Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 7

Nós somos absoltos da lei pela morte de Jesus Cristo. A lei aumenta o pecado. Jesus Cristo no-lo faz conhecer. Ela não é a causa de crescer o pecado. As paixões do justo pelejam contra êle. Êle não faz o bem que deseja. A graça nos há de livrar dêste cativeiro.

1Porventura ignorais vós, irmãos, (falo pois com os que sabem a Lei), que a lei só tem domínio sôbre o homem, por quanto tempo êle vive?

2Porque a mulher que está sujeita ao marido, enquanto vive o marido, atada está à lei: Mas se morrer seu marido, solta fica da lei do marido.

3Logo se, vivendo o marido, fôr achada com outro homem, será chamada adúltera: Mas se morrer seu marido, livre fica da lei do marido: de maneira que não é adúltera se estiver com outro marido.

4Pelo que, irmãos meus, também vós estais mortos à lei pelo corpo de Cristo: Para que sejais de outro, do que ressuscitou dentre os mortos, a fim de que demos fruto a Deus.

5Porque enquanto estávamos na carne, as paixões dos pecados, que havia pela lei, obravam em nossos membros, para darem fruto à morte:

6Mas agora soltos estamos da lei da morte, na qual estávamos presos, de sorte que sirvamos em novidade de espírito, e não na velhice da letra.

7Que diremos logo? É a lei do pecado? Deus nos livre de tal cuidarmos. Mas eu não conheci o pecado, senão pela lei: Porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissera: Não cobiçarás.

8E o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, obrou em mim tôda a concupiscência, porque sem a lei o pecado estava morto.

9E eu nalgum tempo vivia sem lei. Mas quando veio o mandamento, reviveu o pecado.

10E eu sou morto: O mandamento que me era para vida, êsse foi achado que me era para morte.

11Porque o pecado tomando ocasião do mandamento, me enganou, e me matou pelo mesmo mandamento.

12Assim que a lei é na verdade santa, e o mandamento é santo e justo e bom.

13Logo, o que é bom se tem feito morte para mim? Não por certo. Mas o pecado, para se mostrar pecado, produziu em mim a morte por bem: A fim de que o pecado se faça excessivamente pecador pelo mandamento.

14Porque sabemos que a lei é espiritual: Mas eu sou carnal, vendido para estar sujeito ao pecado.

15Porque eu não compreendo o que faço: Porque não faço êsse bem que quero: Mas o mal que aborreço, êsse é que faço.[1]PORQUE EU NÃO COMPREENDOS. Paulo, neste e nos versículos seguintes até ao 17, parece contradizer o que adiante afirma no 6, 4, dizendo que o pecado não dominará mais; mas esta contradição não é senão aparente. Com efeito o Apóstolo reconhece dois cativeiros que nos prendem: o dos sentidos, que contraem o hábito de preferir o prazer ao dever; o da vontade, que considera bom e preferível o que nos lisonjeia os sentidos. A Graça divina livra-nos dêste segundo cativeiro que é o único real, pois o primeiro é a fragilidade da natureza, não é absolutamente um mal. Cette intime Grâce du Sauveur nous laisse en contraste à la première, il n'est pas un mal mais une fragilité, et c'est ce qui signifient ces mots: Ce n'est plus moi qui fais cela, mais le pêché qui habite en moi, v. 17. Nota de Vigouroux na Sainte Bible de Glaire. - 1902.

16Se eu porém faço o que não quero: Consinto com a lei, tendo-a por boa.

17E neste caso não sou eu já o que faço isto, mas sim o pecado que habita em mim.

18Porque eu sei que em mim, quero dizer na minha carne, não habita o bem. Porque o querer o bem, eu o acho em mim: Mas não acho o meio de o fazer perfeitamente.[2]QUERO DIZER, NA MINHA CARNENote-se que na frase de S. Paulo, se toma a carne por todo o homem, enquanto carnal, isto é, enquanto que Adão corrupto nasce êle corrupto. - Éstio.

19Porque eu não faço o bem que quero. Mas faço o mal que não quero.

20Se eu porém faço o que não quero, não sou eu já o que faço, mas é sim o pecado que habita em mim.

21Portanto querendo eu fazer o bem, acho a lei de que o mal reside em mim.

22Porque eu me deleito na Lei de Deus, segundo o homem interior.[3]HOMEM INTERIORSignifica a razão e a inteligência esclarecidas pela Graça.

23Mas sinto nos meus membros outra lei, que repugna à lei do meu espírito, e que me faz cativo na lei do pecado, que está nos meus membros.

24Infeliz homem eu, quem me livrará do corpo desta morte?[4]INFELIZ HOMEM EUExclamação de quem geme debaixo do jugo, e servidão do pecado, segundo a carne, e de quem anela a liberdade, que só se alcançará no Céu. - Éstio. Quem me livrará do corpo desta morte? - O corpo da morte, em frase dos hebreus, é o corpo mortal. - Éstio.

25A graça de Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. Assim que eu mesmo sirvo à lei de Deus segundo o espírito, e sirvo à lei do pecado, segundo a carne.

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