Pe. Figueiredo (1950)

Capítulo 28

Treme a terra. Espantam-se os guardas. Um anjo declara às santas mulheres a ressurreição de Jesus. O Senhor mesmo lhes aparece, e manda-lhes que avisem os Apóstolos. Que o verão em Galiléia. Os guardas subornados dizem que estando êles dormindo, vieram os discípulos, e levaram o corpo. Os discípulos o vêem em Galiléia. Êle os envia a pregar e batizar por todo o mundo.

1Mas na tarde do sábado, ao amanhecer o primeiro dia da semana, veio Maria Madalena, e outra Maria a ver o sepulcro.[1]1AO AMANHECER — O Evangelista conta aqui o dia natural de vinte e quatro horas, desde que sai o sol, até que outra vez torna a sair, como o contavam os romanos. Os hebreus o faziam desde pôsto o sol até que no outro dia se tornava a pôr. E assim o que isto quer dizer, é que se acabava o último dia da semana, e começava o primeiro dia da outra. Jesus Cristo ressuscitou na manhã do domingo, como o crê a Igreja. S. Jerônimo, S. Gregório Niceno, Santo Agostinho e S. Tomás se aplicaram particularmente a fazer ver que na vespere Sabbati se deve explicar, passada a semana, ou a noite do mesmo sábado, e as outras palavras: quae lucescit in prima Sabbati assinalam a declinação desta mesma noite, que era o princípio, e como o raiar da aurora do seguinte dia, isto é, do domingo, primeiro dia da semana seguinte.

OUTRA MARIA — Maria, mulher de Cleofas.

2E eis que tinha havido um grande terremoto, porque um anjo do Senhor desceu do Céu: E chegando revoltou a pedra, e estava assentado sôbre ela.

3E o seu aspecto era como um relâmpago: E a sua vestidura como a neve.

4E de temor dêle se assombraram os guardas, e ficaram como mortos.

5Mas o Anjo falando primeiro, disse às mulheres: Vós outras não tenhais mêdo: Porque sei que vindes buscar a Jesus, que foi crucificado:

6Êle já aqui não está, porque ressuscitou como tinha dito: Vinde, e vêde o lugar onde o Senhor estava pôsto.

7E ide logo, e dizei aos seus discípulos que êle ressuscitou: E ei-lo aí vai adiante de vós para Galiléia: Lá o vereis: Olhai, que eu vo-lo disse antes.[2]2VAI ADIANTE DE VÓS — Obrigando-os assim a sair quanto antes de Jerusalém, e passar a Galiléia, para que estivessem mais distantes de todos aqueles que lhes pudessem fazer algum dano. — S. João Crisóstomo e S. Tomás.

8E saíram logo do sepulcro com mêdo, e ao mesmo tempo com grande gôzo, e foram correndo a dar a nova aos seus discípulos.[3]3E FORAM CORRENDO A DAR — O grego tem: e quando vão a dar a nova aos seus discípulos. Tudo isto se não lê na Vulgata. Estas mulheres saíram do Sepulcro, isto é, da gruta em que estava o Sepulcro de Jesus Cristo, e onde haviam entrado por ordem do Anjo. Este dissipou as trevas daquele lugar escuro, com a luz e resplendor de que ia rodeado, como observa S. Jerônimo. O temor que tiveram, nascia da vista do Anjo, e do perigo em que se julgavam estar, porque duvidavam da verdade das coisas que lhes diziam. Mas êste temor ia de mistura com uma extraordinária alegria, pela novidade da Ressurreição milagrosa do Salvador, que lhes parecia incrível.

9E eis que lhes saiu Jesus ao encontro, dizendo: Deus vos salve. E elas se chegaram a êle, e se abraçaram com os seus pés, e o adoraram.[4]4E SE ABRAÇARAM COM OS SEUS PÉS — Ação de respeito, e de humildade. — Amelote.

10E então lhes disse Jesus: Não temais, ide, dai as novas a meus irmãos para que vão a Galiléia, que lá me verão.[5]5A MEUS IRMÃOS — Aos apóstolos, a quem chama irmãos, para os consolar e animar.

11Ao tempo que elas iam, eis que vieram à cidade alguns dos guardas, e noticiaram aos príncipes dos sacerdotes tudo o que havia sucedido.

