Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 10

Envia Jesus Cristo os doze discípulos a pregar, instrui-os. Descrevem-se os seus nomes. Exorta-os a padecer e sofrer. Diz-lhes que não viera ao mundo trazer paz, mas trazer guerra. Que é necessário confessá-lo diante dos homens, e prezar mais do que tudo o seu nome. Que o que honra aos seus servos, a êle honra e dêle terá a recompensa.

1Então, convocados os seus doze discípulos, deu-lhes Jesus poder sôbre os espíritos imundos, para os expelirem, e para curarem tôdas as doenças, e tôdas as enfermidades.

2Ora os nomes dos doze Apóstolos são êstes: O primeiro, Simão, que se achama Pedro, e André seu irmão.

3Iago, filho de Zebedeu, e João seu irmão, Filipe, e Bartolomeu, Tomé, e Mateus, o Publicano, Tiago, filho de Alfeu e Tadeu.[1]IagoIAGO — Em latim Jacob: pelo princípio de menor esfôrço começou a pronunciar-se na península hispânica Iago, precedido do Sant, vindo daí Sant'Iago e por corrupção inaceitável e injustificável Tiago, ou Thiago, como vulgarmente se diz e escreve, formando uma palavra só da abreviatura de Sant e do Iago. Dever-se-ia escrever T'Iago. (Nota do editor: — Seguindo o critério ortográfico adotado nesta edição, estamos exatamente usando a grafia Tiago).

4Simão Cananeu e Judas Iscariotes, que foi o que o entregou.[2]IscariotesISCARIOTES — Assim chamado, talvez por ser do lugar de Carioth, da tribo de Judá, de que se faz menção no livro de Jos 15, 25.

5A êstes doze enviou Jesus, dando-lhes estas instruções, dizendo: Não ireis caminho de gentios, nem entreis nas cidades dos samaritanos.

6Mas ide antes às ovelhas, que pereceram da casa de Israel.

7E pondo-vos a caminho pregai, dizendo: Que está próximo o reino dos Céus.

8Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expeli os demônios: Dai de graça o que de graça recebestes.

9Não possuais ouro, nem prata, nem tragais dinheiro nas vossas cintas:

10Nem alforje para o caminho, nem duas túnicas, nem calçado, nem bordão; porque digno é o trabalhador do seu alimento.[3]digno é o trabalhadorPORQUE DIGNO É O TRABALHADOR — Daqui se colhe, estarem os fiéis obrigados por Direito Divino a sustentar os ministros do evangelho, que são os seus pastores, devendo porém êstes ministrar os socorros espirituais, o ensino, e todos os deveres do seu Santo Ministério, tendo em vista o máximo desinterêsse e abnegação. Dêste texto também se deduz a Lei da Igreja que não permite aos curas de almas que capitalizem o que auferem da sua chamada côngua, cumprindo-lhes restituir aos pobres o que fôr desnecessário à sua decente sustentação.

11E em qualquer cidade, ou aldeia, em que entrardes, informai-vos de quem há nela digno: E ficai aí até que vos retireis.[4]dignoDIGNO — Isto é, de vos hospedar.

12E ao entrardes na casa, saudai-a, dizendo: Paz seja nesta casa.

13E se aquela casa na realidade o merecer, virá sôbre ela a vossa paz: E se o não merecer, tornará para vós a vossa paz.

14Sucedendo não vos querer alguém em casa, nem ouvir o que dizeis: Ao sair para fora de casa, ou da cidade, sacudi o pó de vossos pés.

15Em verdade vos afirmo isto: Menos rigor experimentará no dia do Juízo a terra de Sodoma, e de Gomorra, do que aquela cidade.

16Vêde que eu vos mando como ovelhas no meio de lôbos. Sêde logo prudentes como as serpentes, e simples como as pombas.

17Mas guardai-vos dos homens; Porque êles vos farão comparecer nos seus juízos; e vos farão açoutar nas suas sinagogas:[5]açoutar nas suas sinagogasFARÃO AÇOUTAR NAS SUAS SINAGOGAS — Profetiza aqui Jesus Cristo as perseguições que sofreriam os Apóstolos e os que seguissem e pregassem a sua doutrina. A perseguição da Sinagoga começou bem depressa, sendo o protomártir S. Estêvão.

18E vós sereis levados por meu respeito à presença dos governadores, e dos reis, para lhes servirdes a êles, e aos gentios de testemunho.[6]governadores, e dos reisGOVERNADORES E REIS — Assim sucedeu dentro e fora do império romano, e ainda hoje sucede, pois as perseguições continuam, como por todos é sabido.

