição bárbara. Nós só podemos reclamar aquilo a que temos direito, nunca dons gratuitos ou favores sobrenaturais. Onde está a barbaridade da privação dum favor? Essa privação não aniquilou por completo a bondade no homem, em que pese aos jansenistas. Lá o está afirmando o Velho com o Novo Testamento. Os Salmos celebram as belezas do homem e da terra. Sl 8, 18; 19, 29; 30, 33. Os Atos lembram-nos que o homem caído ainda é uma criatura de origem divina 17, 29. S. Paulo e São Tiago não cessam de repetir que o homem é a imagem de Deus. A privação dos dons e do estado da justiça original tornam-no fraco, propenso para a culpa, sujeito à dor e ao êrro, carece agora de lutar, de trabalhar para merecer de se vencer a si mesmo, mas não desapareceram as energias para o bem, nem a faculdade de atingir a perfeição e lograr a felicidade celeste.

13Porque até à lei o pecado estava no mundo: Mas não era imputado o pecado, quando não havia lei.[3]NÃO ERA IMPUTADO O PECADOA Lei de que fala o Apóstolo é a Lei escrita, a lei de Moisés. O dizer, pois, que havia no mundo o pecado, mas que êste não se imputava, porque não havia ainda lei, deve-se entender no sentido em que êle dissera no Capítulo 4, verso 15: Que onde não há lei, não há transgressão da lei. Não se imputava pois o pecado como transgressão da lei escrita. Ainda que êle certamente se imputava, como transgressão da lei natural, que logo existiu com o primeiro homem.

14Entretanto reinou a morte desde Adão até Moisés, ainda sôbre aquêles que não pecaram por uma transgressão semelhante à de Adão, o qual é figura do que havia de vir.[4]O QUAL É FIGURA DO QUE HAVIA DE VIRIsto é, figura do Messias, futuro, ou figura de Jesus Cristo, a quem por isso o mesmo Apóstolo em outro lugar chama o segundo Adão. A figura porém consiste particularmente, segundo o sentido do Apóstolo, em que Adão é a cabeça natural de todos os homens pecadores, bem como Jesus Cristo é a cabeça espiritual de todos os Fiéis, e em que Adão na qualidade de pecador, comunicou efeitos do seu pecado a todos os seus descendentes por meio da geração carnal, bem como Jesus Cristo soberanamente justo, comunica a sua graça, e a sua justiça a todos os Fiéis pela regeneração do batismo.

15Mas não é assim o dom como o pecado: Porque se pelo pecado de um morreram muitos: Muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça de um só homem, que é Jesus Cristo, abundou sôbre muitos.

16E não foi assim o dom como o pecado por um: Porque o juízo na verdade se originou de um pecado para condenação: Mas a graça procedeu de muitos delitos para a justificação.

17Porque se pelo pecado de um, reinou a morte por um só homem: Muito mais reinarão em vida por um só, que é Jesus Cristo, os que recebem a abundância da graça, e do dom e da justiça.

18Pois assim como pelo pecado de um só, incorreram todos os homens na condenação: Assim também pela justiça de um só, recebem todos os homens a justificação da vida.

19Porque assim como pela desobediência de um só homem, foram muitos feitos pecadores: Assim também pela obediência de um só, muitos se tornarão justos.

20E sobreveio a lei para que abundasse o pecado. Mas onde abundou o pecado, superabundou a graça.[5]PARA QUE ABUNDASSE O PECADONão porque a lei faça o pecado, ou o intente, mas porque, por uma parte, onde não há lei, não há transgressão da lei, como assim ouvimos ao Apóstolo, e por outra parte, onde falta a graça, dá a lei ocasião a muitos pecados, enquanto com a sua mesma proibição acende a nossa concupiscência. Ubi non est gratia liberatoris, auget peccandi desiderium prohibitio peccatorum, diz Santo Agostinho no Livro das Oitenta e Três Questões, Questão 66, n.º 1. E na Exposição do Salmo 83, discorre assim o mesmo Santo Doutor: A Lei foi dada ao homem, para converter o homem, e para o fazer confessar, que êle estava enfêrmo então mesmo quando o homem cria que estava são. Foi-lhe dada para lhe fazer ver o seu pecado, e não para o curar. E que produziu nêle o conhecimento do seu pecado? Aumentou-se mais o pecado, cobrou o pecado novas fôrças; de sorte que quando antes era o homem pecador, depois tornou-se o homem prevaricador.

21Para que assim como o pecado reinou para a morte: Assim reina também a graça pela justiça para a vida eterna, por meio de Jesus Cristo nosso Senhor.

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