12E tendo-se congregado com os anciãos, depois de tomarem conselho, deram uma grande soma de dinheiro aos soldados,

13intimando-lhes esta ordem: Dizei que vieram de noite os seus discípulos, e o levaram furtado enquanto nós estávamos dormindo.[6]6ENQUANTO NÓS ESTÁVAMOS DORMINDO — Como podem estes dar testemunho do que passou, se estavam dormindo? Os que dormistes fostes vós outros, diz admiravelmente Santo Agostinho, encaminhando o seu discurso aos príncipes dos sacerdotes, e aos anciãos, porque recorrendo a um artifício tão pouco verossímil, descobristes vós mesmos a impostura. E como explicar que todos dormiam?

14E se chegar isto aos ouvidos do governador, nós lho faremos crer, e atenderemos à vossa segurança.

15Êles porém depois de receberem o dinheiro, o fizeram conforme as instruções que tinham. E esta voz que se divulgou entre os judeus, dura até ao dia de hoje.

16Partiram pois os onze discípulos para Galiléia; para cima de um monte, onde Jesus lhes havia ordenado que se achassem.

17E vendo-o o adoraram: Ainda que alguns tiveram sua dúvida.[7]7SUA DÚVIDA — Esta dúvida exclui a nímia credulidade que querem atribuir aos apóstolos, e ainda mais o estado de alucinação. Quem duvida pensa, reflete, compara e deduz.

18E chegando Jesus lhes falou, dizendo: Tem-se-me dado todo o poder no Céu e na terra.[8]8TEM-SE-ME DADO TODO O PODER — Para estabelecer em todo o mundo o Reino espiritual de Deus, não para o governar temporalmente. — Amelote.

19Ide pois e ensinai tôdas as gentes: Batizando-as em nome do Padre, e do Filho, e do Espírito Santo.[9]9E ENSINAI TÔDAS AS GENTES — Nisto se encerram tôdas as funções apostólicas: em instruir os povos, e ministrar os Sacramentos, dos quais o primeiro e mais necessário é o Batismo.

20Ensinando-as a observar tôdas as coisas que vos tenho mandado, e estai certos de que eu estou convosco todos os dias, até à consumação do século.

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Introdução

Origem dêste Evangelho. — O autor do primeiro Evangelho é o apóstolo S. Mateus. A tradição universal e constante na Igreja confere-lhe a prioridade cronológica. Eusébio Hist. Ecl., 3, 24; S. Irineu, 3, 1; S. Agostinho, de Consensu Evang.

Autor. — S. Mateus aparece na lista dos Apóstolos, com o sobrenome grego, o telones, Mt 10, 13; Mc 3, 18; Lc 6, 15. É chamado filho de Alfeu, sob o nome de Levi, Mc 2, 14; Lc 5, 25, que foi o seu primitivo nome, ligado à primeira fase da sua vida, pois só depois da vocação tomou o nome de Mateus, que quer dizer: dom de Deus. Habitou em Cafarnaum, cidade então notável pelo seu movimento comercial.

Ocupava-se Mateus no cargo de cobrador de impostos. É o sétimo na ordem da vocação. Dos seus dados biográficos pouco sabemos, pois o Evangelho não os apresenta; apenas sabemos pela tradição que apostolizou durante doze anos na Palestina. Apolônio, cit. por Eusébio Hist. Ecl. e Clemente de Alexandria Strom., 6, 15, p. 804. Depois para sudoeste, sendo martirizado na Etiópia, onde pregou o Evangelho.

Tempo. — Não é fácil precisar com rigor a data da composição do Evangelho de S. Mateus. Foi escrito antes da dispersão dos Apóstolos, o que teve lugar antes do ano 42, ou entre 45 e 48 como afirma Vigouroux. Manuel Biblique. A Crônica Alexandrina indica que foi composto entre o oitavo e décimo quinto ano depois da ascensão de Jesus.

Língua. — S. Mateus escreveu o Evangelho para uso dos Cristãos da Judéia, e conseguintemente em língua que êles sem esfôrço compreendessem, o idioma materno, o hebreu, ou melhor, o aramaico. Hebraeos Hebraice scripsit.Frase reportada com OCR parcialmente ilegível no PDF; texto reconstruído com base na tradição patrística (Papias, Panteno, Orígenes, Eusébio, Cirilo de Jerusalém). Todos concordam neste ponto. O que foi admitido sem discussão até ao século XVI, em que Erasmo de Roterdão apresentou as primeiras dúvidas, suscitando-se depois discussões entrando na luta vários exegetas, Tomás Vio, o cardeal Caetano, Calvino, etc. Hoje é geralmente admitido que S. Mateus escreveu em aramaico.