19E quando vos levarem, não cuideis como ou o que haveis de falar: Porque naquela hora vos será inspirado o que haveis de dizer:[7]naquela hora vos será inspiradoPORQUE NAQUELA HORA VOS SERÁ INSPIRADO — Jesus Cristo promete aqui o dom de inspiração e assistência de auxílios e graças especiais, e só por estas se pode explicar a constância admirável, a firmeza heroica, a paciência sobrenatural que ostentavam os mártires do cristianismo, no meio das perseguições mais acerbas, e dos tormentos mais requintados.

20Porque não sois vós os que falais, mas o espírito de vosso Pai é o que falará em vós.

21E um irmão entregará à morte a outro irmão, e o pai ao filho: E os filhos se levantarão contra os pais, e lhes darão a morte:[8]um irmão entregará à morteE UM IRMÃO ENTREGARÁ A MORTE A OUTRO IRMÃO — Foi frequente durante as perseguições ver os pais acusarem e martirizarem os filhos, os irmãos, as irmãs, etc., como sucedeu a Santa Bárbara, etc.

22E vós por causa do meu nome sereis o ódio de todos: Aquele porém que perseverar até ao fim, êsse é o que será salvo.

23Quando porém vos perseguirem numa cidade, fugi para outra. Em verdade vos afirmo, que não acabareis de correr as cidades de Israel, sem que venha o Filho do homem.

24Não é o discípulo mais que seu mestre, nem o servo mais que seu senhor.

25Basta ao discípulo ser como seu mestre: E ao servo como seu senhor. Se êles chamaram Belzebu ao pai de família: Quanto mais aos seus domésticos?

26Pois não os temais: Porque nada há encoberto, que se não venha a descobrir: Nem oculto, que se não venha a saber.

27O que eu vos digo às escuras, dizei-o às claras: E o que se vos diz ao ouvido, publicai-o dos telhados.[9]publicai-o dos telhadosPUBLICAI-O DOS TELHADOS — É um hebraísmo com que se queria significar que se devia dar publicidade aos ensinamentos ministrados por Jesus. Os tetos das casas dos judeus são em forma de terraço, para o qual dava acesso uma escada exterior. Neste terraço liam, isolavam-se, ensinavam, instruíam, recebiam os seus hóspedes, etc.

28E não temais aos que matam o corpo, e não podem matar a alma: Temei antes porém ao que pode lançar no inferno tanto a alma como o corpo.

29Porventura não se vendem dois passarinhos por um asse: E um dêles não cairá sôbre a terra sem vosso Pai?[10]por um asseUM ASSE — Moeda insignificante; parece mais ou menos os nossos dez réis.

SEM VOSSO PAI — Isto é, sem a vontade, sem a ordem do vosso Pai. Jesus Cristo quer fazer entender aos seus Apóstolos, que estão sob a proteção especial do Pai Celeste, e que, por consequência, não se deve arrecear dos homens.

30E até os mesmos cabelos da vossa cabeça todos êles estão contados.

31Não temais pois: Que mais valeis vós que muitos pássaros.

32Todo aquele pois que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante do meu Pai que está nos Céus:

33E o que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos Céus.

34Não julgueis que vim trazer paz à terra: Não vim trazer-lhe paz mas espada:[11]trazer espadaMAS ESPADA — Espada contra o mal, contra a injustiça, contra o êrro, contra o pecado e contra o inferno; porque o Evangelho, que é a Luz, não transija com as trevas, porque é a liberdade, não transija com a tirania.

35Porque vim a separar ao homem contra o seu pai, e a filha contra sua mãe, e a nora contra sua sogra:[12]contra o seu paiCONTRA O SEU PAI — É a explicação do versículo anterior; promulgando-se a intransigência contra o mal.

36E os inimigos do homem serão os seus mesmos domésticos.

37O que ama o pai, ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim. E o que ama o filho ou a filha mais do que a mim, não é digno de mim.

38E o que não toma a sua cruz, e não me segue, não é digno de mim.

39O que acha a sua alma, perdê-la-á: E o que perder a sua alma por mim, achá-la-á.[13]o que acha a sua almaO QUE ACHA A SUA ALMA — Aquele que ao tempo da confissão do meu nome na presença dos perseguidores, me nega por salvar a sua vida, perderá a sua alma; e ao contrário salvará esta o que por aquela causa perder a vida. A expressão alma designa pessoa; a vida, ela; e os bens do mundo.

40O que a vós vos recebe, a mim me recebe: E o que a mim me recebe, recebe aquêle que me enviou.

41O que recebe um profeta na qualidade de profeta, receberá a recompensa de profeta: E o que recebe um justo na qualidade de justo, receberá a recompensa de justo.

42E todo o que der a beber a um daqueles pequeninos um copo dágua fria, só pela razão de ser meu discípulo, na verdade vos digo, que não perderá a sua recompensa.

Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

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