Capítulo 28
1Mas na tarde do sábado, ao amanhecer o primeiro dia da semana, veio Maria Madalena, e outra Maria a ver o sepulcro.[1]1 — AO AMANHECER — O Evangelista conta aqui o dia natural de vinte e quatro horas, desde que sai o sol, até que outra vez torna a sair, como o contavam os romanos. Os hebreus o faziam desde pôsto o sol até que no outro dia se tornava a pôr. E assim o que isto quer dizer, é que se acabava o último dia da semana, e começava o primeiro dia da outra. Jesus Cristo ressuscitou na manhã do domingo, como o crê a Igreja. S. Jerônimo, S. Gregório Niceno, Santo Agostinho e S. Tomás se aplicaram particularmente a fazer ver que na vespere Sabbati se deve explicar, passada a semana, ou a noite do mesmo sábado, e as outras palavras: quae lucescit in prima Sabbati assinalam a declinação desta mesma noite, que era o princípio, e como o raiar da aurora do seguinte dia, isto é, do domingo, primeiro dia da semana seguinte.
OUTRA MARIA — Maria, mulher de Cleofas.
2E eis que tinha havido um grande terremoto, porque um anjo do Senhor desceu do Céu: E chegando revoltou a pedra, e estava assentado sôbre ela.
3E o seu aspecto era como um relâmpago: E a sua vestidura como a neve.
4E de temor dêle se assombraram os guardas, e ficaram como mortos.
5Mas o Anjo falando primeiro, disse às mulheres: Vós outras não tenhais mêdo: Porque sei que vindes buscar a Jesus, que foi crucificado:
6Êle já aqui não está, porque ressuscitou como tinha dito: Vinde, e vêde o lugar onde o Senhor estava pôsto.
7E ide logo, e dizei aos seus discípulos que êle ressuscitou: E ei-lo aí vai adiante de vós para Galiléia: Lá o vereis: Olhai, que eu vo-lo disse antes.[2]2 — VAI ADIANTE DE VÓS — Obrigando-os assim a sair quanto antes de Jerusalém, e passar a Galiléia, para que estivessem mais distantes de todos aqueles que lhes pudessem fazer algum dano. — S. João Crisóstomo e S. Tomás.
8E saíram logo do sepulcro com mêdo, e ao mesmo tempo com grande gôzo, e foram correndo a dar a nova aos seus discípulos.[3]3 — E FORAM CORRENDO A DAR — O grego tem: e quando vão a dar a nova aos seus discípulos. Tudo isto se não lê na Vulgata. Estas mulheres saíram do Sepulcro, isto é, da gruta em que estava o Sepulcro de Jesus Cristo, e onde haviam entrado por ordem do Anjo. Este dissipou as trevas daquele lugar escuro, com a luz e resplendor de que ia rodeado, como observa S. Jerônimo. O temor que tiveram, nascia da vista do Anjo, e do perigo em que se julgavam estar, porque duvidavam da verdade das coisas que lhes diziam. Mas êste temor ia de mistura com uma extraordinária alegria, pela novidade da Ressurreição milagrosa do Salvador, que lhes parecia incrível.
9E eis que lhes saiu Jesus ao encontro, dizendo: Deus vos salve. E elas se chegaram a êle, e se abraçaram com os seus pés, e o adoraram.[4]4 — E SE ABRAÇARAM COM OS SEUS PÉS — Ação de respeito, e de humildade. — Amelote.
10E então lhes disse Jesus: Não temais, ide, dai as novas a meus irmãos para que vão a Galiléia, que lá me verão.[5]5 — A MEUS IRMÃOS — Aos apóstolos, a quem chama irmãos, para os consolar e animar.
11Ao tempo que elas iam, eis que vieram à cidade alguns dos guardas, e noticiaram aos príncipes dos sacerdotes tudo o que havia sucedido.
12E tendo-se congregado com os anciãos, depois de tomarem conselho, deram uma grande soma de dinheiro aos soldados,
13intimando-lhes esta ordem: Dizei que vieram de noite os seus discípulos, e o levaram furtado enquanto nós estávamos dormindo.[6]6 — ENQUANTO NÓS ESTÁVAMOS DORMINDO — Como podem estes dar testemunho do que passou, se estavam dormindo? Os que dormistes fostes vós outros, diz admiravelmente Santo Agostinho, encaminhando o seu discurso aos príncipes dos sacerdotes, e aos anciãos, porque recorrendo a um artifício tão pouco verossímil, descobristes vós mesmos a impostura. E como explicar que todos dormiam?
14E se chegar isto aos ouvidos do governador, nós lho faremos crer, e atenderemos à vossa segurança.
15Êles porém depois de receberem o dinheiro, o fizeram conforme as instruções que tinham. E esta voz que se divulgou entre os judeus, dura até ao dia de hoje.
16Partiram pois os onze discípulos para Galiléia; para cima de um monte, onde Jesus lhes havia ordenado que se achassem.
17E vendo-o o adoraram: Ainda que alguns tiveram sua dúvida.[7]7 — SUA DÚVIDA — Esta dúvida exclui a nímia credulidade que querem atribuir aos apóstolos, e ainda mais o estado de alucinação. Quem duvida pensa, reflete, compara e deduz.
18E chegando Jesus lhes falou, dizendo: Tem-se-me dado todo o poder no Céu e na terra.[8]8 — TEM-SE-ME DADO TODO O PODER — Para estabelecer em todo o mundo o Reino espiritual de Deus, não para o governar temporalmente. — Amelote.
19Ide pois e ensinai tôdas as gentes: Batizando-as em nome do Padre, e do Filho, e do Espírito Santo.[9]9 — E ENSINAI TÔDAS AS GENTES — Nisto se encerram tôdas as funções apostólicas: em instruir os povos, e ministrar os Sacramentos, dos quais o primeiro e mais necessário é o Batismo.
20Ensinando-as a observar tôdas as coisas que vos tenho mandado, e estai certos de que eu estou convosco todos os dias, até à consumação do século.