Caráter do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus não é uma história propriamente dita, nem mesmo uma biografia no sentido rigoroso do têrmo. É um esbôço da vida de Jesus, e um sumário de uma pregação. O autor não atende nem à ordem cronológica nem à ordem lógica, pois nas circunstâncias nem agrupa os fatos, nem os discursos consoante as suas analogias. O seu escopo é demonstrar que Jesus é o Messias prometido ao povo escolhido e por conseguinte que era necessário acreditar na sua palavra, aceitar as suas máximas, entrar na sua Igreja e obedecer às suas leis. Assinala na pessoa de Jesus as características de legislador, taumaturgo, profeta, rei e sumo sacerdote. Refere todos êstes pontos à vista das profecias e diz: Tunc adimpletum est... Ut adimpleretur... Sicut Scriptum est.

As características dêste Evangelho estão perfeitamente de acôrdo com o testemunho da tradição.

1.° O autor era judeu de nascimento. As suas frequentes citações indicam um homem versado no estudo do Antigo Testamento e na leitura dos Profetas. A sua linguagem revela uma educação judaica e o hábito constante de falar a língua do seu país. Segundo êle, a casa de Israel é sempre a Casa de Deus; Jerusalém, a Cidade Santa; o templo, o lugar santo. Os hebraísmos, as aposições paralélicas, características da poesia hebraica, superabundam. E finalmente a descrição rigorosa do aspecto da Galiléia, esclarecimentos topográficos e etnográficos abundantíssimos, revelam o conhecimento da fauna, da flora, da posição geográfica, do modo de pensar e do viver daquele povo, que só podia ter um natural; e esta qualidade revela-se no uso das parábolas, das comparações e imagens, que a cada passo se encontram no Evangelho de S. Mateus.

2.° Foi testemunha presencial dos fatos que narra. Isto mesmo se infere da precisão com que relata os mais insignificantes pormenores da vida de Jesus, principalmente reproduzindo na íntegra os discursos pronunciados pelo Divino Mestre, sem indicar nenhuma outra fonte. É certo que as narrações de S. Marcos são mais circunstanciadas, e que S. Lucas é mais rigoroso na ordem cronológica, mas é preciso ter em vista o escopo de S. Mateus. Êste Evangelista reproduz os discursos de Jesus fielmente, porque os ouviu, senão tê-los-ia inventado, mas se o fizesse, nêle se encontraria alguma coisa que destoasse da divindade de Jesus, que aliás transparece evidentemente nas palavras recolhidas neste Evangelho.

3.° Escrevia para compatriotas, isto é, para os judeus da Palestina, convertidos ao Cristianismo. Se escrevesse para os gentios seguiria outros processos, enveredaria por outro caminho; não tinha necessidade de insistir tanto na Lei Antiga. A leitura do Evangelho de S. Mateus convence-nos de que êle escrevia para os judeus, porque só êstes conheciam as prescrições legais, os vaticínios dos profetas; só êstes entendiam a genealogia do Redentor, só êstes percebiam o valor da frase 'filha de Davi'. De que servia falar aos estranhos na Cidade santa e no lugar santo? Para que falar aos gentios nos usos e leis dos judeus, e para que colocar aquêles no mesmo plano que os publicanos? O que queria indicar falando do livro da Sinagoga, senão que a Lei Mosaica cedia o lugar à Lei da Graça, e que dos destroços da lei ab-rogada devia erguer-se uma nova Igreja, Una, Santa e Universal?

Divisão do Evangelho de S. Mateus. — O Evangelho de S. Mateus compreende três partes, que abrangem os vinte e oito capítulos em que êle se reparte.

PRIMEIRA PARTE — Os primeiros anos da vida do Salvador, cc. 1-3. Jesus.

SEGUNDA PARTE — A pregação de Jesus, cc. 4-25, que se subdivide: a) Pregação na Galiléia, cc. 4-18: 1. Jesus legislador, cc. 4-7. 2. Jesus taumaturgo, cc. 8-18. b) Ministério público de Jesus, cc. 19-25: Jesus profeta, ensina, admoesta e prediz o futuro.

TERCEIRA PARTE — Últimos tempos de Jesus, cc. 26-28: Jesus sacerdote e vítima, no sacrifício do Calvário; a ressurreição e a ascensão.

NOTA — Conquanto sigamos a tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição aprovada pelo Exmo. Patriarca D. Guilherme, teremos sempre presente a versão de Glaire, aprovada pela Santa Sé, depois de exame cuidadoso do S. Index.

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